A última vez em que estive em uma sala de cinema foi precisamente no dia 21 de fevereiro em uma sessão de ‘Aves de Rapina’ e depois disso o mundo acabou com a pandemia. Diversos estabelecimentos deixaram de realizar as suas atividades e dentre eles o cinema que tenta retomar as suas atividades diante de um cenário caótico que vivemos.

Gostaria de reforçar que a pandemia não acabou, portanto, continuem se protegendo, seguindo as normas e orientações necessárias para que de fato possamos viver em ambientes minimamente seguros e pelo menos emular a vida que tínhamos antes do mundo como conhecíamos.

E dentre tantas notícias que andei acompanhando soube o retorno ao cinema decidi ir a uma sessão para testemunhar como os cinemas estão se portando neste retorno das atividades e acredito que estão proporcionando um clima seguro com protocolos muito rígidos a serem seguidos. Em cartaz ‘Superman- O Filme’ de 1978 estrelado por Christopher Reeve, que marcou uma geração por mostrar que um homem poderia voar, mas eu sequer havia nascido para testemunhar este evento que é um marco no cinema e adaptações de personagens de quadrinhos. Fui O ÚNICO a comprar um ingresso para aquela sessão aonde vi uma grande parte dos assentos bloqueados e pequenos agrupamentos de cadeiras com um distanciamento significativo.

Devidamente acomodado e seguro acompanhei todo o processo para a exibição do primeiro filme que iria assistir em uma sala de cinema desde fevereiro. Confesso que me empolguei vendo trailers de filmes que nessa altura já estariam até sendo distribuídos em home vídeo incluindo ‘Mulher-Maravilha 1984’, que acredito que já teria sido tema de uma edição de nossa da Live Patrol. Chegando o grande momento, não sei se foi a saudade do cinema ou o amor pelo filme, mas foi uma experiência mágica.

“Superman – O Filme” foi lançado em 1978 dirigido por Richard Dooner e estrelado por Christopher Reeve, Margot Kidder, Marlon Brando, Genne Hackman e Valerie Perrine adaptando a origem do primeiro herói da história dos quadrinhos, sendo um sucesso na época e ganhando mais outros três filmes com Reeve, até o momento, como o único ator a interpretar o Superman por quatro filmes. O mais próximo desta marca é Henry Cavill com “O Homem de Aço”, “Batman vs Superman” e “Liga da Justiça”.

Eu não gosto de dizer que um filme “envelheceu bem”, eu acredito que os filmes não envelhecem pois são recortes históricos da sociedade refletidos sobre a sétima arte, e estes recortes não envelhecem, na verdade perduram ao longo dos anos, podendo ser uma ferramenta de análise sobre como se retratava a sociedade através da ficção. Partindo deste principio, o longa de 78 é a forma perfeita para entender como o heroísmo e até mesmo a política era retratada, principalmente neste período que não existia uma adesão maciça ao gênero como vemos a partir da trilogia do Batman de Christopher Nolan.

O filme é uma história de origem, Jor-El interpretado por Marlon Brando é um cientista do planeta Krypton que, ao lado de sua esposa Lara, envia seu filho Kal-El para um planeta 6 mil anos luz, sendo o único sobrevivente da destruição. Na Terra ele é criado por Jonathan e Marta Kent como um adolescente comum até os seus 18 anos, quando após o falecimento de seu pai decide ir atrás de suas origens. Assim, ele é ensinado pelas memórias de seu pai kryptoniano sobre suas habilidades e o seu chamado para ser uma luz que irá guiar a humanidade.

Neste período do longa me chama a atenção a quantidade de referências religiosas que se encontram como o pai que envia o seu único filho para ser uma luz para humanidade, e ser criado por pais adotivos que não tiveram filhos ou ainda o período de isolamento que Clark passa na Fortaleza da Solidão sendo instruído e testado pelas memórias cristalizadas de Jor-El, que chegaram a Terra junto com ele. Pensando nisso, me pergunto qual o fundamento de criticar outros diretores que posteriormente trabalharam com estes conceitos, como Zack Snyder, que costuma ser criticado também pela mesma abordagem.

Após ter passado por um tempo na Fortaleza, Clark volta a civilização para trabalhar como jornalista no Planeta Diário tendo assim seu primeiro encontro com Lois Lane, sempre retratada como uma mulher a frente do seu tempo, corajosa, arrojada e determinada a chegar a fundo nas suas investigações. Neste momento, que surge a primeira aparição do herói para o mundo salvando Lois da queda de um helicóptero no topo do Planeta Diário, há uma sequência de outros momentos do herói salvando pessoas em diversas situações.

Neste aspecto, percebe-se como Donner trabalha a questão do heroísmo do personagem com brilhantismo, aquele conjunto de cenas pela minha ótica é mostrar o herói por ele mesmo, não existe nada além disso, é apenas ver o Superman praticando o bem, salvando vidas, ajudando as pessoas como sempre vimos nos quadrinhos ao longo de suas oito décadas de existência. Você é capaz de se divertir assistindo. No cinema moderno, infelizmente não se utiliza tanto esse momento de tela que me recordo ver em filmes como “Shazam!”, “O Homem de Aço” e “Mulher-Maravilha” mas em outras produções não é algo tão recorrente.

A chegada do Superman não apenas chamou a atenção dos cidadãos de Metrópolis, como também de Lois que consegue a entrevista exclusiva mais famosa da história do cinema rendendo o artigo “Eu passei uma noite com o Superman”, referenciado em diversas produções DC ao longo dos anos, sendo mais recente no crossover das séries “Crise nas Infinitas Terras”. No filme, a cena é romântica e vemos Lois encantada com charme do herói sem saber que na verdade ele é o atrapalhado Clark Kent, que após o encontro surge para um jantar e vemos como a atuação de Reeve é fantástica a ponto de parecer duas pessoas completamente diferentes, vivendo o herói do dia ou um jornalista que se assusta e desmaia durante um assalto.

O vilão do filme é o Lex Luthor interpretado por Gene Hackman, sempre lembrado ao longo dos anos por sua atuação como um grande antagonista. Ele interpreta um vilão clássico um pouco caricato, sua versão do Luthor é de um homem astuto, uma mente criminosa, genial e egocêntrica que se aproveita dos mais ingênuos como a Sra. Tessmacher para chegar aos seus objetivos. Esta vilania se encaixa perfeitamente com o universo criado para esse Superman.

O final deste clássico é digno de histórias do Superman da Era de Ouro em que o herói enfrenta um desastre na costa causado por Lex Luthor, um terremoto na falha de San Andreas em que o Homem de Aço o único capaz de deter a onda de destruição. Apesar de ter salvado o dia, o Superman não foi capaz de salvar a vida da mulher que se apaixonou e testemunhamos algo que realmente só seria visto nos quadrinhos, quando o herói voa ao sentido contrário da rotação da Terra para que o tempo volte o suficiente para que Lois sobreviva ao terremoto. A cena de encerramento que mostra o Superman voando ao redor do planeta é maravilhosa, trazendo o tom de esperança que tanto amamos do personagem e apesar de não ter vivido de forma imediata, foi extremamente prazerosa a sensação de ver este filme em um cinema.

Apesar de todo o contexto melancólico que este retorno ao cinema me trouxe, assistir uma obra como “Superman – O Filme” foi como um balsamo para esta realidade tão complicada que vivemos, aonde o medo e o negacionismo diante do que esta acontecendo rege, nos conduzindo aos principio de uma incerteza sobre como vamos viver este futuro, porém, ainda se pode abraçar a esperança em coisas tão simples como um filme que nos mostra que um homem pode voar.

 

Nota: 52/52

 

Sobre Ricardo

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Fã de quadrinhos, séries, filmes e games. Apaixonado por DC de Grant Morrison a Alan Moore. Mais um privilegiado de estar na amada Terraverso.

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