Conheça a vez em que o Superman derrotou a Klan, na vida real!

    Superman deu as caras pela primeira vez na revista Action Comics #1, de 1938, sendo uma criação do americano Jerry Siegel, filho de imigrantes lituanos judeus, e do canadense Joe Shuster, filho de imigrantes holandeses e ucranianos judeus. O título marca o início da chamada Era de Ouro nos quadrinhos, e abriu as portas para todo o vasto conceito de super-heróis conhecido desde então.

    Diferente de muitos outros, o personagem resistiu ao teste do tempo e não demorando muito para alcançar o status de modelo, que mantém até os dias atuais. Ele migrou rapidamente para outras mídias, onde enriqueceu ainda mais sua mitologia e fortaleceu o significado do S em seu peito. Antes como o campeão dos oprimidos, e hoje presando por um amanhã melhor.

    Inúmeros são seus feitos, dentro e fora dos quadrinhos, contudo um em especial salta aos olhos por, infelizmente, permanecer tão próximo da realidade em que vivemos. Estamos falando da vez em que, o Superman derrotou o grupo supremacista da Ku Klux Klan, não nas páginas em quadrinhos ou nas animações, mas sim na vida real.

    Antes do cinema ou da TV, houve o rádio!

    The Adventures of Superman foi um programa de rádio e uma grande febre com o público infantil. O show era a extensão das páginas dos quadrinhos e o local onde elementos icônicos da mitologia do herói viram a luz pela primeira vez, como o melhor amigo do azulão e fotógrafo do Planeta Diário, Jimmy Olsen e a Kryptonita, a perigosa e radioativa pedra verde do espaço.

    Aliás, a kryptonita foi criada no programa de rádio do Superman, em 1943, como um elemento de roteiro e para permitir que o ator que interpretava o Superman, Bud Collyer, pudesse ocasionalmente descansar, assim, outro ator poderia assumir a sua voz. Demorou até 1949 para que as histórias em quadrinhos incorporassem o conceito da pedra em suas narrativas.

    O programa foi transmitido entre os anos de 1940 até 1951, com exibição aos finais da tarde em horários distintos e adotando diferentes formatos ao longo dos anos. Entre 1940 e 1942, com episódios de 15 minutos durante três vezes por semana, ele foi ao ar pela primeira vez por meio de discos de transcrição pré-gravados em 11 estações, com uma história original, “The Baby from Krypton“, transmitido originalmente no dia 12 de fevereiro de 1940.

    Logo depois, o programa adotou formatos variados de até meia hora e três vezes por semana. A série mudou para ABC no sábado à noite em 29 de outubro de 1949, e então fez uma pausa por cinco meses, retornando como uma série duas vezes por semana até o dia 1º de março de 1951. Ao todo, o programa de rádio teve 2.088 episódios originais.

    Quem era a voz por trás dos óculos?

    A voz por trás do Homem de Aço ficou a cargo do locutor Clayton “Bud” Collyer, que ficou bastante conhecido pela notável transformação de voz para diferenciar o Superman, e seu alter ego Clark Kent, de tal forma que passou a dublar o personagem na série de curtas-metragens animados da Fleischer Studios na década de 1940, e nos desenhos animados do Superman produzido pela Filmation, na década de 1960.

    Bud Collyer, a primeira voz do Superman.

    Curiosamente, como forma de manter intacto o imaginário fantástico em volta do personagem, a real identidade por trás da voz do Superman foi escondida do público até o ano de 1946, quando Collyer precisou fazer uma série de entrevistas após o herói ser usado em uma campanha contra a intolerância racial.

    Como surgiu a ideia de derrotar a Klan?

    Stetson Kennedy era um jornalista e ativista de direitos humanos nascido no sul dos EUA e começou a sua cruzada contra os grupos de terroristas raciais por acreditar que lutar contra tais organizações era uma contribuição valiosa para a democracia. Ele se estabeleceu em Atlanta, capital do estado da Geórgia, conhecida na época como um porto seguro para outros grupos extremistas, e vazando informações para a polícia local e a imprensa, tendo como principal alvo a Ku Klux Klan.

    Em 1944, Kennedy trabalhou juntamente a organizações que buscavam expor e minar grupos de ódio organizado. Ele utilizou identidades secretas para adentrar nos cultos e relatar suas atividades e tinha como principal cliente, a filial em Atlanta da Anti-Defamation League (ADL), uma organização não governamental judaica internacional criada para combater todas as formas de intolerância e antissemitismo.

    Tempos depois, com um plano de se infiltrar na KKK, Kennedy usou um disfarce um tanto quanto simples. Fazendo-se passar por um vendedor de enciclopédia e adotando o nome de um tio falecido que havia sido membro da Klan e contando com a ajuda dos membros da ADL. Após um tempo frequentando um bar e fazendo amizades com alguns dos membros, ele foi convidado para uma fraternidade da Geórgia chefiada pelo ex-Mago Imperial da Ku Klux Klan, Dr. Samuel Green.

    Lá, ele começou a frequentar reuniões semanais e aprendeu todas as senhas e nomes secretos, fazendo extensas anotações de seus rituais e dos seus atentados, porém, como a organização possuía conexões com o governo e agências policiais, foi necessário adotar métodos não convencionais para desmascarar a organização supremacista.

    Kennedy infiltrado no grupo supremacista da Ku Klux Klan.

    No mesmo período, os roteiristas de The Adventure of Superman estavam a procura de novas ideais para vilões, algo que trouxesse um ar original ao show, que já havia utilizado cientistas alemães, ditadores estrangeiros e agentes nazistas. Foi então que os produtores pensaram em abordar questões sociais contemporâneas como o racismo e antissemitismo no programa. Um assunto bastante intensificado na época, por conta do recente fim da Segunda Guerra e as muitas histórias sobre organizações racistas e incitadoras de ódio na imprensa de Nova York.

    A ideia foi rapidamente aprovada, com os produtores visando estabelecer um novo padrão de programação educacional, algo que geraria uma estrondosa publicidade positiva para o programa e seus patrocinadores, podendo até mesmo receber o apoio do crescente movimento de pais, professores e psicólogos que protestavam contra a violência em programas de rádio infantil na época.

    E foi nessa busca por novas historias que surgiu Kennedy. Ele abordou os produtores com a ideia, defendendo que o programa infantil de rádio poderia mostrar a uma geração de jovens os perigos do preconceito. Os escritores acharam a história sensacional e transformaram ela em uma minissérie de 16 partes intitulada Clan of the Fiery Cross (ou “O Clã da Cruz Ardente”, em livre tradução), que foi transmitida entre os dias 10 de junho de 1946 a 01 de julho de 1946.

    Na história, Superman precisa proteger o jovem Tommy Lee, amigo de Jimmy Olsen e novo membro do time de basebol Unity House, e seu pai doutor Wan Lee, dois sino-americanos, do ódio da Clã da Cruz Ardente e do eu temido líder Grand Scorpion, que tinha como objetivo limpar o país daqueles que não são “Verdadeiros Americanos“.

    O que aconteceu depois?

    Com cerca de 4,5 milhões de ouvintes, os líderes da Klan denunciaram o show e pediram um boicote aos produtos da Kellogg (principal patrocinadora do programa). No entanto, o arco da história ganhou avaliações espetaculares, tornando o programa de rádio infantil mais bem avaliado e com a empresa de alimentos mantendo o seu apoio. Duas semanas depois da transmissão, o recrutamento da KKK caiu a zero.

    Kennedy se tornou o inimigo nº 1, com o líder da Klan oferecendo uma recompensa de US $1.000 o quilo pela sua captura. Ele conseguiu escapar até o ano de 1951, quando foi testemunhar contra a Klan diante de um grande júri federal que investigava ataques a bomba contra centros negros, católicos e judeus. Ele é autor de 10 livros, se casou sete vezes e foi um escritor ativo até a sua morte, em 27 de agosto de 2011, aos 94 anos.

    Superman Esmaga a Klan

    Baseando-se nessa história, em 2019, a dupla Gene Luen Yang e Gurihiru foi responsável pela criação da HQ ‘Superman Esmaga a Klan’, que reimagina a trama original do programa de rádio incorporando novos elementos a história, principalmente quanto ao papel do Superman e sua relação com o preconceito racial.

    A HQ foi lançada por meio do selo DC Teen, em 2019, vencendo o prêmio de Melhor Livro Infantil no Harvey Awards 2020.

    Fontes:

    Rick Bowers, Superman Versus the Ku Klux Klan: The True Story of How the Iconic Superhero Battled the Men of Hate. 2012.

    Tim DeForest, Storytelling in the Pulps, Comics, and Radio: How Technology Changed Popular Fiction in America. 2004.

    Olivia Wright, “On My World, It Means Hope:” Superman as Symbolic Propaganda to Cultural Icon, 1939-1945. 2018.

    Jim Harmon, Radio Mystery and Adventure and Its Appearances in Film, Television and Other Media. 2003.

    Adam Woodward, How Superman defeated the KKK. 2017.

    Marcos Vinícius
    Marcos Vinícius
    Olá! Meu nome é Marcos e tenho um grande amor pelo jornalismo. Possuo um podcast, o Sabor de Ambrosia, e sou um grande fã da DC desde que me entendo por gente. Escrevo de tudo um pouco e, espero que gostem do que tenho pra falar.

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