The Flash | Toda corrida tem uma linha de chegada: está na hora da série acabar

    No ano de 2013, o perito forense Barry Allen apareceu pela primeira vez no universo televisivo da DC que o canal americano The CW começava a construir, com participações pontuais nos episódios 2×08, 2×09 e 2×20 de Arrow. Neste último, foi mostrado ao público como o personagem adquiriu seus poderes de super-velocidade, servindo como pontapé inicial para sua série solo, que estreou no ano seguinte.

    Barry Allen fez sua estreia em Arrow antes de ter sua série solo.

    Não demorou muito para que The Flash caísse no gosto do público do canal e logo se tornasse sua série de maior audiência, posto que manteve durante um bom tempo. Isso se deve em parte pelo tom jovial e descontraído que o show carregava, tendo um bom diálogo com a audiência mais jovem da The CW, em contraponto à perspectiva soturna e realista que Arrow possuía, muito ainda sob influência do recente sucesso da trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan.

    Porém, apenas isso não explica o sucesso que The Flash teve em suas temporadas iniciais. O canal foi muito feliz na escolha de um protagonista extremamente carismático e um elenco que se enquadrava bem na proposta da série, além de uma equipe de produção que parecia saber o que queria fazer e como explorar, ao menos inicialmente, as potencialidades do personagem. Depois de anos de filmes e séries de super-heróis povoando o cinema e a TV, o público do canal estava pronto para uma série mais colorida, espalhafatosa e que não teria receio de abordar temas considerados nichados, como viagem no tempo e multiverso.

    Não fugindo do estereótipo do herói clássico, Barry Allen possui uma infância trágica, tendo sua mãe sido assassinada quando ele ainda era criança e seu pai condenado pelo crime que não cometeu. Como não poderia ser diferente, em sua temporada de estreia a série teve como vilão principal o Flash Reverso, principal antagonista do velocista escarlate e verdadeiro responsável pelo assassinato de Nora Allen. Todo o desenvolvimento da primeira temporada se dá no entorno da verdadeira origem do personagem e pelo grande mistério que envolvia a real identidade do “homem do traje amarelo”, com episódios e ganchos que conseguiam manter a audiência interessada.

    O homem do traje amarelo: Flash Reverso foi o vilão da primeira temporada da série.

    É verdade que a série sempre teve seus problemas e limitações; uma delas é o próprio formato e seu contexto televisivo. The Flash é uma série de TV aberta nos Estados Unidos, o que significa que ela deve preencher o calendário de outono (Fall Season) do canal, com temporadas que possuem entre 20 e 23 episódios, em geral. Em termos práticos é quase impossível manter um fio narrativo único que se estenda ao longo de 20h de duração, o que acaba fazendo com que esses seriados apelem para um formato bastante tradicional, os episódios procedurais, que utilizam os “vilões da semana” para preencherem tempo de tela e desenvolvem o arco principal a conta-gotas, diluído ao longo da temporada.

    Outro problema que a série enfrenta desde o início é a pobreza e a falta de criatividade do roteiro na construção e resolução dos conflitos dos personagens. Os tradicionais e frequentes discursos motivacionais para mobilizar o protagonista em um momento de dificuldade logo se tornaram piada na internet. As discussões mais acaloradas dos membros do “Time Flash”, que todas as vezes terminam com algum deles deixando a sala com os nervos à flor da pele, ao passo que alguém o segue para acalmar os ânimos, também. Esse tipo de ferramenta realmente passa a incomodar quando é consistentemente utilizada em todos os episódios ao longo de sete temporadas.
    Nos três primeiros anos a equipe criativa da série utilizou outros velocistas como antagonistas principais, com Flash Reverso, Zoom e Savitar, fazendo as honras de grandes vilões. Este recurso, onde protagonista e antagonista possuem habilidades espelhadas facilita a criação de cenas de embates entre os personagens e também torna mais simples a transmissão da noção de bem contra o mal.

    A partir da quarta temporada, a produção da série havia entendido que a fórmula velocista-contra-velocista tinha se esgotado e tentaram partir para antagonistas que possuíam habilidades diversas do Flash, utilizando vilões como Pensador e Cicada. Coincidência ou não, a série nunca mais conseguiu engajar seu público e produzir vilões tão carismáticos e ameaçadores quanto o Flash Reverso de Tom Cavanagh foi na primeira temporada do seriado, dada a excepcional performance do ator no papel e a íntima relação do seu personagem com o protagonista.

    O ator sul-africano Neil Sandilands interpretou Clifford DeVoe, o Pensador, na quarta temporada de The Flash.

    Há algumas temporadas, a The CW tem utilizado em The Flash uma alternativa que tem o potencial de reduzir os problemas das temporadas excessivamente longas, que consiste basicamente em sua subdivisão ao meio, em dois arcos distintos, separados pela pausa nas gravações que ocorrem entre o natal e o ano novo. Dessa forma, as partes A e B da temporada contam com aproximadamente 10 episódios para apresentação, desenvolvimento e conclusão de um arco específico, o que supostamente deveria facilitar a criação de uma narrativa mais coesa e interessante para o público. Digo supostamente pois nem assim a atual equipe de roteiristas e produtores de The Flash pareceu ser capaz de contar uma história cativante e, cada vez mais, demonstram não saber para onde querem levar o personagem.

    Vou utilizar como exemplo o final da sexta temporada da série, onde um dos principais plots foi a destruição da Força de Aceleração e a progressiva degradação dos poderes de supervelocidade do Flash. Ao longo da temporada, uma ideia interessante foi apresentada: Barry Allen decidiu criar uma Força de Aceleração “artificial”, tal qual seu arquirrival Flash Reverso foi obrigado a fazer quando produziu a Força de Aceleração Negativa. A premissa, interessante por sinal, ditou o tom dos episódios enquanto os membros do Time Flash sempre esbarravam em obstáculos que impediam a criação de uma Força estável, e o drama da perda dos poderes pelo protagonista ficava cada vez mais evidente.

    Quando finalmente foram bem sucedidos em produzir a tal Força de Aceleração Artificial, logo perceberam que Barry Allen havia sido “contaminado” por ela, se tornando excessivamente racional e perdendo sua essência passional; novamente uma boa premissa. Eis que os membros da equipe resolvem destruir a Força que haviam criado e, num passe de mágica, o casal Barry e Iris recriam uma Força de Aceleração orgânica a partir do, acreditem se quiserem, “amor que sentem um pelo outro”. Para fechar com chave de ouro, a temporada se encerra com uma grande redenção da vilã Eva McCulloch, uma versão feminina do Mestre dos Espelhos, que decide viver feliz para sempre no mundo espelhado.

    A Força de Aceleração foi recriada a partir do “amor” entre Barry e Iris. Pois é.

    Neste momento é normal que você esteja sentindo um pouco de vergonha alheia; você não está sozinho(a). Foi assim mesmo, em 5 (cinco) minutos, que o que poderia ter sido um arco de temporada minimamente intrigante foi jogado no lixo e o “problema” resolvido de forma simplista e profundamente embaraçosa, tirando completamente o peso de todas as decisões que haviam levado os personagens até ali. Sequer vou entrar no mérito de que essa recriação da Força de Aceleração plantou a semente para o arco das Forças da Natureza contado na primeira metade da sétima temporada, onde Barry e Iris foram retratados como “pais” das mesmas, no sentido literal da palavra, uma das coisas mais constrangedoras que assisti nos últimos tempos.

    Assistir os episódios finais da sétima temporada foi um exercício desafiador. Em diversos momentos me peguei involuntariamente revirando os olhos para o nível raso dos diálogos, algumas atuações sofríveis e a péssima qualidade dos efeitos especiais. Estes últimos jamais foram um primor, porém, sempre entregaram um mínimo necessário para não serem o alvo principal de críticas. Parece-me claro que houve uma brusca redução de orçamento na série, possivelmente dado à perda de receita por conta da pandemia e às restrições de equipe nos sets de filmagem, mas também pela evidente concentração de esforços em novos títulos da The CW, como a bem-sucedida Superman & Lois.

    Basta dizer que o embate final da temporada, que uniu os arquirrivais Flash e Flash Reverso contra uma ameaça em comum, que poderia ter nos oferecido excelentes cenas de briga em alta velocidade, acabou terminando em uma luta de “sabres-de-raio” bizarra demais para ter sido verdade.

    Flash e Flash Reverso vs. Godspeed: um momento Star Wars sem apelo.

    Na temporada de outono deste ano, The Flash entrará naquela que será sua oitava e, espero, última temporada. Não quero parecer ingrato com o legado da série, que nos entregou algumas boas temporadas iniciais, impulsionou a popularidade do protagonista e de suas habilidades e nos proporcionou versões em live action de vilões que imaginávamos talvez nunca ver, como Gorila Grodd. De toda forma, isso não apaga os péssimos anos recentes da série e tampouco os muitos erros, para não dizer desrespeitos, cometidos na adaptação de arcos clássicos, em especial Ponto de Ignição.

    Inegavelmente The Flash está em sua fase de declínio e, embora isso seja apenas natural, insistir em postergar o inevitável fim só faz com que os bons momentos que ela nos proporcionou se tornem memórias cada vez mais distantes e os sucessivos erros que se acumulam comecem a manchar o próprio legado que o seriado produziu. O retorno do Flash Reverso no episódio final da recém-finalizada temporada entregou à atual equipe de produção um elemento essencial para dar à série o final que ela e os fãs merecem. Espero que possam fazer bom uso dessa oportunidade.

    Álisson Couto
    Álisson Couto
    Engenheiro civil, professor e fissurado pelo universo de super-heróis e da cultura pop. Fã incondicional do Batman e defensor ferrenho do Batfleck. Palpiteiro profissional.

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