“Pelo poder da verdade, eu, ainda vivo, conquistei o universo.” 
V de Vingança 

O dia 5 de novembro não se tornou apenas o feriado inglês do dia de Guy Fawkes e a Conspiração da Pólvora, mas um dia a ser lembrado pelos atos do misterioso justiceiro V na obra ‘V de Vingança’ escrita por Alan Moore e David Lloyd, tendo seu inicio na Warrior Comics entre 1982 e 1983, porém só foi finalizada em 1989 no selo Vertigo. Em 2006 houve uma adaptação para o cinema roteirizada por Lilly Wachowski e Lana Wachowski, dirigida por James McTeigue e a partir deste lançamento, o personagem V se tornou um símbolo da cultura pop ao longo dos últimos 14 anos.

A obra é extremamente política, se você acredita que quadrinhos e política são coisas que não se misturam, existem duas hipóteses que me fazem pensar sobre você meu caro leitor conservador: ou você não leu a história em quadrinhos e apenas opina baseado na sua alienação ou você não entendeu o quadrinho e sequer o filme; e não apenas se baseou na alienação como também a abraçou como a única verdade, hipótese na qual acredito ser a mais vergonhosa. Enfim, ambas produções, tanto o quadrinho quanto a adaptação do cinema – apesar de divergirem em alguns pontos da narrativa – trabalham com a mesma perspectiva, a luta contra a repressão. Entretanto, neste cinco de novembro, eu quero me apoiar sobre a simbologia que esses personagens nos trazem, principalmente na versão cinematográfica.

A luta de V seja no quadrinho ou no filme é contra um governo autoritário, conservador, com um discurso populista e altamente preconceituoso, se apoiando na destruição não apenas do governo como uma estrutura política – um sistema que se solidificou através do medo da população – mas da destruição do ideal de um governo e, parafraseando o próprio justiceiro, a destruição de um prédio não pode dizer nada, mas quando este prédio é um símbolo… a sua destruição passa a significar outra coisa. Aliás, como não comparar os eventos da obra com o que vemos na realidade? Apesar de ter sido o manifesto de Alan Moore contra o Thatcherismo nos anos 80, a história parece ter sido escrita descrevendo de forma minuciosa uma sucessão de eventos que podemos olhar em movimento na nossa realidade.

E esse personagem sem nome,  rosto e praticamente sem uma história a ser contada é a própria metáfora do que significa o símbolo, a ideia da liberdade em sua própria essência viva se fazendo presente na própria narrativa. E é por isso que ela se difundiu de forma tão viva que, mesmo após 14 anos do filme ser lançado, a máscara de Guy Fawkes do justiceiro V é um símbolo de revolta contra o sistema e opressão, no qual aqueles que a usam em protestos repetem o mesmo gesto do protagonista misterioso; ocultar a sua identidade e personificar ao que nela foi associado, uma luta pela liberdade de ser e se opor contra o que é errado e não ser silenciado.

No filme, que teve a brilhante atuação de Hugo Weaving como V e Nathalie Portman como Evey Hammond, que ao pronunciar seu nome podemos perceber um pequeno trocadilho com a própria letra V, existe um trecho que eu considero um dos mais tocantes em ambas as versões, a carta de Valerie interpretada por Natasha Wightman . Em dado momento da história, Evey esta presa e sendo torturada dia após dia por informações sobre V, sempre sob a ameaça de ser executada até que ao olhar sobre o vaso sanitário encontra uma carta escrita em papel higiênico, um breve registro da vida de uma mulher lésbica que fez o máximo para sobreviver e exercer o seu direito de existência que foi negado por uma cultura conservadora e homofóbica ao longo de sua vida.

Apesar de ser uma pessoa que viveu na história e tem uma identidade pessoal, ela se torna um símbolo pela sua própria vivência e resiliência diante dos tempos difíceis. Apesar de ter a consciência de que seu destino foi selado naquela prisão, ela mostra sentimentos como a empatia e acredito ser a única personagem em todo o contexto do filme que demonstra esperança, sendo a inspiração do próprio protagonista para a sua cruzada contra o regime. A sua ideia de um mundo em que ela poderia viver o seu amor sem discriminação é algo tão comovente que também se tornou o motivador de Evey contra seus captores.

Assim como todo o simbolismo político existente da obra estar ancorada na nossa atualidade, não é difícil encontrar ao seu lado tantas Valeries que são lésbicas, gays, trans, não binários e tantas outras minorias que tem este direito de ser, se expressar e algo tão simples como existir negados por um mundo tão conservador. Ao longo de sua história ela lutam pelos seus direitos e, novamente parafraseando a obra, essas pessoas são um ideal e ideias são a prova de balas e qualquer forma de violência. Para essas pessoas me permito utilizar deste texto para dizer que, apesar de eu não conhecer vocês, apesar de que talvez eu jamais vou encontrar vocês, rir com vocês, chorar com vocês ou beijar vocês, eu amo todos vocês e vocês são a minha inspiração.

Para finalizar, lembrai do simbolismo que o 5 de novembro projetou na realidade através de uma história em quadrinhos e um filme, que foram um manifesto político e inspiração para que tantas pessoas procurem nessas produções a representação da liberdade.

Sobre Ricardo

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Fã de quadrinhos, séries, filmes e games. Apaixonado por DC de Grant Morrison a Alan Moore. Mais um privilegiado de estar na amada Terraverso.

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