Hoje, 29 de janeiro, é o Dia da Visibilidade Trans, uma comunidade que sofre tanto preconceito e constante marginalização por conta de uma sociedade altamente tóxica e conservadora. Uma comunidade que segue sua luta com tanta garra para que sua voz seja ouvida e, assim como na vida, nos quadrinhos tem as suas lutas e conquistas retratadas em algumas obras do universo DC.

Eu não ousaria me colocar no lugar de fala desta comunidade para abordar este assunto em pauta, por isso, pedi ajuda a uma amiga muito estimada para falar sobre personagens trans na cultura pop, mais precisamente no universo DC, a desenhista e ilustradora trans Micaela Ferreira, a qual dedico essa matéria e agradeço pelo tempo que disponibilizou para falar sobre personagens trans no universo dos quadrinhos, live action e outras que a inspiraram em sua vida.

Quando perguntada sobre algumas  personagens favoritas  do universo DC a ilustradora destacou a Ravena da equipe de jovens heróis ‘Titãs’ dizendo que “é uma personagem que mistura características que eu gosto como o lado sombrio, a magia que é um elemento ligado a feminilidade”. Ravena é uma personagem criada pela dupla Marv Wolfman e George Perez aparecendo pela primeira vez em “DC Comics Presents #26” e a personagem chama a atenção. Além dos elementos citados pela nossa entrevistada, seu conflito pela afirmação de sua identidade dividida entre a heroína que conhecemos e a filha do demônio Trigon.

A nossa entrevistada tem entre suas obras preferidas o universo de Sandman, do escritor Neil Gaiman, e além sobre seus personagens favoritos, conversamos sobre uma história que aborda diretamente a questão da identidade trans. No quinto volume da obra intitulada “A Game of You” conhecemos Wanda Mann, uma mulher trans amiga de Barbie que faleceu ao longo da narrativa e, em seu velório, tem em sua sepultura o nome Alvin ao invés de seu nome verdadeiro, escolha de sua sua família conservadora. Comentei sobre está história com Micaela “Ela mexe comigo porque vivo esse conflito dentro de casa. Meus pais não me chamam de Mica e não me enxergam como algo feminino, mas fiquei feliz de ter uma personagem que me representa e gostei do fato da Morte a ter recebido bem, um dos perpétuos de Sandman” relembrando que após a cena do velório, Barbie sonha com a sua amiga ao lado da Morte, a irmã de Sandman.

Aliás, a Morte é um dos seus personagens favoritos dela, comentando que o que gosta na personagem é como “ela é o oposto do que se pode esperar da morte e um dos pontos bacanas, é que ela carrega o ankh, o símbolo egípcio da vida e tem um visual gótico que no comecinho da minha adolescência, eu me identificava com o estilo”.

Ainda sobre quadrinhos, a ilustradora citou a personagem Coagula, da Patrulha do Destino que estreou na edição número #70 de 1993, criada pela escritora trans Rachel Pollack, e segundo a nossa entrevistada, a heroína possui poderes mágicos ligados ao xamanismo.

Sobre o live action, perguntei sobre a importância de Nia Nal, a Sonhadora de Supergirl, e Micaela comentou que “a atriz Nicole Maines falou sobre representatividade trans nas histórias em quadrinhos, sendo  importante atrizes trans interpretarem personagens como a Nia” o que destaca a importância de se criar uma personagem voltada ao público trans e que saiba trazer a fidelidade em relação aos sentimentos que devem ser transmitidos a respeito da comunidade.

Por fim, conversamos sobre as suas influências para os seus trabalhos, relacionadas além dos personagens citados ao universo de anime e mangá, revelando como é difícil conviver neste ambiente nerd. “Acho que todo meio é complicado, até mesmo o universo dos games que é extremamente machista, mas eu sempre fui muito diferenciada nesse sentido”  o que deixa claro como é necessário ter uma flexibilidade para se conviver na cultura nerd como uma mulher trans.

Como ilustradora, Micaela revelou sobre sua aspiração como artista ” sempre gostei de personagens femininos, gosto dos masculinos mas a identificação penda para o lado feminino, mas tenho vontade de desenhar um HQ futurista, com personagens trans num mundo totalmente cibernético e dark, na verdade, a protagonista seria uma imagem minha.”  Após ouvir este comentário e por ter consciência que a DC sempre abre espaço para a diversidade, com certeza ficaria muito feliz de ler essa aventura futurista em um selo como o DC Black Label.

O Dia da Visibilidade Trans é uma data que celebra e dá voz a pessoas que vivem constantemente oprimidas por sua identidade, e espero que esse relato possa ser importante para expandir os conhecimentos sobre personagens do universo DC, como inspiração para que mais homens e mulheres trans se encantem por este universo tão rico e diverso. O trabalho de Micaela Ferreira pode ser visto em suas redes sociais clicando aqui.

Sobre Ricardo

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Fã de quadrinhos, séries, filmes e games. Apaixonado por DC de Grant Morrison a Alan Moore. Mais um privilegiado de estar na amada Terraverso.

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