O selo DC Black Label traz histórias sombrias, reflexivas, angustiantes e sempre surpreendentes e, enquanto procurava alguma leitura que fosse deste selo, encontrei a minissérie Mulher-Maravilha: Terra Morta escrita e desenhada por Daniel Warren Johnson. Sempre que me recordo da experiência de ler uma aventura da Princesa de Themyscira, das quais tenho muito carinho como ‘O Espirito da Verdade’ ou ‘Hiketeia’, era uma sensação de esperança e a expectativa de que tudo iria acabar bem pelo fato da Mulher-Maravilha estar ali para proteger todo mundo, mas em Terra Morta é tudo completamente diferente.

A minissérie de 4 edições começou a ser lançada no final de 2019  e teve sua conclusão neste mês, contando a caminhada de Diana, que desperta de um coma induzido, encontrando a Terra após uma catástrofe que destruiu Amazonas, humanos e os heróis. A arte desenhada pelo próprio Johnson traz uma Mulher-Maravilha com uma aparência mais adolescente, porém, com a personalidade tão marcante como conhecemos ao longo de toda a sua história. O que se destaca nesta história é que entre os culpados pelo fim do mundo como se conhecia encontramos a própria Diana entre eles, por se deixar levar pelo ódio do conflito.

O que torna o enredo tão interessante é que você segue os passos de Diana na descoberta deste mundo destruído, todo o estranhamento da nova realidade da heroína é algo que como leitor me despertou a curiosidade para prosseguir na história e, a cada nova etapa, vamos entendendo como tudo chegou ao nível de total perca da esperança, com um desfecho surpreendente e muitos personagens conhecidos da mitologia da Mulher-Maravilha. Enquanto desenvolve a sua narrativa, Warren não deixa de lado uma das características que eu considero mais apaixonantes na Princesa das Amazonas, seu amor incondicional pela humanidade, retratando-o na relação de Diana com uma jovem chamada Dee, uma sobrevivente do apocalipse que tenta se manter viva em um campo de refugiados chamado New Hope, e a heroína acaba encontrando lá similaridades como a que sentiu quando teve seu encontro com Steve Trevor na Ilha Paraíso.

Warren em sua história não deixa de trabalhar outros elementos como a relação de Diana com a sua mãe Hip0lita, que não possui nenhum tipo de confiança na humanidade, fator que é muito importante para entender o que aconteceu no passado deste mundo morto e o seu treinamento com Nubia, quando ganha os braceletes que a ajudam a controlar seus poderes.  No presente, a Mulher-Maravilha procura levar os sobreviventes para a sua cidade natal Themyscira, em que temos mais uma surpresa inesperada sobre o que houve na guerra entre as Amazonas e humanidade e o que são as criaturas monstruosas que vagam pelo mundo. Outro elemento que torna a leitura tão densa é a forma como Diana elabora a culpa por ter sido responsável pelo fogo que destruiu o planeta durante sua luta com o Superman, em um momento de completa raiva e usando seus poderes em seu máximo.

O conflito entre a culpa de seu ato, a verdade sobre as suas convicções e o sentimento de ódio que a consumiu a ponto de perder o controle de sua força,  foram uma forma de humanizar a heroína a ponto de que podemos comparar com situações que convivemos na realidade, que apesar de nossas fortes convicções podemos ser falíveis, e a forma como lidamos com esta culpa estão muito fundamentadas em como estamos firmes sobre as coisas boas que acreditamos e, no caso de Diana, ela acredita no amor incondicional e no sacrifício. Mesmo no auge deste conflito interno, ela vai ajudar a humanidade, ou pelo menos o que sobrou dela. Outro momento que simboliza este auto sacrifício da Mulher-Maravilha se passa quando ela decide limitar os seus poderes para que não possa ferir os outros e, conhecendo estes aspectos da personalidade da heroína, Bruce Wayne decide salvar a Amazona para que ela fosse o pilar da reconstrução da humanidade.

O encerramento desta história é algo que me agrada, pois me remete a sentimentos que sempre associei a Mulher-Maravilha, o amor e a esperança, e Warren usa o melhor da heroína para concluir sua narrativa em que Diana decide lutar pela humanidade e leva-los até Themyscira. Lá poderiam ter uma oportunidade melhor de sobrevivência e um recomeço. Nos momentos finais, a conversa da heroína com a humana Dee parece não ser apenas uma reconciliação entre uma heroína que procura recuperar a confiança de alguém que desapontou, mas a sua reconciliação com a própria humanidade como um todo.

Mulher-Maravilha: Terra Morta é uma história que consegue prender o leitor em toda a jornada da heroína pela Terra devastada, em que seguimos seus passos pela coragem, dor, culpa, arrependimento e reconciliação não apenas para Diana com a humanidade que tanto ama, mas também consigo mesma como uma heroína que é capaz de se manter forte mesmo após cometer seus erros.

Sobre Ricardo

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Fã de quadrinhos, séries, filmes e games. Apaixonado por DC de Grant Morrison a Alan Moore. Mais um privilegiado de estar na amada Terraverso.

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