Paladino da justiça e combatente incansável contra o crime, Batman, um dos personagens mais famosos da cultura pop mundial completa em 2019 80 anos. Desde os primórdios da sua criação, na década de 1930, o Homem-Morcego sofreu diversas mudanças ao decorrer dos seus anos, sempre acompanhando a transformação do próprio mundo. Mas voltando ao passado, o que a origem do personagem pode nos revelar? Qual o contexto histórico que fez surgir o Cruzado Encapuzado?

Embalado pelo sucesso sem igual inaugurado do Superman (1938), Bob Kane ficou incumbido de apresentar um novo personagem para figurar na editora Detective Comics (DC Comics). Com influências de Zorro, do Sombra e do Fantasma, surgia o “Bat-Man”, alcunha heroica do traumatizado Bruce Wayne que teve os pais assassinados por um ladrão. Na criação do personagem, o roteirista Bill Finger também foi de vital importância para a concepção do herói que conhecemos hoje. Finger foi responsável pela ideia da capa (Bob Kane tinha desenhado asas na sua ideia original) e da máscara usada por Bruce Wayne. Depois de décadas, foi apenas em 2015 que Bill Finger foi reconhecido pela DC e creditado como co-criador do Batman.

Bob Kane e Bill Finger

O personagem apareceu pela primeira vez na capa da revista Detective Comics nº 27, apesar da capa estampar a data de maio de 1939, a revista foi lançada no dia 18 de abril do mesmo ano. Totalmente diferente do Superman, Batman é um herói sombrio, um combatente do crime selvagem que inicialmente portava revólver e matava seus inimigos. O Homem-Morcego trouxe de volta aos quadrinhos o ambiente noir e a aura gótica que se multiplicou na década de 1930, época esta que muito influencia o nascimento do herói.

A década de 1930 não foi nada fácil para os Estados Unidos. Sofria-se a grave crise provocada pela quebra da bolsa de valores em 1929. O número de desempregados aumentou, empresas e bancos faliram e muita gente se viu sem nada do dia para a noite. Para termos uma ideia, o Central Park, uma grande área arborizada de Nova York, virou uma favela.

Em 1920, com a aprovação da Lei Volstead ou Lei Seca, ficou proibida nos Estados Unidos a produção e o consumo de bebidas alcoólicas. Tal medida era uma luta de setores conservadores da sociedade que viam na bebida o mal e a degeneração moral da população.

Bebida sendo despejada durante a vigência da Lei Seca nos Estados Unidos.

No entanto, a Lei Seca fez fortalecer o crime organizado, onde gangues se organizaram em torno de imigrantes de segunda geração como judeus e ítalo-sicilianos. Tais organizações começaram a disputar território e, nessa luta sangrenta, milhares de cidadãos perderam a vida por causa das balas perdidas ou pela ingestão de bebidas clandestinas fabricadas sem condições higiênicas.

As páginas das histórias em quadrinhos de Batman revelam o reflexo dessa realidade quando um simples bandido mata os pais de Bruce Wayne durante uma tentativa de assalto. Um episódio que não era um elemento ficcional como a vinda do bebê Kal-El para a Terra a bordo do seu foguete. Assaltos e assassinatos faziam parte do cotidiano americano durante a década de 1930 quando gangsteres disputavam o poder em cidades americanas.

A reação contra ao crime organizado ganhou força quando a mídia reagiu duramente ao massacre sangrento realizado no dia 14 de fevereiro de 1929. Em 1931, Al Capone é preso e condenado a 11 anos de prisão por fraudes fiscais.

Desbaratar o crime organizado não foi o suficiente. Fazia-se necessário também ir atrás dos bandidos isolados ou daqueles reunidos em pequenos bandos. Nesse contexto surgiu a figura de J. Edgar Hoover que propagou o discurso de proteção ao cidadão contra qualquer tipo de violência.

J. Edgar Hoover

Nas propostas que o New Deal trazia para salvar o país da crise, estava a guerra ao crime. Medidas governamentais endureceram ainda mais as práticas criminosas e concedeu aos agentes federais maior poder de intervenção. Durante essa época, são presos “Machine Gun” Kelly, Bonnie Parker e Clyde Barrow, John Dillinger, “Baby Face” Nelson, “Ma” Parker e Alvin Karpis. Criminosos que não tinham ligações com os grandes grupos organizados, mas cujas prisões trouxeram muito crédito a Hoover (apesar das prisões serem cooperações entre as policias locas e federais).

Edgar Hoover engrandeceu ainda mais os feitos de seus agentes policiais e apontou sua agência como algo indispensável no combate ao crime. Em 1953, a antiga polícia científica do Ministério da Justiça muda de nome para se chamar “Federal Bureau of Investigation”, FBI.

Batman não apenas combate o crime organizado em suas histórias, como também vive uma cruzada contra qualquer um que ameace a paz em Gotham City. Seja em grupos de mafiosos ou na figura de um vilão como o Coringa, o Pinguim ou o Duas-Caras, Batman reflete, na fantasia dos quadrinhos, a realidade do crime típico da época em que surgiu. Hoje, o personagem que possui 80 anos, não apenas combate mafiosos e todo tipo de vilões malucos que lhe impõem desafio, mas também elementos da nossa realidade como ataques cibernéticos e terroristas.

FONTE: GABILLIET, Jean-Paul. Batman na luta contra o crime. In: História Viva: Grandes Temas nº 52. Editora Duetto, 2014, p. 26-29.

Sobre Professor

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Protegido pela identidade secreta de Luiz Alexandre de Andrade, o Professor DCnauta é historiador e também professor de história. Inspirado pelo Superman, buscando o preparo do Batman e espelhado na determinação da Mulher-Maravilha, o Professor DCnauta se junta ao time do Terraverso na busca de um mundo melhor (e sem rumores).

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