No penúltimo episódio da temporada de Watchmen, tivemos finalmente a aparição do Dr. Manhattan na série. O ator Yahya Abdul-Mateen é o responsável por interpretar o personagem na HBO. E sua aparição além de provocar alguns memes, também despertou a ira de quem queria uma versão do Dr. Manhattan mais “próxima dos quadrinhos”.

Nós aqui do Terraverso, já escrevemos artigos condenando as declarações de algumas pessoas sobre a aparência da atriz Anna Diop, a Estelar da série Titãs. -Leia o texto aqui- E mais recentemente, o preconceito disfarçado de opinião quando a atriz Zoë Kravitz foi escolhida para viver a Mulher-Gato nos cinemas. -Leia aqui-.

É importante ressaltar aqui que a série da HBO respeita o legado da obra original criada por Alan Moore. Mesmo com o escritor desconsiderando toda e qualquer criação sobre o universo de Watchmen, a série de Damon Lindelof não propõe em nenhum momento deturpações da construção de mundo realizada nos anos 80. Pelo contrário, a série apresenta o que cientificamente chamamos de expansão de mundo, apresentando novos elementos a partir de uma nova linha de tempo/espaço após os acontecimentos da HQ de Watchmen.

Assim como na HQ, a série destaca essa falta de humanidade que o Dr. Manhattan possui. Um ser frio, calculista, inteligente e extremamente metódico. Em suma, um Deus. Acontece que, assim como na obra original, Manhattan possui um pouco de Jonathan Osterman na sua essência, algo que dialoga com o existencialismo humano, e, principalmente, com a necessidade de amar e se sentir amado.

Na série, Jon apaixona-se por Angela Abar. Ele busca ter uma nova vida ao lado dela, esquecendo sua verdadeira aparência e quem ele é realmente. A escolha da sua nova identidade foi feita pela própria Angela. E esse é um ponto fundamental de compreensão, que durante um vislumbre superficial, acaba meramente esquecido pela parte dos fãs que vem criticando a aparência do personagem.

É essencial também levar em consideração que a série aborda como pano de fundo a luta contra o racismo. O combate a supremacistas brancos e organizações criminosas que se colocam como uma raça superior. Ora, vocês já pararam para pensar o impacto, dentro da proposta de trama da série, que o ser mais poderoso do universo nos tempos atuais fosse um homem negro? Assim como o episódio “This Extraordinary Being” , que aborda a jornada do herói do Justiça Encapuzada, o Dr. Manhattan do ator YahyaAbdul-Mateen acaba por incomodar quem hoje vive em 2019, da mesma forma que um policial negro não era aceito nos anos 40.

Hoje, um herói que era AZUL não é aceito ser interpretado por um ator negro. Assim como recentemente, uma heroína LARANJA não era aceita ser interpretada por uma atriz negra. A questão vai muito além de fidelidade, porque ambos os personagens são retratados com respeito aos quadrinhos. Estamos falando de obras ficcionais, que precisam ser reinventadas e abordadas conforme a vida contemporânea deste século. A arte jamais deve ser vista como algo sólido, engessado e fechado a novas visões. Deve ser uma manifestação humana que converse e aponte novos rumos para que possamos observar nuances e situações da nossa vida cotidiana.

Damon Lindelof inclui em Watchmen uma genial aproximação com a nossa realidade. Há um desconforto de algumas pessoas ao ver que hoje, um dos personagens mais poderosos do universo DC é um homem negro.

E desse forma, podemos observar que a história se repete. Tanto em Minutemen como agora, na vida real.

Sobre Willyan

Willyan Bertotto

Publicitário. Diretor de Arte, Designer e Batmaníaco. Fã incondicional da DC Comics e pesquisador assíduo desse universo e todas as suas possibilidades de transformação.

Últimas notícias