Não é uma simples tarefa escrever sobre Lex Luthor, figura que em 2020 completa 80 anos desde a sua primeira aparição nas páginas dos quadrinhos, e o jornalista Peter Sands vai sentir isso na pele em ‘Lex Luthor: Biografia Não Autorizada’. Lex Luthor é um nato exemplo de que para uma biografia sua ser publicada é importante que ela cumpra alguns requisitos, como destacar seu apurado faro de empreendedor desde a juventude, sua carreira nos negócios, seu papel como o maior filantropo do país e que ela seja escrita por si mesmo, afinal, quem melhor para colocar no papel a vida de um homem ‘Simplesmente Brilhante’.

Não, essa não é minha definição sobre Lex Luthor, e sim o título da sua autobiografia, ‘Simplesmente Brilhante’. Mas como não se deve confiar nas aparências, esse é o tipo de livro que merece ser julgado pela capa.

Antes, cara leitora e leitor, segundo o dicionário uma biografia é: uma narração oral, escrita ou visual dos fatos particulares das várias fases da vida de uma pessoa ou personagem. Então, é importante ressaltar que ao longo da história nem todo mundo está disposto a tornar sua vida um livro aberto ou, ao menos, sem fazer uma edição ou outra em um fato aqui, uma ação ali e, com isso, tornar público apenas aquilo que glorifica a si mesmo.

Quando o jornalista Peter Sands é procurado para um novo trabalho, em um momento decadente da sua vida que tudo o que lhe resta é aceitar ou aceitar, ele, levado pelo acaso, se compromete com a produção de uma biografia não autorizada do poderoso Lex Luthor, que estampa a capa do Planeta Diário sobre a sua mesa. E aqui começamos a saga de um jornalista pela vida de um homem de muitos negócios, egocêntrico e com muita história para contar.

Em sua busca por fontes, Sands inicia sua jornada pela leitura de matérias de jornal e a obra ‘Simplesmente Brilhante’, de Lex Luthor sobre Lex Luthor, e, assim, percebe pontas soltas no enredo autobiográfico, como por exemplo o seu enriquecimento meteórico. “Ele não tem nenhum parente vivo. Nenhum registro escolar depois da sétima série”, diz Sands enquanto perambula pelas ruas do bairro de infância de Luthor até encontrar com a sua última professora, Sra. Anderson, com quem obtém os dois primeiros adjetivos do menino que ele deseja saber mais: gênio e cruel.

Nesse tempo do passado, seu único amigo é um menino chamado Perry White. Outros garotos implicam com o jovem Luthor no colégio, até serem parados pela força de alguns adultos motivados por uma certa genialidade mesmo que com elementos de crueldade. Da conversa, um fato que parece mais relevante para o repórter, a morte dos pais de Luthor e o seguro milionário de US$ 300 mil que o garoto de treze anos recebeu.

Tomado por esse rumo em sua investigação, Sands vai em busca da companhia de seguro e encontra o corretor que efetuou a apólice, um processo inesquecível para o homem, pelo alto valor e por um inusitado contratempo. No dia em que o velho Luthor foi informado em sua residência sobre a aprovação do negócio, Bryant, o corretor, foi expulso com xingamentos e ameaça de morte caso retornasse. Passado um tempo, foi procurado via correspondência para um pedido de desculpas e um aviso de uma viagem que Luthor faria com a sua esposa.

Luthor: Um milionário aos treze anos

Para Lex Luthor, seus pais eram odiosamente medíocres, patéticos e desde muito criança já pensava em um fim para eles. Armado com o seu intelecto, Luthor já era próximo de um ou outro homem de índole questionável que rondavam o cortiço em que morava. Impressionados e convencidos pelo menino, essas amizades já se ocupavam de alguns serviços ordenados por Luthor, provavelmente o mais importante deles foi o de convencer um mecânico a escrever um relatório falso após o acidente de carro que matou os pais de Luthor. O veículo que estavam os Luthors foi sabotado, antes disso Lex havia se passado pelo seu pai e contratado à distância um valioso seguro, com os US$300 mil em mãos pôde começar um novo capítulo da sua história, o de um homem de negócios.

Luthor: Um homem de negócios

Mais tarde, ainda em um processo de captar recursos para fundar sua gigante empresa no ramo de tecnologia, Luthor, para não se comprometer, usou de laranjas para se beneficiar mais do que todo mundo em um esquema de tráfico de drogas. Com dificuldades para a importação, Lex Luthor foi o “criador das primeiras drogas sintéticas e mostrou aos chefes do crime como os laboratórios poderiam ser instalados por todo o país”. Ainda segundo a fonte de Sands, Luthor “colocou suas fórmulas e o sistema de distribuição à venda por dois milhões de dólares”.

Lexcorp: ‘Ações falam mais alto do que palavras’

Não se trata de mais uma empresa, a Lexcorp tinha o objetivo de revolucionar todo o conceito de tecnologia já existente até se transformar em um império corporativo. Mas todo esse processo não se deu de forma natural, afinal para Lex Luthor “Ações falam mais alto do que palavras”. Diante de mais uma fonte, uma jovem recém-formada e na sequência contratada pela Lexcorp, que viu com os seus próprios olhos outras facetas de Luthor, Sands toma conhecimento de algumas atitudes do empresário que ao mesmo tempo acumula o cargo de dono do Planeta Diário. “Ele (Lex Luthor) usava o jornal para ficar mais rico. Contratava repórteres para encontrarem evidências que incriminassem seus concorrentes. Os artigos eram publicados antes de algum acordo ser fechado com o governo, com isso os concorrentes acabavam num mar de processos jurídicos”, diz a mulher que conheceu inclusive o lado mais sombrio e abusivo de Luthor.

Um Deus

Quando a Tinsel Town Publicações procura Sands, a ambição é por uma obra que vá além do livro de Trump, na época ainda apenas empresário, com ingredientes do tipo sexo selvagem e negócios escusos. Sands descobre além disso, um homem com aspiração divina e disposto a usar sempre o seu poder, “escolhi me tornar um Deus, controlo vidas humanas ao invés de ser controlado. Posso destruir uma pessoa com um telefonema. Um Deus deve ser severo.”, afirma Lex Luthor.

Capítulos Extras

Um breve parênteses sobre a versão do vilão apresentada em ‘Lex Luthor: Biografia Não Autorizada’ para destacar dois momentos em que ele se lançou por fontes inusitadas para sentir outros gostos do poder.

Presidente dos EUA

No inicio do século, a DC Comics investiu em um arco nos quadrinhos que apresentava Lex Luthor candidato ao cargo de presidente dos EUA. Entre as suas ações de campanha, defendeu Metrópolis de um ataque de Brainiac, fez promessas para recuperar Gotham e, até mesmo, sofreu um atentado que alavancou sua popularidade. Eleito, e com desdobramentos desse evento em outras mídias, como a animação ‘Superman – Batman: Inimigos Públicos’, Luthor consegue ter a Liga da Justiça à serviço do seu governo e investe em planos para desmoralização da dupla de heróis. Dono de informações sigilosas, sua ambição torna-se uma adversária e o seu posto como presidente não vai longe.

O desejo pela política é recorrente no histórico do oponente do Homem de Aço. Em 2011, a série ‘Smallville’ apresentou no seu capítulo final um salto temporal, dentre o futuro de alguns personagens, Lex Luthor, interpretado pelo ator Michael Rosenbaum, é o presidente dos EUA eleito em 2018.

Já na animação ‘Lego Batman – O Filme – Super-Heróis se Unem’ (2013), o vilão em formato de bonequinho almeja uma candidatura mesmo que desacreditado, para elevar sua aprovação perante os eleitores e fortalecer sua chapa aposta em um nome de peso como o seu vice, o Coringa.

Herói

Durante a fase de ‘Os Novos 52’, Lex Luthor encontrou uma brecha para ser visto como herói, e ele parece ter gostado da coisa. Em um momento que a Liga da Justiça estava impossibilitada de defender a Terra, Luthor vestiu sua armadura para enfrentar o Sindicato do Crime. Em um lugar que ainda não havia provado, encontra resistência entre o grupo de heróis, mas mostrou-se vez ou outra uma ajuda daquelas difícil de se recusar.

O veredito de “Lex Luthor: Biografia Não Autorizada” e o primeiro encontro do vilão com o Superman 

Lex Luthor: Biografia Não Autorizada é uma obra com os trabalhos de James D. Hudnall no roteiro, arte de Eduardo Barreto e cores de Adam Kubert. Muito dinâmica, que através do seu ritmo e apresentação pode ser imaginada e adaptada para o cinema, acompanhamos uma história envolvente em que seguimos os passos do repórter Peter Sands desde o momento em que flerta de perto com a decadência na carreira até o seu envolvimento completo e sem volta em um ato de puro compromisso ou de intensa sedução pelo jornalismo investigativo. Na HQ, os criadores apresentam Sands como alguém que consegue através de uma bem sucedida apuração se transformar em um homem que sabe demais. Pena não ter super-poderes para lutar de igual com o inimigo que vai encontrar na página final, e o repórter já previa isso: “Eu já estou morto”.

Ao mesmo tempo a narrativa envolve Clark Kent em uma história embaraçosa, um atalho orquestrado por Lex Luthor para que num futuro próximo esteja melhor preparado para um novo encontro com o Superman, desses que acontecem desde abril de 1940, mais precisamente na ‘Action Comics’ #23. Levado às páginas por Jerome Siegel e Joe Shuster, há 80 anos, Lex Luthor já tinha um plano, tornar-se o mestre supremo do mundo, colocando países em guerra e os tornando mais fracos, porém em seu caminho havia o jornalismo e o Superman. A história em que tudo começou para Luthor integra os extras do encadernado ‘Lex Luthor: Biografia Não Autorizada’, republicada em 2017 pela Panini, e que foi originalmente lançada em 1989.

Se para Lex Luthor, só há lugar para um Deus no Planeta, muitas páginas ainda serão escritas.

Sobre Leonardo

Leonardo Henrique

Me apresento da não tão distante Ribeirão Pires City, minha residência oficial desde que nasci. Formado em artes cênicas pela ELT e, recentemente, em jornalismo. Em tempos de Crise Infinita o momento exige Multiversões de si mesmo. Acreditem, não é uma Piada Mortal, isso foi apenas uma veloz apresentação. Se o caso é parar um asteroide, resolver um mistério ou acabar com uma guerra sabemos quem se deve ter por perto. Para informações sobre a DC este é o lugar…

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