Início Site Página 331

Coringa | Produção entrega um nova proposta e visão para filmes do gênero

0

Coringa literalmente é um punchline na boca do estômago. O filme é, sem sobre de dúvidas, a melhor produção baseada em quadrinhos da história, e também o melhor da DC. A jornada do herói virou a “jornada do vilão” nas telas de cinema. Você chora, sorri, sente medo e indignação ao mesmo tempo. A produção eleva o padrão de filmes do gênero para outro patamar. O filme direciona sua atenção para um proposta inovadora, que condiciona o seu olhar a compreender e entender como uma pessoa em extrema vulnerabilidade mental e social pode se transformar no maior vilão de todos os tempos.

O filme exige do espectador o máximo de entrega. A compreensão de cada uma das cenas torna-se necessária para analisar como um ser humano, com transtornos psicológicos claros, consegue chegar ao fundo do poço e emergir diante do caos que o cerca. A Gotham City do filme possui um papel fundamental em torno da ascensão do Palhaço do Crime. Além do personagem, a cidade acaba adoecendo de forma simultânea. O filme possui camadas que mesclam os desejos do protagonista, de descoberta de mundo, com sua própria crise existencial e sobre qual o seu real papel na sociedade. Fazer rir? Sempre sorrir? Arthur Fleck entende que essa sim é sua principal função no mundo, entretanto, a realidade acaba tornando-se um espaço cruel para uma pessoa totalmente atormentada.

Joaquin Phoenix merece, sem sombra de dúvidas, a estatueta do Oscar. Impecável atuação. Além disso, a fotografia e a trilha sonora são também marcantes na produção. É como se ambas fossem, ao lado de Joaquin, as protagonistas do filme. A narrativa tira o espectador da zona de conforto. Te faz mexer na cadeira do cinema diversas vezes. E essa insegurança é justamente o que faz o enredo do filme ser esse misto de medo, tristeza e angústia.

Coringa retrata também a ausência do estado em problemas e contextos que necessariamente exigem a sua presença de forma atuante. São problemas reais retratados em uma narrativa fictícia que devem ser discutidos e aprofundados . O discurso político do filme é muito forte e necessário, pois se assemelha e muito a nossa realidade. Problemas sociais como cortes de verbas públicas, crescimento da violência e luta de classes são retratados com maestria na produção.

Sobre as referências com quadrinhos, a estrutura narrativa do filme te propõe a todo o momento buscar um olhar mais atento para elas. Além de Gotham, a família Wayne possui um grande destaque na produção. Também não posso deixar de destacar a atuação de Robert de Niro, seguro e eficiente como já de costume.

Coringa é um filme que certamente se tornará um marco na história do cinema contemporâneo. Todd Phillips entrega a melhor produção da sua carreira e Joaquin Phoenix merece ser um postulante ao prêmio de melhor ator no Oscar.

O filme estreia no dia 3 de outubro em todos os cinemas.

Nota:

Coringa | Pode o personagem ser um incentivador de comportamentos violentos?

0

20 de julho de 2012. Aurora, EUA. Cinema lotado para mais uma sessão de O Cavaleiro das Trevas – Ressurge. Um homem de vinte e quatro anos usando uma máscara de gás, lança uma bomba de gás lacrimogêneo contra a plateia. Em seguida, abre fogo. No total, 12 pessoas foram mortas e 70 ficaram feridas. O atirador foi preso em seguida no estacionamento do shopping. Ao ser abordado pela polícia, se proclamou o próprio Coringa.

A repercussão, como já esperado, foi estrondosa. Uma grande parte da mídia acusou o filme de ser propagador da violência com sérias ideias anarquistas que supostamente, não fariam bem a sociedade. O seu predecessor, O Cavaleiro das Trevas, também foi acusado, principalmente pela interpretação do Coringa e a classificação etária ter sido considerada por muitos, principalmente pais, como inadequada.

Muitos anos se passaram e ataques semelhantes se tornaram cada vez mais comuns. Na busca de culpados, filmes e jogos violentos tem sido acusados por muitos de serem motivadores da violência e até mesmo, o principal causador de tais tragédias. Poderíamos encarar filmes como potenciadores da violência? Qual a responsabilidade do cinema e da arte nesse respeito?

A violência não é assunto novo em Hollywood. Ao invés disso, é um dos temas mais explorados por inúmeras produções, seja explicitamente ou não. Alguns diretores altamente venerados pelo público e a crítica, tem como a violência, sua característica principal em seus filmes, como exemplo, temos Tarantino e Scorsese. O próprio Tarantino revelou estar cansado de defender a violência de seus filmes e que não procura o “politicamente correto”.

Um estudo conduzido por investigadores das Universidades americanas de Columbus e da Pensilvânia e da Universidade de Amsterdã na Holanda, analisou 945 filmes com maiores receitas entre 1950 e 2012. Ao todo, o estudo encontrou 17.695 cenas consideradas violentas, com os filmes de 2012 a terem em média, duas vezes mais cenas violentas do que de 1950.

Para Brad Bushman, coautor do estudo, os resultados apontam para uma inversão de valores sociais. “É chocante como o uso de armas disparou em filmes que são frequentemente direcionados ao público adolescente, parece que as cenas de sexo resultam mais em classificações para adultos do que cenas de violência”. Sobre a ligação ao aumento da violência nos filmes e os eventos de violência constantes no mundo real, Bushman afirmou: “Nós não estabelecemos uma conexão direta com o aumento de tiroteios em escolas e outros locais públicos, mas o aumento de violência armada em filmes certamente coincide com esses eventos”.

Entretanto, alguns especialistas discordam sobre a eficácia desses estudos em estabelecer uma resposta afirmativa ao problema. Wanderley Codo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília afirma que “Esses estudos existem há muito tempo, mas as conclusões são decepcionantes, pois existem resultados que mostram que cenas violentas podem gerar comportamento violento, porém ,existem outros estudos que afirmam que cenas violentas podem diminuir a violência no público, pois ocorreria uma descarga de violência. É um problema sem solução simples.”

O professor de psicologia da Universidade Stenson (EUA) Christopher Ferguson conduziu um estudo em busca em busca de uma conexão entre a evolução da violência nos filmes e jogos no mundo real. O estudo analisou outras variáveis importantes como nível histórico de renda das famílias, número de policiais em cada momento, a taxa da população juvenil e o PIB. O que ficou provado é que não existe correlação entre as cenas violentas dos filmes e a taxa de homicídios. Pelo contrário, na década de 80, quando a violência explodiu nos cinemas, as taxas de homicídio despencaram.

“Se observamos a tendência global entre a violência no cinema e a violência na sociedade, encontramos algumas pequenas correlações”, disse o professor Ferguson ao El País por e-mail. “Elas são acentuadas a meados do século XX, quando a violência nos filmes e os homicídios aparecem correlacionados. No entanto, esta descoberta é questionada pelas primeiras tendências anteriores a 1940 e desde 1990, quando a violência nos meios e a social experimentam uma relação inversa. É uma forma de comprovar como, embora algumas vezes existam correlações, devemos ser cuidadosos ao fazer uma leitura causal dos efeitos”, acrescenta.

O que todos esses estudos evidenciam é como a influência dos filmes sobre o telespectador ainda é impreciso. Obviamente, isso não é uma carta branca para que Hollywood não possa ser questionada sobre suas obras. O padrão de beleza que é tão imposto na sociedade sempre foi incentivado em filmes, fazendo com que crianças cresçam com ideias erradas sobre como seu corpo não é aceitável perante a sociedade e produzindo problemas que perduram pela vida toda.

Ao analisar a influência de um filme sobre um indivíduo, é necessário claramente que se questione quem é esse indivíduo que está assistindo. As emoções que podemos sentir ao assistir a um filme variam bastante e fatores como escolaridade, a própria criação familiar, o conhecimento sobre a obra em questão e o repertório de filmes anteriormente assistidos, não podem ser ignorados. Por isso, julgar um filme específico como incentivador da violência e um gatilho para alguém, é bastante sensível.

Se analisarmos o personagem Coringa, facilmente podemos perceber a psicopatia no personagem. A violência está ligada ao Coringa tanto quanto o senso de justiça está no Batman. O vilão sempre foi o maior contraponto ao Homem-Morcego por justamente, não ter limites e seu senso moral ser inexistente. Coringa representa, mesmo que não intencionalmente, uma triste parcela da sociedade.

Com seu total protagonismo e sem a figura do Batman para se contrapor, Coringa assume totalmente o palco e muitos sugeriram que essa expressão séria um incentivo para os incels, homens, em sua maioria brancos e heterossexuais, que tem dificuldade em se relacionar sexualmente com mulheres. Em fóruns, depositam ódio a mulheres e minorias. Recentemente, o FBI e as Forças Armadas dos EUA, emitiram um alerta a seus membros sobre o perigo de ataques de incels em cinemas dos Estados Unidos.

Ao site IGN, Joaquim Phoenix falou sobre as acusações de incentivos a comportamentos violentos: “Eu não acho que seja responsabilidade de um cineasta ensinar a diferença entre o certo e o errado para o público. As pessoas podem interpretar letras de músicas de maneira errada, podem interpretar livros de maneira errada. Se alguém está nesse nível de distúrbio emocional, qualquer coisa pode ser um gatilho”. O diretor Todd Phillips também comentou sobre o assunto : “Estou surpreso… Não é bom ter essas discussões? Não é bom ter essas discussões sobre esses filmes, sobre violência? Por que isso é ruim se leva a uma conversa sobre isso?”

Os argumentos de Joaquim e Phillips são bastante interessantes. Ambos não negaram o possível influência que o filme possa ter em algumas pessoas, mas julgar uma obra por isso seria completamente errônea e ineficaz para uma possível solução. Como apontou Philips, é através da conversa que podemos começar a resolver o assunto. Expôr as fragilidades através da arte é um excelente início de uma discussão sobre o quanto nós como membros da mesma sociedade, estamos contribuindo para comportamentos destrutivos.

A Warner também se manisfestou após as acusações contra o filme:

“A violência com armas em nossa sociedade é um problema crítico, e oferecemos a nossa simpatia para todas as vítimas e famílias impactadas com essas tragédias. Nossa companhia tem uma longa história de doações a vítimas incluindo Aurora, e nas semanas recentes, nossa empresa-mãe se juntou a outros líderes de empresas para convocar legisladores para promulgar legislação bipartidária para enfrentar esta epidemia.  Ao mesmo tempo, a Warner Bros. acredita que uma das funções da narrativa é provocar conversas difíceis sobre questões complexas”, argumentou a empresa. “Não se engane: nem o personagem fictício do Coringa nem o filme são um endosso de qualquer tipo de violência no mundo real. Não é a intenção do filme, dos cineastas ou do estúdio enaltecer esse personagem como herói.”

Não podemos prever o impacto do filme na sociedade em geral. O que é certo é que será um grande divisor de águas. Coringa é uma personalidade extremamente controversa digna de diversas análises e visões, assim como os tempos atuais.

Coringa estreia no dia 3 de outubro.

Titãs | Dick Grayson se entrega ao Exterminador em novo teaser

0

Divulgado um novo teaser em que Dick Grayson (Brenton Thwaites) se rende a Slade/Exterminador (Esai Morales), na esperança de libertar alguns companheiros de equipe. Confira:

Novas imagens do episódio também foram divulgadas:

Confira um novo pôster do confronto entre os heróis e o Exterminador:

Titãs é exibido todas as sextas-feiras no streaming DC Universe.

The Flash | Imagens dos bastidores podem ter revelado a presença do Flash Negativo

0

A 6ª temporada de The Flash teve algumas imagens de bastidores divulgadas pelo portal Hollywood North Buzz. Elas podem confirmar a presença de um icônico personagem dos quadrinhos na série. Confira:

Tanto no uniforme, com os detalhes em brilho mais escuro, quanto nas mãos do herói, percebe-se algumas diferenças ao tradicional Flash. Nos quadrinhos, o Flash Negativo é resultado do Flash Reverso conseguir prender Barry Allen na Força de Aceleração Negativa. Na época, Hemoglobina era o vilão do velocista, assim como acontecerá na série.

A nova temporada estreia no dia 8 de outubro na CW.

Aves de Rapina | Primeiros cartazes destacam Arlequina e sua Hiena

0

Anunciando o primeiro trailer para amanhã, as contas oficiais de ”Aves de Rapina” liberam 4 lindos cartazes para a divulgação do longa que chega aos cinemas em fevereiro de 2020, confira:

Arlequina (Margot Robbie), Canário Negro (Jurnee Smollett) e Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) formam um grupo inusitado quando Mascara Negra (Ewan McGregor), um perigoso criminoso, começa a revirar Gotham de cabeça pra baixo a procura de uma criança, Cassandra Cain (Ella Jay Basco). Juntas, o grupo precisam se unir para defender a cidade e salvar a garota.

Aves de Rapina chega aos cinemas brasileiros dia 6 de fevereiro.

Batwoman | Atriz faz cirurgia na coluna após acidente em set de filmagens

0

A atriz Ruby Rose sofreu um acidente grave que quase a deixou sem movimentos durante as filmagens de um de seus trabalhos, mas não revelou se seria na série Batwoman.

Rose publicou um vídeo da cirurgia em sua conta do Instagram, agradecendo ao cirurgião e explicando para seus seguidores o motivo por trás da cicatriz em seu pescoço. Assista (Fortes imagens):

A atriz ficou com duas hérnias após sofrer o acidente enquanto gravava uma cena de ação, e essas hérnias quase danificaram sua medula espinhal. Rose afirmou que sentia muitas dores e não conseguia sentir seus braços.

Então a atriz se submeteu a uma cirurgia de emergência. A série Batwoman estreia na CW no dia 6 de outubro.

Watchmen | Jeremy Irons aparece em imagem inédita de gravação

0

A revista Empire divulgou uma nova imagem de Watchmen, com Jeremy Irons em seu cavalo branco. O ator deve interpretar o personagem de Ozymandias na série, mas a informação ainda não foi confirmada. Confira:

Confira a sinopse: “Situada em uma realidade alternativa onde super-heróis são tratados como bandidos, Watchmen abraça a nostalgia da graphic novel original inovadora e segue em busca de abrir novos caminhos próprios“.

A série estreia na HBO no dia 20 de outubro, às 22h.

The Batman | Matt Reeves revela que pretende usar a Bat-Família em seus filmes

0

Conforme a Forbes, o diretor Matt Reeves pretende usar a Bat-família na nova trilogia de filmes do Homem-Morcego que está produzindo, protagonizado por Robert Pattinson.

O portal indica que Reeves começará inicialmente levando as telas Dick Grayson, o Asa Noturna, e posteriormente, deve apresentar a Batgirl. Após a apresentação de ambos personagens nos cinemas, o cineasta colocará mais membros da Bat-Família ao lado de Pattinson.

The Batman tem estreia prevista para 6 de julho de 2021.

Coringa | Relembre a versão do personagem dos anos 60, de César Romero

0

Estamos a cada dia mais próximos da estreia de Coringa nos cinemas, e nossas expectativas estão lá em cima.  Tanto o filme em si quanto o ator Joaquin Phoenix, estão sendo bem avaliados pela crítica, já que o longa conquistou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e Joaquin Phoenix foi aplaudido de pé durante 8 minutos. O processo de entrega do ator foi tanto que ele chegou a declarar que emagreceu 23 quilos para viver Arthur Fleck.

Apesar de estarmos em outubro de 2019, nós do Terraverso resolvemos fazer uma pequena viagem no tempo, vamos voltar para a década de 60, mais precisamente para o ano de 1966, ou melhor, para o filme “Batman- O Homem Morcego”. Para quem não está lembrado (ou não era nascido) o longa era ambientado em Gotham City, e trazia vilões icônicos, como Charada (Frank Gorshin), Pinguim (Burgess Meredith), Mulher-Gato (Lee Meriweather) e o Coringa (Cesar Romero), onde eles tinham um plano de roubar uma invenção secreta e planejavam usá-la de forma maléfica. Além disso, buscavam destruir o Batman e o Robin.

Relembre sobre a obra, com este pequeno vídeo:

Nesta produção, cabia a César Romero, o icônico Coringa que rivalizava sua ações com o Batman, do igualmente inesquecível de Adam West. O ator interpretou uma versão irônica e sarcástica do palhaço e deixou a sua marca em dezenas de milhares de fãs que, até hoje, se lembram de sua atuação cômica e até mesmo divertida, bem diferente do estilo adotado por Phoenix e pelo diretor Todd Phillips para a produção deste ano. Além de aparecer nos cinemas, Romero antagonizou a série do Batman, no mesmo ano:

Cesar Julio Romero Jr. nasceu em NY, no dia 15 de fevereiro de 1907 e morreu em 1 de janeiro de 1994, aos 86 anos de idade.

Coringa estreia nos cinemas brasileiros no dia 3 de outubro.

Coringa | Um punchline na boca do estômago

0

Comédia e tragédia. Dois gêneros irmãos, antigos como o próprio teatro ocidental em si e que, apesar de vistos como antagônicos, andam próximos, separados por uma linha tênue. Tanto a tragédia – centrada no campo do divino e do heroíco – como a comédia – que habita o mundano – buscavam a crítica social e política, um olhar sobre os costumes que, embora específico para a antiga Grécia, ainda hoje nos é muito atual.

O trágico e o cômico são forças correlacionadas, cotidianas, que partilham de uma mesma característica essencial: a inevitabilidade. A tragédia não é simplesmente o acontecimento catastrófico, mas a inevitabilidade que o cerca. A tragédia de Édipo não é (atenção para o spoiler com mais de 2 mil anos de idade) assassinar seu pai e casar com sua mãe, mas a impossibilidade de fugir deste destino. Assim também é… a piada. Se você começa a contar uma piada, a espera pelo punchline é inevitável. A piada precisa desenvolver-se, precisa chegar ao final – mesmo que subverta sua propria necessidade de concluir-se. Uma piada, inevitavelmente, está destinada a causar impacto, a subverter.

Não é à toa que ambos gêneros foram eternizados nas máscaras gregas que simbolizam o teatro até hoje: a máscara da Comédia, que ri, e a máscara da Tragédia, que sofre. Com o passar do tempo e com o estabelecimento do Drama como gênero a tragédia perdeu seu espaço e, também, seu lugar de contrapor a comédia – tanto que, hoje, muitos acreditam que a máscara da Tragédia é, na verdade, a do Drama. Isto se deve também a evolução das demais linguagens artísticas e do nascimento do próprio cinema, que usaram o Drama para classificar histórias que tivessem caráter “sério” e falassem á “vida real” – ao passo que, a tragédia, declinou junto com a civilização grega antiga.

Esta dialética entre alegria e dor, riso e choro, pulsão de vida e pulsão de morte, habita nosso consciente coletivo. E ao longo da história da arte tivemos o surgimento de diversas narrativas e personagens que exploraram esta relação ambígua. Portanto, não é de surpreender que o Coringa, criado por Bob Kane e Bill Finger, tenha se tornado um dos vilões mais influentes e memoráveis da cultura pop. O palhaço cria, junto com seu eterno rival Batman, um par que já predispõe esta disputa de forças e nos convoca à refletí-las.

Desde seu debut, em Batman #1 de 1940, o personagem ganhou diferentes leituras ao longo das décadas. A partir dos anos 80 (Na Era de Bronze ou Era Sombria dos quadrinhos, dependendo do seu ponto de vista), o personagem teve destaque ainda maior dentro do cânone do Batman – em especial, pelo trabalho de Alan Moore e Brian Bolland no clássico A Piada Mortal. O Coringa se firmava como uma figura terrível, um símbolo do caos e da violência responsável pelas maiores atrocidades vistas nas HQ’s. Sua complexidade e possibilidades como personagem tornaram o Príncipe Palhaço do Crime um objeto de estudo psicológico e filosófico interessante aos olhos dos escritores, desenhistas, roteiristas, diretores, animadores, dubladores, atores e diferentes artistas que passaram pela trajetória do personagem nas mídias do universo DC Comics.

Em pleno ano de comemoração das 8 décadas de nascimento do Batman, o Coringa surge para roubar os holofotes mais uma vez – e com seu primeiro filme solo. Dirigido por Todd Phillips (trilogia Se Beber Não Case, Cães de Guerra), que também assume o roteiro junto com Scott Silver (O Lutador, 8 Mile), Coringa traz uma nova ótica sobre a origem do vilão. Em uma Gotham City dos anos 80, acompanhamos Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um homem com histórico de problemas familiares, financeiros e psicológicos. Enquanto tenta a sorte como comediante e humorista, Fleck mergulha em uma espiral de caos que o transformará em um ser à margem da humanidade.

Coringa é, antes de tudo, uma obviedade. É uma revisitação ao mito do Coringa e uma modernização de sua origem. Phillips olha para a nossa contemporaniedade e busca entender como alguém poderia vir a se tornar a materialização do disfuncional, um signo do pior de nossa sociedade. Esta abordagem óbvia, porém, nunca havia sido realizada no cinema, nem mesmo nos quadrinhos, nesta intensidade. Coringa é uma perspectiva crua e horrível, que se torna ainda mais intragável pela escolha de Phillips de retratar sua narrativa da forma mais verossímil possível. O diretor aproveita do potencial da linguagem audiovisual para nos conectar diretamente com as situações, trazendo à carne e ao osso toda a violência, dor e repúdio. Sem qualquer fio de ludicidade ou fantasia, Coringa se torna um filme deliciosamente angustiante e abjeto – e assustadoramente possível em nossa realidade. Um estudo sobre um homem negligenciado e entregue à inevitabilidade trágica e cômica de um sistema que favorece o surgimento do ódio.

A trama é inteligente e entende o peso que a figura do Coringa possui em nosso imaginário. Exatamente por isso, é cuidadosa o suficiente para não deixar que os atos do personagem sejam justificados – ou não tenham, no mínimo, um contraponto que os coloque sob reflexão. O Coringa que vemos em Coringa não é glamourizado. Não é estiloso, não tem frases de efeito, nem uma grande inteligência. É um homem doente, marginalizado, narcisista. Não há sequer uma definição exata de seus transtornos psicológicos, exatamente para evitar qualquer tipo de reconhecimento do público. O mesmo acontece com sua transformação de Arthur para Coringa. Não há um fator decisivo para sua mudança, mas sim um conjunto de agentes internos e externos agindo simultaneamente, uma reação química. Este Coringa ainda é um retrato do caótico, da subversão e da insanidade – e não é nada agradável olhar para ele.

Phillips e Silver sobrepõem diferentes leituras que nos permitem olhar para o nascimento da violência na sociedade atual, abordando desde a esfera política á comportamental. Apesar de deixar em aberto, a dupla conduz o olhar do espectador para alguns pontos que consideram importantes com muito refinamento. O principal deles é o papel dos pais no desenvolvimento do indivíduo e o desenvolvimento disfuncional de crianças traumatizadas. Há em certo momento, por exemplo, um detalhe sutil envolvendo uma poltrona – ou, uma dad’s chair. O papel da mídia e o radicalismo político e ideológico, assim como a redução de problemas complexos a pautas simplórias e extremistas, também é trazido de forma incisiva.

Justamente por este bombardeio de camadas, o roteiro de Coringa é complexo – mesmo sendo muito simples. A trama não é escondida do espectador, que sabe exatamente onde a história chegará – assim como uma tragédia ou uma comédia. A trajetória percorrida é inevitável – mas isso não significa que o público saberá o que assistirá. Coringa é previsivelmente imprevisível.

Todd Phillips realiza seu melhor trabalho de direção até o momento. A condução da câmera é precisa, intercalando entre movimentações suaves e ágeis, em especial travellings (Movimentos onde a câmera se desloca no espaço. Oposto ao movimento de panorâmica, onde a câmera gira em seu próprio eixo.). Também há muito uso de câmera na mão, essencial para nos aproximar de Arthur Fleck e para reforçar a tensão de algumas cenas.

As composições de Phillips também são muito interessantes. O diretor explora o lado esquerdo e direito de seus quadros para conduzir a percepção do espectador. O lado direito, pela presença do ponto de fuga, normalmente detém mais atenção do nosso olhar – consequentemente, tendo mais destaque e peso no quadro. Phillips, então, coloca Arthur ao lado esquerdo quando este está em conflito com alguém – reforçando o quanto é indefeso e fraco – enquanto os outros personagens ocupam a metade direita. Ao longo do filme, quando o personagem se assume como Coringa, passa a ocupar o lado direito, mostrando que o personagem alcançou certo poder – porém, sempre que procura justificar suas ações, volta ao lado esquerdo, reforçando que suas idéias e motivações são “fracas”. Phillips também aproveita do excelente design de produção de Mark Friedberg (Se a Rua Beele Falasse, Selma, Viagem a Darjeeling) para criar composições que ressaltam a grandeza e poluição visual de Gotham City e que diminuem Arthur, fazendo com que o personagem seja engolido pelo visual da cidade. Em contraponto a isto, enche a tela realizando closes desconfortáveis no rosto de Arthur, destacando o crescente de instabilidade e loucura do personagem – e o excelente trabalho de Joaquin Phoenix. Por isto, assistir Coringa em IMAX é altamente recomendado.

Friedberg utiliza de sua experiência em construir paisagens urbanas para criar uma Gotham City muito próxima a vista nos quadrinhos e diferente de todas as versões vistas nos filmes do Homem-Morcego. A construção vai de encontro com a proposta de Todd Phillips de inspirar-se no cinema da Nova Hollywood, em especial nos trabalhos de Brian de Palma, Sidney Lumet, Stanley Kubrick, Milos Forman e, claro, Martin Scorcese – referência mais que assumida de Phillips em sua carreira. As metrópoles vistas nos filmes da Nova Hollywood possuem identidade visual própria que é perfeitamente recriada em Coringa, favorecendo diretamente na imersão do espectador. Um bom exemplo do primor da dupla é sua atenção ao recriar o chão molhado das cenas noturnas dos filmes deste período. Esta era uma saída para resolver o problema de iluminação das externas (A água ajudava a refletir a luz e deixava as cenas um pouco mais claras) e que acabou se tornando uma característica estética. Mais do que uma homenagem, é uma preocupação com o mundo ficcional do filme. Este signo – o chão molhado – chega ao público mesmo que subliminarmente, pois já estamos naturalizados até mesmo com os sentimentos que esta paisagem evoca. Isto é algo que Kubrick também percebeu enquanto filmava De Olhos Bem Fechados. Os centros urbanos da Nova Hollywood também são cercadas por uma aura de desesperança e depressão – exatamente como a Nova York que serviu de base para Bob Kane e Bill Finger nas primeiras histórias do Batman e que, mais tarde, viria a ser rebatizada de Gotham City.

A fotografia de Coringa também cumpre bem a proposta de evocar o cinema da Nova Hollywood. Lawrence Sher (Godzilla II: Rei dos Monstros, Cães de Guerra) explora a iluminação a todo o momento, normalmente optando por deixar parte dos objetos e personagens encoberto por sombras. Isto reforça a dualidade dos personagens e traz tensão. Também utiliza muitos focos de luz vindo de cima, deixando pontos sombreados abaixo dos olhos, nariz e boca – trazendo um tom ameaçador e misterioso aos personagens. O verde e o amarelo predominam, cores que curiosamente tanto podem remeter à alegria e esperança como também à depressão e ansiedade. Estas cores dividem certo equilíbrio até metade do primeiro ato, depois começam a predominar individualmente, se intercalando. Quando o amarelo se sobressai, dá a leitura de enfermidade, de doença. Quando o verde assume, a energia é de toxicidade e poluição.

Sher e Phillips também aproveitam da evolução do personagem para realizar uma progressão do amarelo ao vermelho-alaranjado. Ao longo do filme, veremos a introdução gradual destas cores quentes mais fortes que, boa parte das vezes, serão colocadas junto ao azul para estimular os olhos e criar conflito. Em certo ponto, os tons ficarão ainda mais vivos e fortes, representando o mundo interno de Arthur e a efervescência de Gotham. O vermelho em Coringa possui as mesmas leituras que normalmente tem na linguagem cinematográfica. Violência, sangue, perigo, paixão. Porém, Phillips usa mais uma vez sua inspiração em Scorcese para enriquecer sua condução. Em seus filmes, Scorcese possui um significado muito particular ao vermelho, remetendo-o ao inferno e à culpa católica. Aqui, em Coringa, Phillips realiza o oposto: o vermelho é a impenitência, é o desejo de realizar. Tudo que Arthur Fleck deseja tomar para si é realçado pelo vermelho-alaranjado – o amor, a fama, o palco, a verdade. E tudo que persegue, seu narcisismo destrói. Assim, o vermelho também significará a morte ao longo do filme, papel esse que normalmente é destinado à cor roxa. Por isto, faz todo o sentido que este Coringa tenha abdicado de seu terno roxo clássico para vestir o vermelho.

Esta questão do desejo de Arthur Fleck está presente também nos figurinos de Coringa. O figurinista Mark Bridges (Trama Fantasma, Sangue Negro) reforça através das peças de roupa e cores do personagem sua vontade de pertencimento e reconhecimento, fazendo-o espelhar as roupas daqueles que despertam seu interesse. Há tambem uma composição muito interessante misturando roupas folgadas e roupas apertadas, salientando a imagem de palhaço de Arthur assim como o corpo magro de Phoenix. Bridges monta um guarda-roupa muito eficiente, que retrata muito bem a época pretendida sem perder certo caráter atemporal e que destaca os personagens secundários.

A montagem de Jeff Groth (Cães de Guerra, Projeto X) e a trilha sonora de Hildur Guonadóttir (Sicario: Dia do Soldado, A Chegada, Chernobyl) também merece um destaque especial por conseguir acompanhar todos os movimentos do longa. É pesada, angustiante, melancólica, alegre, visceral. Há também uma grande vantagem: a trilha foi favorecida, composta usando o script e apontamentos pontuais de Phillips como base, e não apenas as cenas já gravadas. Desta forma, as cenas foram criadas já tendo sua paisagem sonora como inspiração, estando totalmente integrada na construção das sequências.

Coringa é um filme de estudo de personagem. Por isso, o filme é de Joaquin Phoenix. O filme é Joaquin Phoenix. O ator – um dos melhores de sua geração – realiza mais um excelente trabalho de composição, possivelmente o melhor de sua carreira até hoje. É uma construção complexa, dificílima. Com muita entrega, Phoenix coloca técnica, emoção, corpo e voz a serviço de Arthur Fleck/Coringa. O ator consegue transitar por diferentes estados e até mesmo intuir diferentes transtornos mentais de forma orgânica e crível. Phoenix explora até mesmo assimetria em suas expressões faciais, o que reforça sua condição doente e causa distanciamento ao público.

A dessintonia está presente também em seu corpo, levada ao extremo em partituras de dança belas e igualmente disformes. O corpo magro e quase esquelético – bem aproveitado pela câmera de Phillips – possui um excesso de tensão nos ombros, que destaca o pescoço e puxa a energia para o chão, nos passando esta percepção de que há algo a ser liberado. Em contraposição, os braços e pernas possuem leveza e se movem descompassados. E a risada… A risada é tenebrosa. Diferente de qualquer risada do Coringa vista até hoje. Phoenix, inspirado por pacientes diagnosticados com risada patológica, cria um símbolo sonoro para a ruptura de Fleck com o social. Por vezes deixando o som ao fundo da boca, por vezes usando de pequenoss golpes no diafragma, o ator intercala entre a artificialidade e a dor.

O elenco de apoio também está muito bem no longa, com menção especial para Robert de Niro e Zazie Beetz. O filme, porém, não busca explorar estes outros personagens mais a fundo – o que não é ruim, na verdade, já que não é a proposta do filme. Todos realizam as funções necessárias em sua trajetória. O foco é total de Arthur Fleck, e em apenas uma cena a câmera deixa de acompanhá-lo.

Coringa é um filme que bebe diretamente do cânone do Príncipe Palhaço do Crime, trazendo boa parte de suas construções de A Piada Mortal e Cavaleiro das Trevas, e bebendo de outros títulos, como V de Vingança. Porém, o filme não tem medo de ser uma experimentação única e inédita do personagem. A verdade é que o filme se tornaria ainda mais interessante se cortasse algumas de suas referências e elementos, que claramente foram inseridos apenas para reforçar a obra como uma adaptação de quadrinhos. Todd Phillips extrai melhor a potência de sua história com outras inspirações, voltadas a filmes como Taxi Driver, O Rei da Comédia, Batman, Batman: O Cavaleiro das Trevas, Um Dia de Cão, Laranja Mecânica, Um Estranho no Ninho, Serpico, Rede de Intrigas, Caminhos Perigosos, Tempos Modernos e Desejo de Matar. Ou mesmo no conto folclórico do Flautista de Hamelin.



Enfim…



Coringa é uma adaptação de quadrinhos que está em outro patamar de maturidade e de pretensão. Uma revisitação ao mito do Coringa, um olhar perturbador sobre o surgimento de um dos maiores vilões da cultura pop – até hoje, nunca explorado, mesmo após 79 anos de história do personagem.

Inspirado fortemente pelo cinema da Nova Hollywood, Todd Phillips usa de uma excelente equipe técnica para recriar a linguagem dos filmes do período, criando uma obra imersiva e crível para chocar e horrorizar seu público. Tudo isto é potencializado por uma performance complexa e vertiginosa de Joaquin Phoenix, em uma das construções de personagem mais incríveis da década. Coringa é um retrato possível da violência presente em nossa contemporaniedade e um soco indigesto no estômago. Uma perspectiva sob as adaptações de quadrinhos, que certamente influenciará o gênero – que se encontra em certa cristalização.

Nas primeiras páginas do crossover Batman, Coringa & O Máskara, durante um assalto a um museu, o vilão, parado em frente a máscaras parecidas com as da Tragédia e da Comédia, explica para Arlequina que as acha “forçada demais para terem graça”. É curioso pensar que, nesta história, o Coringa não se identifique com o exagero do trágico e do cômico, mas age como um ser que está entre estas forças. O “drama”, antes de ser um gênero, era usado para designar a situação, o acontecimento – presente tanto na Comédia como na Tragédia. Tanto que sua tradução literal é “ação”. Neste longa, Phillips e Phoenix nos levam a ver o Coringa justamente desta forma: pura e concreta ação, vivendo entre a tragédia e comédia. O Coringa somente age, levado por uma tormenta de caos interno e externo, destinado a se tornar vítima e algoz do próprio destino.

Coringa é um vislumbre sobre a violência de nossa sociedade e sobre a iminência do surgimento do mal. Um presente trágico, cômico, doente – e, inevitável.

Nota: