Batman não é um herói. Ele é um personagem complicado, acho que nunca poderia ser um herói de verdade. Ele não é o garoto de ouro, ao contrário de quase todos os outros personagens de quadrinhos. Há uma simplicidade em sua visão de mundo, mas onde ela fica é estranha, o que permite que você tenha mais alcance com o personagem”.

Essa afirmação foi dada por Robert Pattinson, o futuro Batman dos cinemas numa entrevista para o The New York Times. É claro que renderia inúmeras polêmicas, ainda mais na geração jornalismo clickbait. Deixando toda a repercussão de lado, o modo como Pattinson definiu o personagem, é a prova clara que ele o compreendeu como poucos. O termo “herói” vem do grego, que significa “proteger e servir”. “Para os Gregos antigos, o herói situava-se na posição intermédia entre os Deuses e os Homens, sendo, em geral, filho de um Deus e de uma Mortal (Hércules, Perseu), ou vice-versa (Aquiles). Portanto, para os gregos antigos, o herói tinha uma dimensão semidivina”.

Essa “dimensão semidivina” está ligada também as virtudes que um ser dito com herói, possui. Nobreza, coragem, sacrifício, lealdade, justiça e moral, estão entre os atributos ligados ao heroísmo. Os quadrinhos se apropriaram do conceito de herói e o reinventou, com o surgimento de super-heróis. Indivíduos dotados de superpoderes ou habilidades (preparo, no caso do Batman) que utilizam para atos em prol da humanidade, como salvá-los de ameaças poderosas e dar um ideal a ser seguido.

Com a evolução dos quadrinhos, a personalidade dos heróis começou a ser explorada. Antes, heróis eram simplificados a pessoas com extrema honra, senso de justiça e moral elevada. Quando guardavam as suas capas, nada se modifica. Suas ações na vida pessoal, refletiam a ideia do seu alter-ego heroico. Tudo muito simplista, mas também, extremamente relacionado ao contexto histórico. Já há um certo tempo, essa conformidade foi modificada. Nos acostumamos com heróis com um passado tenebroso e efeito catastrófico nas suas vidas. O Batman é com certeza o maior exemplo disso, mas longe de ser o único. Basicamente, uma tragédia está ligada a todos os heróis, obviamente, com graus diferentes. O que muda no Homem-Morcego é o fato de sua tragédia ter sido tão cedo e outras terem o acompanhado constantemente.

Junte tudo isso com uma cidade que respira a loucura, injustiça e um crime que nasce e morre a todo instante. O Batman tem que lutar contra os crimes onde em muitos casos ele não é visto como herói, também pela polícia. Não é a toa que os maiores vilões do Batman possuem um perfil psicológico com traços tão complicados. Lembramos logicamente do Coringa, que faz a maior oposição ao herói, quando tudo nele é contraditório, mas também, justifica sua existência na própria existência do Batman. O Coringa não é o único, temos um psiquiatra que adora explorar os medos dos seus pacientes com veneno e um homem com dupla personalidade, sempre em choque. Poderíamos citar outros, mas você já entendeu. Viver na escuridão e não ser contaminado por ela, é o que faz de alguém um herói, não é? Isso acaba se tornando controverso quando a existência do Batman é o luto de Bruce.

Um garotinho que perde os pais de uma forma covarde, quando ainda não descobriu o que realmente é a vida. Nenhum dos seus privilégios, o poupou da dor mais humana, a perda de um ente querido. Essa dor o motiva a lutar contra criminosos, abdicando da sua vida pessoal. Batman vira o personagem principal, colocando Bruce Wayne apenas como uma máscara. É importante destacar que tudo foi movido por escolhas. O Batman não foi picado por uma aranha radioativa ou enviado de outro planeta. Sofreu um grande trauma e por conta própria, decidiu se tornar o morcego.

A própria escolha do uniforme revela muito sobre o personagem. Na sua primeira aparição em Detective Comics #27, Bruce explicou a escolha por um morcego como símbolo: “Os criminosos são muito covardes supersticiosos … então meu disfarce deve ser capaz de causar terror em seus corações. Eu devo ser uma criatura da noite, negra, terrível.” A sua proposta original para lutar contra o crime, era ser algo a ser temido, desencorajando o crime em Gotham. Esse caminho é sempre percorrido pelo encapuzado, transformando o personagem em um símbolo contra o crime, mas não sendo exatamente um exemplo ou alguém digno de exultação.

Bruce escolhe se tornar o Batman para proteger Gotham, mas se abdica de usar o maior poder de um Wayne em favor da cidade – o dinheiro. Em algumas histórias sabemos que Bruce continua o legado de filantropia dos pais, mas no geral, o uso do dinheiro como recurso necessário numa cidade tão desigual, é deixado de lado. Sabemos como a existência do Batman é positiva a Gotham, embora é inegável que numa cidade onde o mal parece brotar em toda esquina, os feitos do mascarado acabam se tornando pequenos para uma solução, de fato. É óbvio que estamos falando de um personagem ficcional que foi criado originalmente para ser um herói. Portanto, usar a máscara seria uma escolha consistente para isso acontecer. O que fica claro, é que a ideia do personagem ser apenas um herói na concepção clássica que temos, seja usando a mitologia por trás dessa palavra, seja usando o progresso das histórias desde a criação do personagem a todas as mídias e formas que ele já teve, acaba sendo o supérfluo.

O Batman não é um herói. Suas escolhas vão além disso. Se o objetivo que o fez vestir a capa foi a morte dos seus pais, facilmente julgaríamos como alguém egoísta. Mas, aqui vemos um garoto que cresce sem o apoio paterno, isolado, tendo como amigo apenas o seu fiel mordomo. Na sua conta bancária, todo o dinheiro do mundo, no seu coração, toda a solidão do universo. Bruce escolhe e escolhe certo e errado. Se transforma em algo a ser temido ao mesmo tempo que impulsiona o surgimento de loucos. Acolhe jovens enquanto os permite estar rodeado de violência. Luta contra o crime a noite, mas não usa todos os seus recursos para melhorar Gotham durante o dia. O Batman é passível de julgamento e em alguns questionamentos ele está totalmente errado. Heróis são criados para serem uma inspiração, muitas vezes inalcançáveis. São deuses desfilando perfeição. Batman, está longe disso, como um garoto que não teve tempo de aprender, Batman é apenas humano, como eu e você.

E claro, não dá pra se esquecer da definição de Batman do Comissário Gordon, em O Cavaleiro das Trevas: “Porque ele é o herói que Gotham merece, mas não o que ela precisa agora. Vamos caçá-lo…porque ele aguenta. Porque ele não é um herói. É um guardião silencioso…um protetor zeloso. Um Cavaleiro das Trevas.”

Sobre Lucas

Lucas Pimentel

Você acredita em milagres? Também não, mas vivo na esperança de um universo de filmes maravilhosos da DC. Enquanto não acontece, sonho e escrevo.

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