Estranhas Aventuras | Adam Strange: herói de guerra ou assassino?

    Em uma inversão de papeis tão realista quanto títulos do selo DC Black Label, “Strange Adventures” (no Brasil, ‘Estranhas Aventuras), escrito por Tom King e com artes de tirar o fôlego do artista Mitch Gerads, conquista a difícil tarefa de fazer o leitor duvidar da integridade de um herói e seus anos de guerra.

    Quem já é familiarizado pelo trabalho de King, principalmente por suas parcerias com Gerads, consegue se sentir abraçado logo nas primeiras páginas do título, com artes de (novamente) tirar o fôlego, Strange Adventures chama a atenção principalmente pela apresentação de seus personagens, sem traços cartunescos, com mensagens e ações mais duras e secas ao acompanhar os quadros.

    Na primeira metade da história (do #1 ao #6, de 12 edições), intercalamos entre eventos do passado de Adam Strange e sua esposa, a não tão agradável Alanna, e o momento presente. King nos mostra grandes batalhas pela sobrevivência do planeta natal da ‘Senhora Strange’, Rann, enquanto Adam sofre para provar sua integridade perante a acusações pesadas sobre um assassinato que pode ou não ter seu envolvimento. Quando não estamos mais confiantes nas palavras e relatos de nossos heróis é que passamos a nos perguntar o que realmente as páginas e páginas de aventuras de Rann significam.

    Podemos confiar em Adam Strange? 

    E essa é uma dúvida que pendura durante toda a história, sendo cada vez mais validada pelas ações de Strange e Alanna no presente, perante as acusações de assassinato de um hater do herói, que foi encontrado morto com um tiro na cabeça dado supostamente pela famosa arma intergaláctica de Strange. É o suficiente para tornar nosso não tão otimista herói em um vilão de sua própria trama. Mas existe muito mais por trás das ações de Adam após ser acusado de matar alguém, e é através das ações e relatos de sua esposa que podemos começar a atirar nossas próprias conclusões.

    Talvez a maior sacada de King aqui foi subverter os papéis, colocando Strange a frente do juri popular, dividindo o povo americano entre quem acredita em sua inocência, e quem cegamente o julga por suas ações em Rann, e agora seu possível envolvimento em um crime na Terra. Mas ao contrário do que se esperava, Adam só pode ser visto por nós leitores através dos flashbacks da guerra, em momentos descritos pelo próprio Adam em seu livro autoral, que o obrigou a sair em turnê pelo país. Quem toma a frente e carrega a narrativa é Alanna, onde King não teve o menor receio em retratar como uma mulher dura, atormentada pelo passado, sem papas na língua, e em diversos momentos cruel.

    Mas não me entenda mal, Alanna não é uma vilã, apesar de carregar certos momentos que a colocariam em um papel duvidoso, sua personalidade casa com alguém como Selina Kyle, uma mulher forte, sem medo de agir em próprio benefício. Ao conhecermos mais sobre o que ela e Adam passaram na guerra, conseguimos entender cada vez mais suas ações no presente, e o caminho que a fez se tornar tão dura.

    Estabelecendo desde cedo os meios do casal, King consegue com sucesso recriar uma nova e não tão explorada dinâmica entre ‘herói e donzela’, fazendo das páginas da Alanna interessantes e envolventes, tanto no passado quanto no presente. A perda de um familiar, a guerra por seu povo e planeta, o difícil relacionamento com seu marido, tudo entra em conta na criação de uma personagem tão distintiva, e na minha opinião, a melhor parte de toda a saga.

    As edições finais tomam outro rumo, a participação mais que bem vinda do Senhor Incrível (Mister Terrific) como o detetive por trás do caso em que Adam esta sendo acusado é uma das inúmeras decisões interessantes aqui, dando foco em um personagem pouco usado na DC, que não só mostrou serviço como deu seu nome, e espero muito que aqui seja só o começo de um retorno merecido as histórias principais da editora para o herói.

    Incrível segue o arquétipo clichê do detetive durão e sem tempo para simpatia, mas sua figura antipática combinado com um visual marcante trás momentos de destaque pelo título. E uma cena específica onde há retratação de racismo e a maneira que o herói responde ao mesmo carregam para mim as melhores frases de toda a história. Ele não tem medo de perguntar as perguntas mais difíceis, e conhecendo mais sobre seu passado nas edições finais, foi essencial para entender de onde vem tanta amargura.

    A conclusão se arrasta, as revelações acontecem de forma gradual, mas consequências só chegam nos títulos finais e talvez cortar umas 2 edições teria sido melhor. Os constantes adiamentos de lançamentos das publicações também não ajudaram.

    A guerra chega ao presente, a Terra é o novo alvo dos terríveis Pykkt, e a Liga da Justiça faz uma participação curta mas eficaz, cobrindo o maior espaço possível em proteger o planeta de um terrível fim como aconteceu com Rann, e mais uma vez, Alanna e Strange são colocados a frente, por ter experiência no combate desta espécie que está atacando a Terra.

    É agora que podemos ver como a guerra afetou Strange de maneiras inimagináveis, e suas ações nas edições anteriores são mais uma vez validadas aqui. Não é de graça, é bem construído, e assim como na saga de Tom King, Heróis em Crise, temos uma belíssima e assustadora retratação de um sobrevivente de guerra colocada sobre as lentes de um herói em quadrinhos, funcionou bem em Heróis em Crise, mas funciona melhor aqui.

    Strange Adventures é uma saga curta, bem estruturada e com um mistério um tanto raso em um primeiro ponto de vista, mas com muito a discutir quando bem aprofundado. Em momentos atuais, é muito satisfatório ver personagens em quadrinhos que são tão falhos e reais quanto nós mesmos, que não precisam ser definidos para sempre por suas ações do passado, e que sim, continuam sendo heróis, independente de erros e decisões difíceis feitas mediante a situações mais difíceis ainda. É sobre ação e consequência, e que nem todo herói seguirá aquilo que lhe é imposto, referente aos seus atos de heroísmo, que no fim, fazem dele mais ou menos heróico?

    Nota: 52/52 – Excelente!

    Juan Santos
    Juan Santoshttps://terraverso.com.br
    "Lembrai, lembrai, o cinco de novembro. A pólvora, a traição e o ardil; por isso não vejo porque esquecer; uma traição de pólvora tão vil" - “V for Vendetta”

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