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DC Comics | A inexistente descaracterização de personagens em adaptações e histórias em quadrinhos

Homem. Meia idade. Íntegro. Altos princípios morais. Senso de justiça elevado. Ético. Comissário de polícia.
Mulher. Forte. Elegante. Personalidade densa. Dúbia. Inteligente. Moralidade questionável. Usa a sedução como arma. Amor por gatos.

Acima, duas descrições simples de personagens. Você com certeza compreendeu que estamos falando do Comissário Gordon e a Mulher Gato. Em ambos os casos, a cor dos personagens não está em discussão. Nem tampouco na busca por um ator, como na composição do personagem.

O casting para The Batman começou a ser divulgado. Rapidamente, o amor e o ódio dos fãs começou a ser revelado.  Robert Pattinson tinha sido questionado por seu histórico na saga de filmes Crepúsculo, mesmo tendo feito outros filme excelentes depois de Crepúsculo (existem outros filmes além de blockbusters, nerds!). Jeffrey Wright e Zoe Kravitz tiveram suas escolhas também questionadas, agora por um motivo questionável. O motivo? A suposta descaracterização de personagens. 

A descaracterização é, conforme o próprio nome, o ato de ir contra a caracterização do personagem. A caracterização no contexto de personagens de quadrinhos refere-se a características de heróis (não só heróis), que são estipuladas na sua criação e devido a repetição em diversas histórias diferentes, acabam sendo vistas como AS CARACTERÍSTICAS QUE DEFINEM O PERSONAGEM ™

É importante reconhecer que essas características diferem muito e principalmente, carregam os ideais dos seus criadores, visões de mundo, personalidade, gostos, etc. Em resumo, um herói é nada mais que um filho de um autor feito sob encomenda e sem precisar trocar as fraldas.

O Superman, por exemplo, foi criado por dois jovens judeus (ANOTEM ESSE DETALHE). O Superman não é terrestre, mas sim, de um mundo destruído, tornando-o – para desgosto de muitos, um imigrante. Há também inspirações claramente bíblicas, como ser enviado para a Terra e se tornar a própria esperança da humanidade e um modelo a ser seguido. Além de Jesus, outros personagens bíblicos ecoarão na origem do Super, como Sansão e toda a sua força e Moisés que foi colocado em uma cesta, caso contrário, seria morto por um terrível inimigo. Kal-lel é um belo nome, não acha? Significa literalmente, “A voz de Deus”.

Todos esses atributos caracterizam o que entendemos por Superman e como podemos observar, nada mais é do que um “Oceano de estrelas” de vivências e ideais dos próprios criadores. A esperança é e sempre foi, o mote principal do Superman. Mesmo que com o passar do tempo, os ideais naturalmente tenham mudados, o Super continua representando a esperança. O que seria considerado como esperança, ou qual esperança o azulão poderia representar, é o que possibilita a contínua reinvenção e a possível melhora de um personagem.

Entretanto, há casos onde a cor do personagem é essencialmente importante. Um exemplo claro é o Super Choque. A criação do herói é na verdade um manifesto. Seu criador já trabalhava com quadrinhos na Marvel. McDuffie sentia que precisava de mais histórias com personagens negros e outras minorias, com certa profundidade. Assim, junto com mais três colaboradores, criou a Milestone Media (que mais tarde se juntaria a DC). McDuffie expressou na época da criação: 

Se você cria um personagem negro, feminino, ou asiático, ele não é apenas este personagem. Ele representa aquela raça, ou aquele sexo, e ele pode não ser interessante porque tudo o que faz tem que representar um conjunto de pessoas. Você sabe, Superman não representa todas as pessoas brancas, nem Lex Luthor. Nós sabemos que tínhamos de criar uma equipe de personagens contendo cada grupo étnico, o que significa que não podemos criar somente uma HQ. Precisamos criar uma série de HQ’s e temos que presenciar a visão do mundo cuja extensão vem ao que tínhamos visto antes.”

Quadrinhos são uma mídia antiga que sempre foi muito bem acompanhada do contexto histórico. Diversos personagens foram criados através de uma leitura da realidade e os quadrinhos dialogaram com ela. Esse na verdade, é o exato momento onde a arte imita a vida ou a ultrapassa. A sociedade como um todo, se modificou bastante, o que não significa que tenha evoluído.

Diversos escritores perceberam o amadurecimento do público e com isso, criaram histórias que redefiniram o tema. Assim também, os leitores começaram a apreciar obras que fugiam de lugares comuns. Se tornaram mais críticos e não aceitam a mesma história do herói que salva o dia e aplica uma lição de moral no final. Prova disso é como os heróis tem cada vez mais personalidades dúbias e uma moral questionável. Vilões são humanizados e são tão identificáveis quanto os próprios heróis.

Mesmo com todo esse progresso, uma grande parte do público se recusa a crescer. São em sua maioria homens que acreditam que são donos dos seus personagens preferidos e só aceitam eles da forma como os imagina. Essa ideia é contrária a própria essência dos quadrinhos. Heróis se modificam completamente com o passar do tempo, mesmo os heróis de maiores relevâncias. O Batman, sim, ele, já passou de um detetive contra o crime para um justiceiro com atitudes questionáveis. O Batman do Ben Affleck que muitos questionaram por ser violento e até mesmo matar, está completamente ligado aos quadrinhos.

Heróis podem ser qualquer coisa. Podem se modificar, melhorar, regredir. São personagens C-R-I-A-D-O-S. Personagens da ficção. Com o passar do tempo, esses heróis passam por diversas mãos e naturalmente, pessoas diferentes, visões diferentes. Dizer que um personagem de quadrinhos é de tal forma, na verdade impôr uma grande limitação.

Na semana passada o Will escreveu um texto aqui no Terraverso, “abordando o racismo disfarçado de opinião” na escolha da atriz Zöe Kravitz. No Twitter, houveram algumas manifestações de fãs que defenderam os argumentos de que a personagem estaria sendo descaracterizada.

Como mencionado, não há como sugerir descaracterização de um personagem que já foi interpretado por uma atriz, incrivelmente há 50 anos atrás. A cor da pela da personagem nunca foi mote principal nos quadrinhos, sendo esta, apenas uma escolha dos escritores\desenhistas.

E se um personagem que é negro nos quadrinhos fosse interpretado por um ator branco? Na maioria dos casos, problemas raciais são retratados em diversas histórias, quando o personagem é negro. Se um ator branco fosse utilizado para papéis como esses, é evidente que questões raciais não seriam abordadas. Fora isso, há uma palavra que muitos odeiam por si só: REPRESENTATIVIDADE. Na prática e de modo claro, envolve o leitor (seja ele quem for), se sentir representado nas histórias em quadrinhos.

Isso não quer dizer que todos os personagens devam ser negros, por exemplo, mas sim, que não exista uma pré-escolha, onde o padrão seja ser branco. Por que agora entra a outra palavra odiada: DIVERSIDADE. Chega a ser irônico que uma parte considerável de leitores de quadrinhos, não desejem a diversidade. Quadrinhos é a própria diversidade ganhando vida, seja em histórias, seja em personagens. 

Felizmente, estamos num tempo onde começamos a nos incomodar mais com questões tão importantes como preconceito. As editoras já perceberam isso há tempos e mais personagens negros (e diversos) foram criados, atraindo novos leitores e deixando muitos representados. Infelizmente, alguns alegarão que seus personagens não estão devidamente caracterizados porque um ator negro foi escalado para um papel. Neste caso, o racismo não está disfarçado, está nítido como um Bat-sinal no céu de Gotham.

E ai, vai perguntar se o Super Choque pode ser interpretado por um ator branco?

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