No último dia 21 de setembro, foi ao ar o episódio 6×12 da série Supergirl, intitulado “Blind Spots (Pontos Cegos em tradução)” e este texto, apesar de conter vários spoilers, eu não considero uma análise, mas um recorte sobre o que eu, Lucas, senti ao assistir. Desde já agradeço ao Terraverso por permitir que eu compartilhe com vocês.

Acredito que este episódio se estrutura por meio de três reinvindicações, sejam elas literais ou figurativas: “Nos deixem respirar!”; “Nos vejam e nos escutem!” e “Estamos cansados.”

“I cant breathe” (eu não consigo respirar em tradução), é através da repetição desta frase que o episódio se inicia. Fato justificado pelas dificuldades respiratórias enfrentadas pelas vítimas da queda do edifício Ormfell, mas se pararmos para refletir sobre as cenas iniciais do episódio 6×12, vemos um jovem negro repetir inúmeras vezes que não consegue respirar. Puxando pela memória, esta situação faz com que vocês leitores e leitoras lembrem de algo?

“I can’t breathe. I can’t breathe. I can’t breathe”

Estas foram as últimas palavras proferidas por George Floyd, morto em uma ação policial nos Estados Unidos no ano de 2020, o que levou a inúmeros protestos ao redor do mundo, em prol do movimento “Vidas Negras Importam”. Assistir as cenas iniciais e acompanhar a luta de Kelly Olsen (Azie Tesfai) para conseguir mais respiradores para o hospital, enquanto a vereadora Rankin (Kari Matchett) recebe um tratamento especial, foi algo muito forte para mim. Como um homem negro, me senti no lugar de todos aqueles pacientes e igualmente sufocado, tendo algo necessário para a sobrevivência ser negado de uma maneira tão banal, como se aquelas vidas não fossem importantes.  Ainda devemos fazer um paralelo com as cenas da vereadora, pois, ela, uma mulher branca não apresentava problemas respiratórios e ainda reestabeleceu sua saúde de forma rápida e eficaz, devido aos poderes dados a ela com a magia da 5ª dimensão e que funcionavam literalmente sugando a vitalidade dos outros pacientes, em sua maioria negra.

Meses atrás li uma frase que infelizmente não encontrei o autor ou autora: “Voz eu tenho, não tenho é quem me escute”. É basicamente esta a narrativa do episódio, pois nele vemos Kelly tentando de tantos modos conseguir resolver a situação das vítimas, mas parecia que quanto mais ela tentava, mais inaudível e invisível sua luta ficava.

Ao falar com a equipe da Supergirl, Kara (Melissa Benoist) e os “Superfriends” apenas preocupavam-se em capturar Nyxly (Peta Sargeant) e ao ligar para Andrea (Julie Gonzalo), ela escutou que os leitores da CatCo estavam mais interessados pelo congestionamento provocado pela queda do Ormfell do que com seus moradores.

A luta solitária de Kelly ganha uma nova ótica com a chegada de Jhon Diggle (David Ramsey), que passa a atuar em parceria com a heroína. Muitas vezes os diálogos entre eles acabam citando que a população negra acaba sendo negligenciada e/ou não têm quem a dê ouvidos. O personagem Orlando (Jhaleil Swaby) também comenta isto em algumas situações, seja falando que seu irmão Joey (Aiden Stoxx) está piorando e os médicos não o escutam ou afirmando que a vereadora Rankin é apoiada por um sistema que os coloca para baixo. Kelly Olsen ainda chega a afirmar com todas as letras que a Supergirl negligencia pautas raciais e que esta deveria ser uma luta de todos:

Eu sei! Eu sei que todos vocês estão tentando parar Nyxly! Mas vocês estão me ouvindo?  Vocês vêem o que está acontecendo? As pessoas vão morrer, e eu sinto que estou gritando para ninguém! Devíamos lutar por todos, juntos. E, no entanto, estou vendo pessoas sofrerem, pessoas que se parecem comigo e todos aqui estão muito ocupados. Pessoas morrerão sem ajuda e onde está a indignação? Pessoas sem esperança? Talvez vocês tenham um segundo para eles.”

Por fim, ao longo do episódio vemos Kelly falar que já está cansada de lutar sozinha e sim, devo concordar com ela, sim ESTAMOS CANSADOS, estamos cansados de estarmos sozinhos, estamos cansados de não sermos ouvidos e estamos cansados de ver nosso oxigênio ser negado. Diversas cenas contribuem para narrar o cansaço da personagem, pois em vários momentos vemos ela chorando ao tentar chamar atenção para um problema que é estrutural, mas acaba sempre falando ou lutando sozinha. Esta situação ainda é evidenciada por diversos monólogos proferidos pela atriz Azie Tesfai ou através de suas conversas com a John Diggle:

Kelly: Eu só quero fazer a diferença, mas sou uma pessoa contra um sistema que é contra os mais necessitados há séculos.

John: E temos lutado por séculos. Lutando exaustos, lutando cansados, lutando para acertar as coisas, mas não é a hora de se afastar dessa luta. Use sua exaustão para alimentar a sua chama. Carreguei traumas raciais como se fossem parte de mim, então sei o que está carregando.

Kelly: Quero ser uma defensora dos que perderam a esperança, dos que foram deixados para trás pelos que deveriam protegê-los, dos que não têm heróis que se parecem com eles. Vou proteger aqueles que estão exaustos, para que não tenham que lutar por si mesmos todos os dias […] as pessoas precisam de esperança e há um grupo inteiro sem isso, sem esperança nos hospitais, sem esperança na polícia e sem esperança em super-heróis.

Eu poderia falar sobre o surgimento da nova heroína da The CW, a Guardiã e sobre as cenas em que Kelly assumiu sua identidade heroica e a apresentou para o mundo, cenas que aliás me fizeram chorar, mas prefiro terminar este texto com uma frase que na verdade é um pedido:

Nos deixem respirar, nos vejam e nos escutem, porque estamos cansados!

Sobre Lucas

Sou publicitário formado pela UFSM, mestre e doutorando em comunicação pela UFSM também. Fora isso, apenas alguém apaixonado pelo mundo nerd.

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