Com o lançamento de Coringa em alguns Festivais de Cinema, observamos uma verdadeira aclamação digna de uma obra de arte. A própria decisão da Warner em exibí-lo primeiro em festivais é a confirmação de que Coringa está longe de ser só mais um filme de herói.

Entretanto, apesar do louvor da maior parte da crítica, alguns críticos apresentaram visões negativas ao filme. Isso não seria um problema, visto que qualquer obra de arte é passível de análises negativas. O real problema é o teor raso, ideológico e até mesmo anti-profissional dessas opiniões.

David Ehlich do Indiewire deu ao filme um “C+” apontando nas suas críticas negativas que o filme apresenta “um narcisista homicida que se sente intitulado à atenção do mundo – um homem que prefere matar por uma boa risada do que permitir que o mundo o trate como o seu argumento final.” Ao lermos isso, podemos abrir um largo sorriso no rosto tendo a confirmação de que Joaquin Phoenix retratou bem o Coringa e a visão ousada de Phillips foi acertada. Mas para Ehlich isso é algo negativo em sua crítica. (Não recomendo a leitura dessa e de nenhuma das críticas que irei citar, por motivos de spoilers em abundância.)

Em toda a crítica há um sentimento de prepotência quando ele afirma que o filme busca de forma desesperada em se levar a sério e por isso evita ter senso de humor. É necessário que todo filme de quadrinho tenha um apelo para o humor?

Agora vem a questão que tem sido levantada como motivo de um possível boicote ao filme. Ehlich afirma: “Há uma diferença fundamental entre contar uma história como essa na forma de arte, sujo e misantrópico como “Taxi Driver” e contá-lo na linguagem universal de um filme de super-herói que será aberto em multiplexes no mundo todo. Nesse contexto, essa história não pode deixar de sentir aspiracional.” Há muitos detalhes coloridos nessa informação. A comparação com Taxi Driver é óbvia e o próprio Martin Scorsese, diretor do filme, trabalhou por um tempo ao lado de Phillips na concepção do projeto. Agora, o que Ehlich propõe é que apresentar estas ideias num filme de quadrinhos é potencialmente perigoso, por servir de inspiração para, principalmente, jovens que se sentem plenamente rejeitados pela sociedade. Essa preocupação é real e falarei melhor em outro texto. O ponto interessante é a comparação com Taxi Driver. Ambos apresentam personagens que tentam se encaixar na sociedade e não são aparados, pelo contrário, são julgados e condenados. O que decidem fazer então? Revolta, anarquia, violência e caos.

Para David, a violência em Taxi Driver é justificável e aceitável, em Coringa, não. O motivo? O público ao qual se destina. Essa visão é totalmente vazia, mas compatível com o que a indústria tem produzido a todo no segmento de quadrinhos. O grande público se acostumou com a ideia de que filmes de herói devem ser repletos de humor (muitas vezes, raso), ação desenfreada e personagens não muito bem explorados. É fácil para indústria em filmes com essas características, uma vez que se tornam recordes de bilheteria e de críticas positivas, ao menos em sua maioria. Há pouquíssimos casos de filmes que busquem ir além dessa estrutura, como O Cavaleiro das Trevas, Logan e o próprio Coringa.

Não defendo que filmes de heróis precisam ser sérios o tempo todo ou se portem como obras de arte digna de Oscar. Filmes de quadrinhos devem ser plurais como quadrinhos também são. Mesmo com inúmeras produções já realizadas, não falta espaço para novas experiências. Justamente a falta de experimentação, assegurou a ideia de que filmes de quadrinhos precisam seguir uma determinada fórmula explorada e repetida a exaustão por tantos outros. O efeito é a negativação por parte da crítica a filmes que tentem explorar novas histórias, fórmulas ou mesmo, desconstruir tudo o que já vimos.

O crítico Bill Chambers para o site Film Freak Central, escreveu na sua crítica ao filme o seguinte: “Em outras palavras, em um determinado momento da história, Arthur não pode ser mais ser responsabilizado por suas ações. Tal equívoco na era de Trump é francamente covardia moral, e eu honestamente teria mais respeito por Joker se fosse de todo o coração o devaneio fascista que muitos temem.” Bem, uma coisa admiro no Bill, ao menos ele é verdadeiro com respeito a sua crítica. Chambers não baseia sua crítica numa análise de uma obra de ficção baseada em quadrinhos. A crítica é baseada em suas próprias ideologias no desenho pessoal do que a obra deveria ser. Sabe qual o nome disso? Opinião.

Todos temos direito a ter opiniões e visões diferentes em diversos assuntos, assim como também podem não gostar de uma obra por não ser aquilo que se espera, o real problema é elevar essas opiniões  pessoais quando se está no papel de crítico. Se a crítica é sobre um filme, sua análise deve ser sobre ele e não sobre a sua visão a respeito do assunto que o filme trata, aliás, numa crítica a opinião pessoal deve ser o ponto de menor interesse.

Não é de se surpreender que as críticas negativas do filme vieram em boa parte da imprensa americana. São estes os mesmos responsáveis por avaliarem o filme diante da mensagem que ele apresenta. Essa mensagem é retida através de filtros ideológicos pessoais e geram críticas onde a obra é menos importante do que a mensagem, que eu O Crítico, decido julgar.

Coringa é um filme “agressivo e possivelmente irresponsável” afirmou Stephanie Zachareck da revista Time. “Coringa é um lixo pernicioso” disse Glenn Kenny do NYT. Coringa é “tóxico, irresponsável e perigoso” como descreveu O Globo. É, Coringa é tudo isso e por tudo isso, Coringa é Coringa.

Sobre Lucas

Lucas Pimentel

Você acredita em milagres? Também não, mas vivo na esperança de um universo de filmes maravilhosos da DC. Enquanto não acontece, sonho e escrevo.

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