Fazendo um rápido exercício, podemos definir juntos qual a principal característica em comum da Trindade da DC? Seria o fato de serem quase deuses? Não, na verdade o Batman não tem habilidades sobrehumanas e/ou modificações genéticas. Então o que une a Princesa das Amazonas, o Cavaleiro de Gotham e o último filho de Krypton? Bom, ambos são caracterizados como pessoas brancas.

Na verdade muitos de nós podem nem ter percebido que a “santíssima trindade” (Batman, Superman e Mulher-Maravilha) é composta por pessoas brancas, mas isso tem uma explicação, fomos acostumados a vermos estes indivíduos como protagonistas destas histórias. Ainda arriscaria dizer que fomos condicionados a encarar isso como natural, assim como fomos ensinados a ver a população negra em papéis subalternos, como vilões e/ou com pouco destaque.
Ao falar sobre a Mulher-Maravilha, o Batman e o Superman, confesso que sou um pouco determinista ao citar que a criação de personagens brancos para protagonizar as HQ’s e posteriormente as séries e filmes pode ser vista como um movimento capaz de naturalizar a imagem que temos sobre estas pessoas, a ideia do “branco salvador”.
Ao longo dos anos, esta maioria branca foi sendo (lentamente) alterada. Em 1977, por exemplo, foi criado o personagem Raio Negro (Jefferson Pierce). Ele, agora em 2020, completou 43 anos desde a sua primeira aparição, porém, notamos que ele é relativamente jovem, em comparação com a nossa já citada trindade que tem mais de 80 anos de publicações. Poderia utilizar as histórias focadas no Raio Negro para ilustrar este texto, porém já falei sobre o personagem em outras ocasiões (LEIA MAIS AQUI).


Utilizo este espaço para celebrar a presença negra nas HQ’s da DC e para isso retorno ao dia 22 de agosto, considerado por mim um dia histórico para os fãs da DC. Obviamente estou falando do DC FanDome, onde tivemos a oportunidade de vermos os anúncios dos próximos projetos da editora. Entre os diversos painéis, existem, há dois que eu gostaria de chamar a atenção, o da Milestone e o da Princesa Núbia.
A Milestone Media foi a responsável por criar o selo Milestone Comics. Ela foi fundada no início dos anos 90 e trouxe para os holofotes a cultura não-branca para as HQ’s. Dwayne McDuffie, Denys Cowan, Derek Dingle e Michael Davis são os nomes por trás da publicação que trouxe ao cenário da cultura pop personagens como o Super Choque. A publicação infelizmente chegou ao fim oficialmente em 1997 e alguns de seus heróis foram integrados ao Universo DC aos poucos.


As publicações podem ser consideradas um marco para a cultura afro, porque ao contrário das histórias tradicionais, elas focavam em trazer para o público arcos tanto protagonizados quanto idealizados por pessoas pretas.
Costumo encarar a Milestone não como uma publicação qualquer, mas como um movimento cultural que tinha como finalidade expressar a cultura e a identidade afro-americana, em contraponto a um universo repleto de pessoas e personagens brancos.
Se quiser ler mais sobre o selo, que inclusive voltará às bancas em 2021, nosso redator Ricardo fez um post especial somente sobre a Milestone, leia mais AQUI.
De volta ao DC FanDome, outro anúncio que me deixou muito animado foi o retorno das publicações protagonizada pela Núbia, a irmã gêmea da Mulher-Maravilha.
A Princesa Núbia fez sua primeira aparição nas HQ’s em janeiro de 1973. Ela foi criada por Robert Kanigher e Don Heck, sendo apresentada em Wonder Woman (vol. 1) # 204. Assim como Diana ela é filha da Rainha Hipólita, de Themyscira. Quando ainda era jovem, ela acabou sendo raptada por Ares, o Deus da Guerra e assim passou a viver longe de sua família em uma ilha flutuante, onde ela era a única mulher.


Apesar de ser a primeira heroína negra da DC, a personagem é pouco conhecida entre o público em geral, mas irá retornar às publicações em 2021, com a HQ “Núbia Real One“. Porém esta não será a única vez que veremos a princesa amazona em 2021, afinal em “DC Future State” ela irá assumir o papel de Mulher-Maravilha no lugar de Diana Prince.


Neste Dia da Consciência Negra, além do retorno da Milestone e das publicações da Princesa Núbia, aproveito para relembrar que em 2021 ainda teremos a estreia de Javicia Leslie como Ryan Wilder, a primeira Batwoman negra da DC Comics.

Como vocês devem lembrar, Leslie foi escalada como a nova Batwoman após a saída da atriz Ruby Rose da série. Vale destacar que Ryan Wilder será uma personagem completamente nova, pois foi criada especialmente para o Arrowverso e assim como Kate Kane, será uma mulher lésbica.

Infelizmente tanto a atriz quanto a direção sofreram alguns ataques racistas após revelarem o visual e o traje da heroína. Como de costume, uma parte do público utilizou a velha frase “quem lacra não lucra” para se referir à personagem. Porém, FELIZMENTE, a produção continua a todo vapor e recentemente a atriz divulgou um teaser de Ryan vestindo o traje da heroína.


Para este público que não gostou da escalação da atriz, tenho um recado. Certamente 2021 será um ano chave para a representação negra, não somente nas HQ’s, mas também nas pequenas e nas grandes telas.

Chega até ser controverso o fato de que quando se trata de histórias com negros, elas são quase instantaneamente tachadas como “para negros” ou “lacração”, porém quando são personagens brancos, elas são para “o público em geral”. Voltando ao início do texto, bom….eu apesar de ser um jovem negro, cresci vendo as histórias sobre o Batman, a Mulher-Maravilha e o Superman, então por que algumas pessoas recusam protagonistas negros?
Com o olhar de pesquisador e de um grande fã da DC, arrisco falar que esta visibilidade servirá para naturalizar o fato de vermos mais pessoas negras assumindo um papel de destaque nestas histórias, e não apenas como vilões ou em papéis subalternos, de acordo com uma lógica racista, que por anos fomos condicionados a aceitar e encarar como natural.

Perdi as contas de quantas palavras escrevi neste texto, mas ainda devo lembrar que em 2021 teremos um maior destaque para a Vixen. A personagem liderará um novo título de equipe nas HQ’s.

Finalizando, gostaria de utilizar uma frase que digo sempre: “Nunca é somente uma HQ, filme ou série. Estas histórias carregam consigo uma responsabilidade social e assim como nossa sociedade, a representação também deve ser diversa”.

Sobre Lucas

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Sou publicitário formado pela UFSM, mestre e doutorando em comunicação pela UFSM também. Fora isso, apenas alguém apaixonado pelo mundo nerd.

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