Bandidos povoam um galpão abandonado aprisionando uma mulher, também conhecida como mãe do Superman. O Batman se propõe a salvá-la. Pilotando seu batplane, metralha seus inimigos. O morcego invade o prédio e antes de uma luta, propõe um terror psicológico nos seus inimigos. Antes do confronto direto, desativa suas armas. Agora, inicia uma dança mortal, onde cada passo é cronometrado. Cada baile, um bandido no chão, esmagado, destruído.

Um dos bandidos ousa dar uma facada no herói. A facada é sentida e revidada logo em seguida. O Batman, planeja, pensa e então disfere o golpe. A lâmina penetra seu inimigo e não há menor sinal de culpa. Segundos depois, enfrenta o último inimigo do recinto. Sem pudor, não se entrega e salva Martha Kent com o peso de vários capangas derrotados.

Esse é o Batman de Ben Affleck, também conhecido como o “Batman mais violento dos cinemas”. Essa alcunha foi dada por fãs, jornalistas e outros que só conhecem o personagem por algumas poucas exibições que acompanharam. Essa definição, não é mentirosa. O Batman do Ben Affleck é realmente o mais violento dos cinemas, mas, diferente do que muitos disseram, essa não é uma descaracterização do personagem.

A violência para os heróis sempre foi influenciada pelo seu público. Quadrinhos são um retrato de uma época. O herói que foi criado no passado já não é mais o mesmo e isso é lógico: quadrinhos são atemporais, heróis, não. Precisamos falar isso com calma. Muitos confundem heróis com quadrinhos e isso tem um porque. Heróis são um gênero bem desenvolvido de quadrinhos, mas não é o definidor. Existem quadrinhos sobre tudo. Literalmente, sobre tudo. Quadrinhos são o meio, não a história. Por muito tempo só existia quadrinhos de heróis, até que o próprio gênero questionou isso.

Watchmen, nos anos 80, questionava esses personagens como sendo os tais “salvadores da pátria”. O que aconteceu a seguir, foi uma revitalização do conceito. Se antes a ideia de herói era sempre um bom moço, (oi homem de cueca por cima da calça) agora a questão era: quem são esses heróis? Quem vigia eles? São diferentes de nós? Watchmen foi uma revolução ao conceito de heroísmo. Esquece o bem contra o mal, agora, é, o bem não é lá tão heroico e o mal não é tão distante de qualquer herói.

Anos se passaram e Frank Miller soube explorar isso muito bem com outros personagens. O Batman se tornou violento, tanto quanto seu principal vilão, o Coringa. Violento, guarde essa palavra. A visão de mundo para o Batman, saiu de um herói que queria fazer o bem para Gotham, para um homem que estava cansado e derrotado.

Essa visão é a que Zack Snyder quis adotar para os cinemas. Você pode se questionar se essa é a melhor e nesse ponto, podemos discordar, mas não há discordância quando usaram o argumento de que o Bat-Affleck não pode ser considerado o Batman de verdade. Você com certeza se lembra desses gritos:

“O BATMAN NÃO MATA”.

“O BATMAN NÃO USA ARMAS DE FOGO”.

Se você concordou com esses argumentos, eu entendo. Essa é a lógica criada e repetida muitas vezes. Mas, nunca se esqueça, nada está escrito em pedra quando se trata de quadrinhos. SUPERMAN, ARQUEIRO VERDE, MULHER-MARAVILHA e sim, O BATMAN, matam. Eles usam armas de fogo. Eles passam dos limites. Porquê tudo isso causa tanto alvoroço quando se trata do Batman?

  • Batman é muito conhecido. Sua vó conhece o Batman. Pergunte a ela. Agora pergunte se ela conhece o Homem de Ferro. Homem de que? Pois é. O Batman está presente de verdade em diversas gerações. Ele não está sendo vendido agora para alcançar um novo público.
  • Todo mundo gosta do Batman. Pois é, isso é um fato que nem precisa explicar.
  • O Batman é o maior personagem da DC. Esqueça gosto ou opinião pessoal, é um fato que o Batman seja elevado a esse posto. Com inúmeras adaptações, o Batman é tão rentável quanto admirado.

Tudo isso, faz da violência do Batman, algo sempre espantoso. Como já disse, outros personagens tidos como heróis, também são violentos. Para exemplificar, numa cena em Vingadores (algum deles, eu realmente não lembro) o Capitão América chuta um capanga para fora do avião da Shield. Você acha que magicamente aquele homem conseguiu um paraquedas e pousou em paz?

Também em Vingadores (dessa vez o primeiro, eu me lembro), praticamente toda a Nova York é destruída na tentativa dos heróis em combater o mal. Boa parte da cidade. Prédios. Empresas. Pessoas. Mortos. Destruição. Isso também não seria violência?

O fator determinante ao que parece para alcançar espanto é como essa violência é retratada e não se ela existe ou não. O Batman do Nolan não era exatamente um santo, sabe? “Eu não vou matar você… mas também não tenho nenhuma obrigação de salvá-lo”, diz o Bat-Bale ao Ra’s al Ghul antes de deixa-lo a caminho da morte no metrô de Gotham. Escolher não salvar não seria o mesmo que provocar a morte do vilão nesse caso? Ter o poder para salvar e se recusar a fazer não seria algo totalmente injusto?

Curiosamente, em Cavaleiros das Trevas, o Coringa questiona exatamente essa moralidade do Batman. “A única forma sensata de viver nesse mundo é sem regras. E hoje você irá quebrar sua única regra”, ele diz ao Batman quando está sendo interrogado. O Coringa tenta a todo tempo mostrar que as pessoas são ruins por natureza e apenas um grande evento ruim ou uma série de eventos, pode de fato, expor o que há de pior em nós. Para o Coringa, o que o Batman precisa quebrar é a sua moralidade e para isso, o faz questionar as suas esperanças.

Esse mesmo Batman, se interliga ao Batman do Snyder. Enquanto o Batman do Nolan luta para manter a esperança, mesmo que isso o consuma, o Batman do Snyder está cansado, destruído. “Vinte anos em Gotham, Alfred, sabemos que promessas não valem nada. Quantos homens bons restaram? Quantos continuaram bons?”, pergunta Bruce ao seu mordomo/pai/melhor amigo.

Vinte anos em Gotham lutando contra o crime. Vilões presos, heróis mortos. Justiça? Parece algo muito pouco provável. O Coringa matou Robin. Não temos muitos detalhes de como, mas é um fato de que ele está morto. O Bat-Affleck presenciou essa morte. Morte de alguém que ele criou como filho e obviamente, se culpa por isso. No meio de tudo isso existe algo que não falamos: Bruce Wayne.

Bruce Wayne conheceu a morte – a forma mais destacada de violência – bem cedo. Viu seus pais sendo mortos na sua frente quando criança. Cresceu em Gotham, nunca se sentindo em casa, seja por ser um órfão, seja pela pressão da sociedade no garoto mais rico do mundo. Para Bruce, a violência sempre esteve presente. Quando pensa em ajudar Gotham, a forma que ele vê como possível de ajuda é usando a violência. Porque isso? Costumamos oferecer aquilo que recebemos e nos habituamos. Bruce oferece essa violência, numa justificativa de luta pela justiça, porque é tudo aquilo que tem a oferecer ou ao menos, o que acredita ter.

Tudo isso nos leva ao novo Batman, esse que já veio cheio de questionamentos. “Batman não é um herói. Ele é um personagem complicado, acho que nunca poderia ser um herói de verdade. Ele não é o garoto de ouro, ao contrário de quase todos os outros personagens de quadrinhos. Há uma simplicidade em sua visão de mundo, mas onde ela fica é estranha, o que permite que você tenha mais alcance com o personagem”. Essa afirmação foi dada por Robert Pattinson numa entrevista para o The New York Times.

O que o Pattinson queria dizer, era que o Batman era um personagem dúbio e sua moralidade, questionável. O Batman não é um herói porque suas escolhas vão além disso. Se o objetivo que o fez vestir a capa foi a morte dos seus pais, facilmente julgaríamos como alguém egoísta. Mas aqui vemos um garoto que cresce sem o apoio familiar, isolado, tendo como amigo apenas o seu fiel mordomo. Na sua conta bancária, todo o dinheiro do mundo, no seu coração, toda a solidão do universo.

Bruce escolhe e escolhe certo e errado. Se transforma em algo a ser temido ao mesmo tempo que impulsiona o surgimento de loucos. Acolhe jovens enquanto os permite estar rodeado de violência. Luta contra o crime a noite, mas não usa todos os seus recursos para melhorar Gotham durante o dia. O Batman é passível de julgamento e em alguns questionamentos ele está totalmente errado, porquê naturalmente, o Batman é humano.

Essa visão mais realista e moderna do personagem fica claro no trailer de The Batman. Começamos com um clima de suspense, num filme que evoca o sentimento de thrillers como Seven – Os sete pecados capitais ou Zodíaco. Numa narração em off, acompanhamos o Charada que parece questionar a moralidade do Batman e sua luta a favor da “justiça” em Gotham. O Charada, ao que parece está caçando políticos corruptos de Gotham e isso pode acabar envolvendo o passado da família Wayne.

Mas, após aquela cena que fez todos nós pular da cadeira, há dois detalhes interessantes: O Batman está sendo gravado através de um celular dos capangas, que ainda não sabemos de quem são e o olhar de aterrorizado de um homem jovem. O Batman acabou de espancar, foco nisso, ESPANCAR. Nós vibramos com essa cena e podemos honestamente reconhecer isso, mas existe o outro lado.

Gotham não é só violenta, é desigual. Acompanhamos isso muito bem em Coringa (2019). Existe um mundo além das propriedades da Mansão Wayne e esse mundo é bem cruel. Não se trata só de vilões, mas sim de pessoas. O que podemos aprender claramente nesse período de pandemia é como o mundo é bastante desigual e que bilionários não são exatamente heróis.

Essa cena no trailer, não está ali só para ressaltar como o Batman pode ser poderoso ou preparado, nem mesmo, para mostrar como ele é forte. Essa cena retrata como a violência do Batman é impactante e o ponto mais importante quando falamos da violência do Batman, é que ela jamais pode ser justificável, mas pode ser compreendida.

O mundo não é preto e branco. O Batman matar não pode ser visto como algo correto, mas é compreensível de acordo com o que acompanhamos do personagem. Isso significa que está tudo bem o Batman matar vilões? Claro que não. Isso nos dá uma camada maior de profundidade. Nós não podemos achar normal e aceitável que o Batman mate, mas, não podemos esquecer que violência é mais do que ossos quebrados e o Batman não é o único herói violento.

Como fãs, devemos e precisamos questionar a violência do herói. Heróis precisam ser responsabilizados pelos seus atos, senão, serão apenas deuses no Olimpo. Gotham, precisa julgar o morcego e definir se ele é mesmo um herói ou um mal necessário e se for esse mal, ele deveria mesmo existir?

‘The Batman’ caminha para ser o filme que abordará as camadas mais complexas do personagem com todo o seu questionamento. Matt Reeves fez mais do que o dever de casa, parece, por tudo o que disse, que mais uma vez ira repetir suas críticas sociais através de personagens fictícios de blockbusters, como fez em Planeta dos Macacos.

Tudo isso, parece revelar um filme perfeito, ao mesmo tempo que pode deixar fanboys bem estressados. Eu não poderia estar mais feliz.

Sobre Lucas

Você acredita em milagres? Também não, mas vivo na esperança de um universo de filmes maravilhosos da DC. Enquanto não acontece, sonho e escrevo.

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