Y: O Último Homem | Série aborda a intersexualidade genética

    O intersexo acontece quando um indivíduo nasce com características fora da zona conhecida como masculino e feminino. Seja aparentemente nascendo como uma mulher e possuir o cromossomo Y ou nascer como um homem e possuir órgão reprodutores femininos. E ao abordar estes temas, assim como adicionar personagens trans, mostra que a produção do seriado está sendo detalhista e cuidadosa com a história. Fatos científicos agregados à uma história fantasiosa adiciona o toque de realidade que pode ser o diferencial para um bom roteiro.

    A identidade de gênero é um assunto polêmico e, muito comumente, é deixada de lado em seriados e filmes. A série Y: O Último Homem adicionou o personagem Sam Jordan, interpretado pelo ator Elliot Fletcher, um homem trans sobrevivente do evento misterioso que resultou na morte de todos os machos do planeta. Sam e os outros homens trans são abordados e hostilizados pelas sobreviventes, precisando explicar o porquê de estarem vivos, e decidem procurar um lugar isolado e seguro para viver. A adição de transgêneros no seriado não é apenas sobre a inclusão (mais do que necessária) da identidade de gênero, ela também reforça a ideia de que o fenômeno de extinção está relacionado com o DNA masculino.

    Milhões de mulheres caíram mortas naquele dia, algumas nem faziam ideia de que tinham um cromossomo Y.

    Como dito pela Dra. Mann no episódio 5, mulheres também morreram no evento. A hipótese de Mann relaciona o cromossomo Y ao fatídico evento de extinção. Ela reforça essa ideia conversando com Yorick sobre as meninas da República Dominicana que possuem deficiência na enzima 5-alfa redutase e sobre Síndrome da Insensibilidade aos Andrógenos (SIA), também conhecida como Síndrome de Morris. Ambos os casos são exemplos de ambiguidade sexual, ou intersexo, quando características sexuais não são totalmente masculinas ou femininas.

    A diferenciação sexual biológica acontece durante o desenvolvimento embrionário, quando primeiro acontece o estabelecimento do cromossomo masculino (46,XY) que estimula a maturação do testículo, responsável pela produção de hormônios andrógenos (como a testosterona) que definirão as genitálias internas e externas. Apesar de cirurgias e tratamentos hormonais, uma pessoa que nasce biologicamente como fêmea não consegue alterar seu código genético. Por isso homens trans precisam injetar testosterona periodicamente para manter características masculinas como a barba. Baseando-se nisso, é possível assumir que nenhuma pessoa nascida biologicamente como mulher morreria na série.

    Em uma região da República Dominicana existem crianças chamadas de Guevedoces, pois ao nasceram possuem genitálias aparentemente femininas e durante a puberdade ocorre o desenvolvimento do pênis e testículos. Isso acontece porque durante o desenvolvimento, os testículos recém formados enviam testosterona para uma estrutura chamada tubérculo. Neste local o hormônio será convertido em um outro hormônio chamado dihidrotestosterona (DHT), ao qual transforma o tubérculo em pênis. Sem a presença do DHT o tubérculo se transforma no clitóris. A deficiência da enzima citada por Mann faz com que a produção deste hormônio seja reduzida causando problemas no desenvolvimento genital. No período da puberdade, em resumo, existe uma nova onda hormonal ao qual aumentam a concentração desses hormônios no organismo e os órgãos masculinos aparecem no menino que nasceu como uma menina.

    Por ser uma doença autossômica recessiva, ao qual pai e mãe precisam portar o gene, os Guevedoces são mais comuns em regiões onde existam casamentos entre parentes como é o caso da vila na República Dominicana que Dra. Mann citou. É natural afirmar que, durante o evento de extinção da série, os Guevedoces que não atingiram a puberdade morreram ainda como meninas.

    No caso da Síndrome de Moris, ou SIA, a pessoa possui o cromossomo masculino, mas pode possuir características femininas ou ambíguas por falta de resposta aos hormônios andrógenos causada por uma alteração no cromossomo X. Isto provoca a inexistência ou deformidade da proteína receptora de andrógenos, o que impedirá a conversão do DHT. Como dito anteriormente, o DHT é responsável pela formação do pênis assim como na produção pelo corporal. A SIA pode ser expressada em grau completo: quando o órgão sexual externo é completamente feminino; em grau parcial: quando o órgão sexual externo é uma mistura do masculino e feminino; e em grau leve: quando o órgão sexual externo é masculino. A síndrome é causada por um gene recessivo, transmitido pela mãe, e é considerada rara. No caso de portadores com grau completo, ao atingirem o período de puberdade e não apresentarem as características do ciclo reprodutivo feminino é quando descobre que a pessoa possui a síndrome.

    Tanto os Guevedoces quanto pessoas portadoras da SIA em grau completo morreram junto com os outros machos dentro do universo da série Y: O Último Homem, mesmo aparentando terem nascido com fêmeas. Apesar da Dra. Mann quantificar como “milhões de mulheres” esses dois casos são considerados raros, porém os produtores merecem reconhecimento por trazerem um pouco da ciência de verdade para o seriado.

    ‘Y: The Last Man’ está disponível no streaming Star+.

    Rayanne Matos
    Rayanne Matoshttps://terraverso.com.br
    Capixaba. 1993. Bióloga. Sarcasmo. Socialmente distante. Hera Venenosa. Torre de Babel. Me envie fanfic. Time is money, money is power, power is pizza and pizza is knowledge. Let’s go!

    Deixe seu comentário

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Por favor digite seu comentário!
    Por favor, digite seu nome aqui

    Você pode gostar

    Siga-nos

    24,169FãsCurtir
    15,600SeguidoresSeguir
    19,532SeguidoresSeguir

    Últimas Postagens