Sempre que olhamos discussões de grupos relacionados ao universo nerd, principalmente os fãs de quadrinhos, nos deparamos com alguns temas que geram debates acalorados, principalmente partindo daqueles “leitores” mais conservadores, relacionados a existência da diversidade e as histórias de temas políticos nas HQs.

Creio que ao dizer para uma pessoa que repudia a diversidade e que histórias em quadrinhos e política são coisas que não combinam estão terrivelmente errados. Não é algo que seria novidade, pois as obras ficcionais sempre retrataram a nossa realidade tanto como sociedade quanto período histórico, afinal, o ser humano sempre procurou de alguma forma registrar a sua existência e os quadrinhos são uma forma de mostrar estes registros.

Com o grande movimento das adaptações de personagens dos universos das HQ’s para o live action, seja em seriado ou em filme, essa diversidade passou para outras mídias o que casou incômodo para aquela mesma ala de “fãs” conservadores criticarem adaptações com personagens, sejam eles LGBTQ+ ou negros, colocando-os sob o termo “lacre”, como se o fato desses personagens não se encaixarem no modelo heteronormativo fosse um critério de qualidade, o que eu particularmente me sinto triste ao ver que em um universo tão rico como o dos quadrinhos e da cultura nerd ainda exista pessoas tão tóxicas.

E dentre as obras mais recentes, uma me chamou muito a atenção por ser capaz de englobar dois assuntos tão relevantes deste mundo nerd em um seriado, Watchmen da HBO, lançado em 2019. A história conta o que acontece após os eventos da obra escrita por Alan Moore, agora, na contemporaneidade e na cidade Tulsa nos Estados Unidos, apresentando personagens importantes e uma narrativa cheia de mistérios com revelações surpreendentes.

O massacre que é contado em flashbacks no primeiro episódio realmente existiu na mesma cidade, no ano de 1921 (e recentemente, no dia 1º de junho, completamos 99 anos do ocorrido) e muitos negros foram assassinados de forma brutal por moradores brancos no que foi considerado o mais violento ataque de violência racial na história americana. No seriado, um destes sobreviventes é o homem que vai se tornar o Justiça Encapuzada, um dos membros fundadores da equipe Minutemen, e a partir de sua origem e a sua luta contra uma sociedade secreta de supremacia branca, temos uma das narrativas mais incríveis do seriado Watchmen.

Will Reeves foi interpretado por Louis Gossett Jr., no período presente e no episódio “This Extraordinary Being” pelo ator Jovan Adepo, em um episódio no qual Angela Abar de Regina King, a protagonista da minissérie, revive as memórias de seu avô. De todo a série, este é o que eu considero o melhor episódio, Reeves é um homem negro que consegue se formar na academia de polícia mas, por ser negro, foi agredido e enforcado até quase a morte. Ao retornar para sua casa, ele encontra um casal sendo atacado por um grupo de homens e, com a mesma máscara que foi utilizada para enforca-lo, ele esconde a sua identidade e os defende sendo chamado de herói e assim recebendo a alcunha de Justiça Encapuzada.

Para algumas pessoas talvez este episódio seja apenas considerado bom por envolver ótimas cenas de ação e uma revelação bombástica, mas para alguém que já foi ao mercado e foi perguntado se tinha dinheiro para pagar o que estava comprando ou já foi atendido por último em um restaurante pois o casal branco que chegou depois merece mais atenção, estes minutos que foram dedicados para contar sobre o Justiça Encapuzada possuem um significado mais profundo. Will Reeves, de fato, é um ser extraordinário não apenas por ter quase dois metros de altura e punir criminosos com suas próprias mãos, mas por ele representar algo maior, o primeiro vigilante denominado um herói ser negro, mesmo que a sociedade racista na qual ele vivia o obrigasse a esconder esse fato.

Quando se compara com o mundo e sua situação atual, muitos homens e mulheres também se sentem sufocados por serem negros, não sendo diferente do que Will Reeves sentiu ao ser agredido e enforcado em uma árvore, exatamente como na música em forma de protesto Strange Fruit de Billie Holiday, esse sentimento de revolta nos movimenta a fazer algo e lutar contra o sistema, essa regra hegemônica que faz algumas pessoas acreditarem que a sua cor te coloca como um ser humano inferior. Em Watchmen, Will escolheu ser o Justiça Encapuzada, no mundo real as pessoas escolhem protestar, fazendo suas vozes serem ouvidas e eu encontrei neste lugar tão especial chamado Terraverso a oportunidade de falar sobre estes temas com o apoio incondicional de toda a redação.

No mundo real também existem seres extraordinários que são figuras inspiradoras como Martin Luther King Jr, Nelson Mandela ou as pessoas que não suportaram mais se calar após o caso George Floyd cuja a morte foi o estopim de uma revolta e protestos que tomaram conta dos Estados Unidos e, para uma criança que via o Lanterna Verde ser um homem negro, hoje adulto consigo imaginar que o mal está sendo combatido e com certeza será derrotado.

Seja na vida real ou na ficção, sempre haverão estes seres extraordinários que jamais irão se calar diante da injustiça, seja nos quadrinhos como um guardião esmeralda, nas séries como um vigilante encapuzado, nas ruas protestando ou, como no meu caso, mostrando com os meus argumentos para aqueles que acreditam na tola falácia de que o universo dos quadrinhos não deve incluir os temas da nossa sociedade. A ficção não está tão longe da realidade.

Sobre Ricardo

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Fã de quadrinhos, séries, filmes e games. Apaixonado por DC de Grant Morrison a Alan Moore. Mais um privilegiado de estar na amada Terraverso.

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