Então crianças essa é a estranha história de como Constantine foi parar no Big Brother. Não literalmente no nosso BBB, mas em um reality show semelhante.


Para quem não conhece Hellblazer era o título da revista mensal que narrava as encrencas em que o mago sacana John Constantine se metia. As vezes pra salvar o mundo, às vezes só pra salvar a própria pele. O personagem ganhou um filme em 2006 com Keanu Reeves no papel principal e recentemente fez parte do elenco regular de Legends of Tomorrow. Hellblazer sempre foi uma série sobre terror e o sobrenatural. O grande diferencial era a personalidade do protagonista John Constantine com sua moral dúbia e seu arsenal de sarcasmo. A briga entre céu e inferno aqui é retratada de forma pouco usual em uma disputa onde os humanos não passam de peões no joguete de anjos e demônios.

Ainda sim podemos dizer que essa edição pode dar um susto aos acostumados a série. Começando pelo formato inusitado da edição que lembra um mangá, ajuda a dar essa sensação a arte em preto e branco. Para completar o pacote, a sinopse coloca o mago em uma situação pouco usual em sua carreira. Sem dinheiro, Constantine aceita investigar estranhos eventos paranormais que andam assustando os produtores de Passagens Sombrias, um reality show onde sete pessoas são confinadas em uma casa assombrada e devem vasculhar o local em busca de um tesouro escondido.
Esta edição faz parte do sub-selo Vertigo Crimes. Este por sua vez é parte da Vertigo, tradicional selo adulto da DC. A ramificação abrangia histórias com cunho policial, mas durou poucos números. Não à toa a trama é cortesia do convidado especial Ian Rankin escritor que ganhou fama com histórias deste estilo. Já o responsável pela arte é o italiano Werther Dell’edera, impossível não lembrar dos famosos fumettis, como são conhecidos os quadrinhos de sua terra natal em especial de um certo detetive do sobrenatural.

Partindo para a trama apesar de todo estranhamento inicial, rapidamente Rankin coloca as peças no lugar e já nos sentimos em uma típica história do inglês, onde o fundo do poço parece nunca chegar. O autor usa do seu talento para histórias de mistérios para tecer uma trama onde nada é o que parece e onde cada resposta leva a uma nova pergunta. Constantine precisa descobrir qual a origem dos estranhos eventos na casa e começa a desconfiar que estão ligados ao passado dos confinados. O problema é que ninguém tem lembrança de antes da casa. Conforme vamos descobrindo quem é quem no programa, o quebra-cabeça vai se montando. Rankin demonstra todo seu domínio por esse tipo de narrativa ao prender nossa atenção por meio de uma história que prioriza a lógica, onde nos sentimos descobrindo junto com Constantine o segredo do lugar. Ao nos conectar com a trama é inevitável não querer chegar logo ao desfecho.


De pouco em pouco ele vai revelando as camadas de maneira que fica quase impossível largar a leitura. Além da trama funcionar bem na hora de atiçar nossa curiosidade também conta com um ótimo grupo de personagens coadjuvantes. Essências para montar a trama. O autor brinca com os clichês desse tipo de programa onde os participantes tendem a assumir esteriótipos. Tem a modelo, o bad boy, o nerd e por aí vai. Sobram também certas reflexões sobre esse tipo de produção.

A arte de Dell’edera cria todo o clima de claustrofobia necessário. O desenhista faz um ótimo uso das sombras para esconder passagens e aumentar o clima de mistério. Outro ponto forte são os personagens extremamente expressivos.

Além disso, não é toa que ao olharmos a lombada da revista fica nítida uma clara divisão entre preto e branco. Essa divisão marca um dos pontos mais interessantes da HQ onde a arte e o texto se juntam causando aquele impacto só possibilitado pelos quadrinhos.

Nos fim das contas, a edição leva Constantine para um lugar diferente, mas ali ainda está toda essência do personagem. Por se tratar de uma trama fechada e desligada da cronologia do personagem, esta é uma boa oportunidade para apresentar seu universo. Recheado de boas tramas de suspense, mas com muita personalidade e um jeito muito próprio de encenar o eterno duelo entre céu e inferno, sem os vícios maniqueístas.

O uso do Reality Show não é por acaso. O autor explora questões interessantes sobre esse tipo de programa, mas nunca de maneira pedante. Convida o leitor, mesmo aqueles que não suportam esse tipo de programa, a pensar sobre o que nos fascina tanto no entretenimento. Seria esse escapismo uma forma de fugirmos de nossa própria realidade? Quantas vezes olhamos para eles com um milhão de soluções para seus problemas enquanto não fazemos nada com os nossos próprios? Afinal como diria o filósofo Jean-Paul Sartre:

“Não há necessidade de grelhas, o inferno são os outros.”

Nota:

Ficha técnica da edição:

Roteiro – Ian Rankin

Arte – Werther Dell’Edera

Editora – Panini Comics

Preço – R$ 17,90

Lançamento – 11/11

Sobre Shelton

Shelton Silva

Jornalista formado pela FAPCOM, iludido com a ideia de transformar o hobby em profissão. Um milhão de projetos na mente e outras centenas de páginas em branco. O objetivo é preencher uma de cada vez, um dia chego lá. A rotina certeira do desenrolar dos dias é meu pior inimigo, a arte e as paixões são minha fuga.

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