Desde criança sempre me identifiquei com personagens ligados à natureza, não sendo surpresa que minha personagem favorita seja a Hera Venenosa. Por isso, não seria surpresa que, entre todos os personagens do novo Esquadrão Suicida, seria a Caça-Ratos 2 que chamaria minha atenção. Se na infância buscamos um personagem para servir de inspiração, desejar ser como ele ou ela quando crescer, a Caça-Ratos é o que mais se assemelha à minha profissão: uma bióloga que trabalha com mamíferos e já esteve em contato com 20 espécies de roedores. Posso dizer que foi amor à primeira vista quando apresentaram a personagem no DC FanDome, mas o ápice veio com a recente revelação de Sebastian, o rato ajudante.

Esta matéria será diferente do usual. Sebastian não é um personagem propriamente dito e, em teoria, as informações dele estão atreladas à sua “dona”. A proposta aqui é entrar na ecologia animal, explorar as características, comportamento e habitat dos ratos.

Classificados como espécies cosmopolitas (ampla distribuição no mundo), a ratazana ou rato de esgoto (Rattus norvegicus), o rato de telhado ou rato preto (Rattus rattus) e o camundongo (Mus musculus) foram transportados em navios vindos da Europa e Ásia durante a colonização do Novo Mundo. Espécies não nativas possuem vantagens, como a falta de predadores naturais, para se dispersar quando introduzidas em novos ambientes. O fato de que esses roedores possuem características biológicas que impulsionam o aumento populacional, formando um pequeno exército, fez com que eles sejam considerados como pragas urbanas.

Observando as características de Sebastian, é provável que ele seja uma espécie do gênero Rattus, mais precisamente a ratazana (R. norvegicus). Uma ratazana tem o corpo robusto com massa corpórea variando de 150 a 600 gramas, o dobro do rato de telhado. O comprimento da cabeça e corpo em média é de 22 centímetros, com a cauda menor que o corpo, variando de 16 a 18cm. São animais onívoros, mas preferem se alimentar de grãos, carnes, ovos e frutas. A vida média de uma ratazana é de 24 meses, alcançando a maturidade sexual entre 60 e 90 dias. Uma fêmea pode ter de 8 a 12 ninhadas por ano, com um período gestacional de cerca de 22 dias. Cada ninhada pode gerar de 7 a 12 filhotes que precisam de cuidados por cerca de 28 dias até estarem aptos a sair do ninho e buscar alimento por conta própria. Isto significa que uma única ratazana fêmea pode gerar mais de 50 novos indivíduos por ano. Ou seja, não faltará ratazanas para a Caça-Ratos usar no filme.

A ratazana vive em colônias de ratos cuja o tamanho é proporcional à disponibilidade de alimento em seu território, ou seja, quanto mais alimentos disponíveis próximos ao abrigo mais numerosa é a colônia. Esse roedor tem preferência por ninhos ou tocas abaixo do nível do solo, utilizando as patas e dentes para cavar buracos e túneis, podendo causar danos estruturais no chão dependendo da extensão dessas escavações. Além da sua habilidade de cavar, essa espécie tem habilidade para nadar e mergulhar e, por isso, é encontrado perto de cursos de água. Vale destacar que ratazanas não possuem membranas natatórias (uma pele ligando um dedo ao outro) como Rato-d’água Nectomys squamipes. Por isso, galerias fluviais ou de esgoto são associadas às ratazanas, onde são facilmente encontradas, mas também são encontrados em lixões e raramente dentro de casas. As espécies comumente vistas em residência são o rato de telhado e o camundongo.

A construção de ninhos de ratazanas é definida por feromônios que limitam o território, não mais que um raio de 50 metros. Porém, caso necessário, elas percorrem uma distância maior. Dentro deste território é onde a ratazana constrói o abrigo, busca alimentos e parceiros sexuais. Os indivíduos dominantes dentro das colônias se tornam agressivos e expulsam outras ratazanas que não pertencem àquele território. Tanto a ratazana quanto o rato de telhado possuem uma característica de preservação conhecida como neofobia, que é a desconfiança em objetos ou alimentos novos dentro do território. Esse comportamento varia de acordo com o indivíduo ou a população, podendo ser mais intenso em locais com pouco movimento. Com essa aversão para com novidades, o animal acaba criando o hábito de sempre percorrer o mesmo trajeto, o que acaba criando uma trilha de sujeira e gordura, e desgastando a vegetação quando presente, por onde passa.

A atriz Daniela Melchior (Caça-Ratos 2) e o Sebastian em “O Esquadrão Suicida”.

Tem o hábito de procurar alimentos durante a noite, caso sejam avistadas durante o dia significa que a população está muito grande. Aderem ao canibalismo quando um indivíduo está doente ou machucado, desta forma acabam realizando um próprio controle populacional. Além de fortes também são inteligentes, capazes de aprender tarefas se forem recompensados. Os ratos de laboratórios utilizados em pesquisas biomédicas, que em determinadas ocasiões precisam realizar tarefas durante os estudos, são descendentes de uma colônia de ratos R. norvegicus do Instituto Wistar, na Filadélfia.  Utilizando quatro casais de ratazanas albinas, eles decidiram padronizar e domesticar os indivíduos para fins científicos no início do século XX. Há alguns anos a polícia da Holanda utilizou ratazanas para farejar drogas e explosivos, se inspirando em um trabalho similar no Camboja onde ratos gigantes foram treinados para farejar minas terrestres.

Provavelmente Sebastian circulava no subsolo da prisão Belle Reve e acabou sendo atraído, de forma proposital ou não, para a cela da encantadora de ratos. Em um grande centro urbano, onde parece se passar a maior parte do novo filme, é esperado que tenha um exército com um número considerável de ratos disponíveis no esgoto.  Agora nos resta imaginar se Sebastian se juntará ao exército de ratos para ataques diretos ou se ele será o rato com tarefas mais furtivas.

“O Esquadrão Suicida” estreia nos cinemas no dia 5 de agosto.

Sobre Rayanne

Capixaba. 1993. Bióloga. Sarcasmo. Socialmente distante. Hera Venenosa. Torre de Babel. Me envie fanfic. Time is money, money is power, power is pizza and pizza is knowledge. Let’s go!

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