Foi em 28 de dezembro de 1895 que aquilo conhecido posteriormente como “cinema” começou a ganhar forma. Os irmãos franceses Lumière apresentaram dez filmes de três a quatro minutos. O preço do ingresso custava um franco. Cerca de três dúzias de visitantes acompanharam a exibição. Ali, se criava a ideia de cinema que se desenvolveria por muito tempo. 

Dentre os sortudos que estavam presentes a apresentação, George Méliès que futuramente contribuiria muito para o desenvolvimento de técnicas cinematográficas, havia sido um dos convidados. Anos depois, Méliès relatou o convite que recebeu de Antoine Lumière: “”‘Monsieur Méliès, o senhor tem o hábito de maravilhar seu público. Gostaria de vê-lo esta noite no Grand Café.’ Por quê?, perguntei. “O senhor verá algo que o deixará maravilhado.”

Os irmãos Lumière.

Ver algo que nos deixe maravilhados, talvez seja o que faz do cinema uma arte tão única. Todas as imagens que vemos, o som, a música, a fotografia, tudo isso gera uma espiral de emoções que em muitos casos, nem conseguiríamos imaginar o que poderíamos sentir. Além do mais, o cinema tem dado luz a assuntos que de outra forma, poderiam não chegar a determinados públicos. Sem contar todo o efeito de transformação dos filmes para a sociedade.

Cinema molda, desconstrói, emociona, irrita, provoca, anima, entristece, entretém, educa. Tudo isso é cinema e definir o que exatamente não é cinema, não é uma tarefa exatamente fácil.

Na semana passada, durante uma entrevista divulgando o seu filme, Martin Scorsese falou sobres os filmes da Marvel: “Eu tentei, sabia? Mas isso não é cinema. Honestamente, o mais próximo que consigo pensar deles, e por mais bem feitos que sejam, com os atores fazendo o melhor que podem sob as circunstâncias, são os parques temáticos. Não é o cinema de seres humanos tentando transmitir experiências emocionais e psicológicas a outro ser humano”, afirmou o diretor.

Como já era de se esperar, suas falas renderam um monte de críticas. Na internet, adolescentes descobriram quem é Martin Scorsese e postaram um monte de imagens de filmes da Marvel tentando mostrar que Martin estava errado. Vendo essa reação, fica difícil não concordar com Scorsese, mas vamos analisar o que disseram alguns integrantes do MCU.

Robert Downey Jr. 

“É a opinião dele. Isso é exibido nos cinemas. Respeito a opinião dele como a de qualquer pessoa. Precisamos ter opiniões diversas para seguir adiante”.

Interessante que quando questionado se Martin Scorsese talvez estivesse ressentido por conta do lucro que os filmes da Marvel tem obtido, ele argumentou: “Ele é Martin Scorsese, não precisa disso. Na verdade, ainda há muito o que se dizer sobre se esse gênero desmerece a arte do cinema.”

Robert foi bem medido nas suas palavras e demonstrou grande sensatez em sua resposta. Com certeza, ter opiniões diferentes é essencial até mesmo para se fazer cinema. Downey Jr. também foi inteligente em destruir um argumento pífio de que Scorsese pudesse estar se sentindo enciumado com a bilheteria dos filmes da Marvel. Está claro na sua filmografia que a busca por filmes mais fáceis de serem comercializados não é seu objetivo. 

James Gunn

“Martin Scorsese é um dos meus 5 cineastas vivos favoritos. Fiquei indignado quando as pessoas criticaram “A Última Tentação de Cristo” sem ter assistido ao filme. Estou triste por ele estar julgando os meus filmes da mesma maneira”, afirmou.

Gunn se referiu a reação de alguns religiosos que criticaram veemente o filme de Scorsese na época do lançamento e tentaram boicotá-lo, mesmo que muitos não tivessem assistido. 

Samuel L. Jackson

“Sabe, nem todo mundo gosta dos filmes dele também. Digo, nós gostamos, mas nem todo mundo gosta. Existem vários ítalo-americanos que não acham que ele deveria fazer filmes sobre eles dessa forma. Todo mundo pode ter uma opinião, então está tudo bem. Isso não vai parar ninguém de fazer filmes”, disse.

Jackson levantou um grande ponto quando mencionou o fato de alguns italianos repudiaram a forma como Scorsese retrata uns personagens do seu país. Em alguns casos, os personagens são retratados como violentos e instáveis, embora, personagens assim sejam a fascinação de Scorsese independente da nacionalidade.  

É digno de nota o que o próprio Samuel L. Jackson disse ao ser convidado para ler comentários sobre Vidro pela IGN: “Cara, vocês têm que superar os Vingadores e as porras da Marvel em algum momento”, disparou. “Outros caralhos de pessoas também fazem filmes”

Dentre ‘outros caralhos de pessoas que fazem filmes’, está Martin Scorsese, e o que as suas falas realmente representam? Alguns argumentaram que Martin estava sendo elitista e querendo desmerecer os filmes de herói, mas vamos analisar os argumentos do diretor. Quando Scorsese afirma que os filmes da Marvel parecem um “parque de diversão”, existe uma lógica bem clara. O que você espera quando vai a um parque de diversão? Refletir, ter emoções profundas, questionamentos importantes? Só se estiver sobre efeito de drogas.

Os filmes da Marvel são pautados na ideia de divertir o seu público. Para isso, há uma mistura constante entre humor e ação. Nesse patamar, a história e personagens são colocados de escanteio. É isso o que muitos chamam de fórmula Marvel e adivinha, dá certo.

Sabe quando o Homem de Ferro faz uma piada a cada cena onde a câmera foca nele? Isso é um recurso utilizado a exaustão para fazer com que o público se divirta e opte por focar onde o filme quer que você vá. Nesse momento, boa parte do público acaba não se importando muito com o roteiro, o que funciona totalmente por não exigir muito do público, tornando os filmes universais.

Isso não quer dizer que esses filmes não emocionam as pessoas. Após Vingadores Ultimato, muitos se emocionaram com as mortes de alguns personagens e por se lembrarem de toda a trajetória dos 500 filmes já produzidos até chegar ao Apocalipse. O mesmo se pode dizer sobre como diversas pessoas se sentiram representadas com Pantera Negra.

A grande questão sobre considerar esses filmes como “cinema” está ligado ao que se espera exatamente deles. Isso é muito diferente do que se espera por exemplo, do que pensamos quando vamos ler um quadrinho pela primeira vez. Você espera ser SURPREENDIDO.

Cinema é isso. Ficar “maravilhado” lembra? Mas analisar o quanto alguém se sente maravilhado ao assistir Vingadores Ultimato e ao assistir O Lobo de Wall Strett (dirigido por Martin Scorsese) por exemplo, é algo impreciso. Por isso que tudo envolve as expectativas. Quando Scorsese afirma que esses filmes não são “cinema de seres humanos” está claro como ele compartilha a ideia de que cinema deveriam ser sempre algo a mais.

Deveriam ser, mas nem sempre são. E quanto aos motivos? São muitos. Em tempos onde a crítica é volátil e está mais interessada em julgar um filme por motivos ideológicos e não tanto pelo próprio filme, em tempos onde são dada notas à obras e muitos definem sua qualidade por tais notas, como se uma valor pudesse realmente descrever um filme. Em tempos onde Hollywood investe mais em franquias do que filmes originais, sim, o cinema está sem dúvidas, menos humano.

E para aqueles que querem argumentar que Martin estava se referindo aos filmes de herói em geral, isso não faz muito sentido. Por um certo tempo, Scorsese chegou a estar ligado na produção de Coringa e segundo o The Hollywood Reporter, o próprio quase dirigiu o filme. Como prova do interesse de Scorsese, Emma Tilinger Koskoff, uma das suas produtoras, participou do filme.

Porque Scorsese se interessou por Coringa? Porque Coringa é puramente cinema. E não, isso não é elitista. Coringa é cinema porque quebra expectativas e  desafia todos os conceitos já criados quando se pensa em filmes de quadrinhos. Coringa é ainda mais cinema pelo tanto que ele nos provoca, incomoda, faz pensar, sentir e ainda se mantém como um filme de quadrinho.

A DC, mesmo com seus erros, tem se esforçado para unir a ideia de filmes de herói com muito mais do que o cinema pode oferecer.  Mas isso tem agradado ao público, a crítica e arrecadado tanto dinheiro quanto os filmes da Marvel tem conseguido? Claro que não. Mas, se o cinema é uma expressão humana, o erro e o próprio aprendizado estão completamente ligados.

A Marvel não faz cinema e provavelmente, não precise fazer. Está claro o quanto sucesso obteve sem se preocupar com o quanto seus filmes são originais e possivelmente, continuaram fazendo muito $uce$$o por um longo tempo. Embora a própria Disney faça campanha regulares por alguns dos filmes da Marvel, recentemente, Robert Downey Jr. admitiu ter de recusado a campanha para a premiação de melhor ator no Oscar 2019. 

A discussão sobre o que é ou não “cinema” é com certeza muito maior do que apenas os comentários de Scorsese. O cinema sempre foi uma arte ligada a tecnologia e a tecnologia não para. Nos últimos anos por exemplo, vimos um novo fenômeno surgir. Filmes produzidos por serviços de streaming como Netflix e Amazon Prime. A Academia acabou aceitando esses filmes com algumas condições. O fato é que com o passar do tempo, isso se tornará ainda mais comum.

O cinema como conhecemos mudará ainda mais. No final das contas, tudo o que já vimos tudo como “filme de herói“, será apenas uma onda em meio a um tsunami que pode ser abordado. Blockbusters não precisam ser vazios, filmes de heróis não precisam necessariamente escolher o caminho mais fácil. 

Felizmente, estamos acompanhando um momento que pode ser uma luz no fim do túnel. Se a Marvel conseguiu fazer um império com seus zilhões de filmes, a DC parece ter encontrado seu lugar ao sol com filmes que se assemelham a proposta do selo DC Black Label das HQ’s. Filmes “baratos”, mas autorais e com possibilidade de histórias totalmente novas, sem necessidade de recriar os quadrinhos.

Isso talvez seja realmente o cinema ganhando vida. Um avanço, onde poderemos ter filmes que não precisem flertar com a Academia para ganhar prêmios questionáveis e que ao mesmo tempo, tenham a coragem de ir além.

Como já disse um velho lobo solitário, “Charles, o mundo não é mais o mesmo”. Ainda bem.

Sobre Lucas

Lucas Pimentel

Você acredita em milagres? Também não, mas vivo na esperança de um universo de filmes maravilhosos da DC. Enquanto não acontece, sonho e escrevo.

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