Superman e a importância do “S” para pessoas negras

    Neste ano foi anunciada a produção de um novo filme do Superman, com uma versão negra do herói e passei alguns bons meses refletindo sobre isso e como é fascinante essa ideia.

    Destaco aqui um artigo muito bem escrito pelo meu colega de redação Lucas Pimentel, que debate a reação negativa e porque é importante o surgimento deste Superman negro no mundo atual. Por outro lado, irei falar desta mesma importância, mas com uma perspectiva um pouco diferente.

    O arquétipo do herói na psicanálise Jungiana 

    Carl Gustav Jung foi um psiquiatra suiço que se tornou um dos mais importantes membros do movimento psicanalítico, divergindo de Freud a respeito de alguns conceitos e dentre eles a noção de inconsciente.

    Para Jung, a constituição da psique tem sua origem de várias fontes que iniciam do indivíduo, o mais intímo, até conjuntos mais amplos como família, etnia, cultura e até a própria raça humana. Portanto, a experiência inconsciente pessoal que forma o individuo converge com este coletivo, contendo arquétipos ancestrais que podem ser observados em todas as sociedades e culturas.

    Mas por que estou falando sobre inconsciente coletivo e um Superman negro? Eu gostaria de deixar essa reflexão sobre este acontecimento tão importante, principalmente pela construção simbólica que tanto o personagem quanto o momento irão proporcionar para o futuro.

    Quando falamos do Homem de Aço, a sua importância não é apenas um significado, atribuído por ser o primeiro herói de uma leva de quadrinhos que se expandiu de forma complexa, mas sim um símbolo que agrega valores que são semelhantes ao arquétipo heroico junguiano e que podemos considerar esse personagem parte deste inconsciente coletivo.

    Este arquétipo supera as adversidades e luta contra o mal. Mesmo tendo fraquezas, o vemos superar seus obstáculos como uma força motivadora que nos impulsiona a buscar o nosso equilíbrio e assim, podemos acompanhar sua jornada em diversas histórias, como Superman: Grandes Astros, As Quatro Estações, Para o Homem que Tem Tudo e além de  diversos momentos em suas mais de oito décadas de existência, tornando o último filho de Krypton um ícone cultural.

    Uma releitura do grande personagem distante de aspectos heteronormativos

    Apesar de carregar tantos valores positivos, inclusive ser um imigrante que foi brilhantemente apontado pelo Lucas no seu texto, o Superman ainda é um herói moldado dentro de uma sociedade heteronormativa e que infelizmente existem alas mais conservadoras deste vasto universo de histórias que consideram essas características imutáveis. São pessoas altamente resistentes a mudanças e novas leituras sobre este personagem tão importante.

    Porém, em um mundo que contempla a diversidade, todos tem o direito de se identificarem com personagens e suas narrativas. A chegada de um Superman negro nos quadrinhos e agora sua futura adaptação nos cinemas associa este símbolo de grandeza a um público que a tal “sociedade conservadora” luta incessantemente para silenciar.

    Seja a versão de Calvin Ellis ou Val Zod que chegar primeiro ao live action, o herói mais poderoso do universo DC se tornará a personalização de uma minoria como a figura de uma pessoa negra. Isso não significa apenas que uma editora está explorando um novo público, mas uma ressignificação de subjetividade do arquétipo associado ao Superman. Ele irá se tornar parte deste inconsciente coletivo,  permitindo que essas pessoas possam se identificar com este símbolo e se inspirem na sua realidade.

    A identificação do público negro com a esperança: Um Superman só seu!

    Não acredito que apenas o efeito midiático do filme será grande, afinal o próprio anúncio moveu opiniões de diversos veículos, mas se pensarmos nos efeitos deste longa na formação de subjetividade das pessoas negras, a esperança será atribuída a nós que vivemos uma constante luta pelo respeito a existência e a não discriminação. Isso é algo que considero inspirador e muito válido para se levar ao cinema.

    Além que um homem negro ser o humano mais poderoso do planeta em uma sociedade branca é um contexto que, socialmente falando, é uma boa provocação para este mundo tão conservador, afinal, o S no cai muito bem.

    Não sei dizer em quanto tempo veremos a primeira adaptação; o seriado produzido por Michael B. Jordan ou o filme roteirizado por Ta-Nehisi Coates, porém, acredito que um símbolo tão grande como o do Superman estar sendo representado para o público como um homem negro será um fenômeno além da mídia. O fato atribuirá um valor que vai além das grandes telas e bilheterias, pois poderemos sonhar com um futuro melhor, mais representativo e como dito por Jung; “Um sonho é uma pequena porta escondida no santuário mais profundo e mais íntimo da alma, que se abre para a noite cósmica e primordial, que é a alma, muito antes de existir o ego consciente.”

    Ricardo dos Santoshttps://terraverso.com.br
    Fã de quadrinhos, séries, filmes e games. Apaixonado por DC de Grant Morrison a Alan Moore. Mais um privilegiado de estar na amada Terraverso.

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