No ano de 1940, William Moulton Marston e sua esposa, Elizabeth Marston tiveram uma conversa. William, psicólogo, escritor e roteirista de quadrinhos, falou para sua esposa que iria criar um personagem diferente, que não usasse de violência na resolução de conflitos, mas sim o amor e a paz, e Elizabeth, advogada, respondeu “Bom. Mas faça-o uma mulher”.

Pouco tempo depois, em dezembro de 1941, na revista All Star Comics #8 surgiu a Mulher-Maravilha, a primeira super heroína que não foi criada para ser a contraparte de um super-herói masculino, uma personagem de tamanha força que resistiu no mundo dos quadrinhos mesmo surgindo em um período onde as mulheres tinham muito pouca ou quase nenhuma voz. E depois de um certo tempo, foi intitulada pelo próprio Marston de “o novo tipo de mulher que deve governar o mundo”.

A história da personagem está diretamente ligada à história de emancipação das mulheres num mundo patriarcal, da consolidação e da força do movimento feminista. Neste texto, faremos uma breve análise da história da personagem e como as suas “fases” são um retrato da luta de todas as mulheres.

A priori, precisamos compreender o contexto histórico do período de criação da personagem, que surgiu em 1940-1941, momento em que a Segunda Guerra Mundial se encaminhava para o fim. Quando refletimos sobre esse contexto, é clara a percepção do fortalecimento de conceitos que integram o movimento feminista, a maioria dos homens estavam em guerra e as mulheres ficavam em casa, comandando sozinha os seus lares, criando os filhos, movimentando a economia e o mercado de trabalho, se emancipando.

É nesse contexto que Marston decide fazer um personagem antagonista as forças bélicas e Elizabeth propõe que seja uma mulher, por que o que seria capaz de resolver conflitos a base do diálogo do que as mulheres, afinal de contas, era isso que elas estavam fazendo enquanto os homens guerreavam. Eram as mulheres que estavam tocando o mundo, e é isso que Diana surge para ser, a representação da força feminina, da capacidade inventiva da mulher de sobreviver em ambientes adversos e situações inesperadas, de se sobressair quando a corrente está fazendo força contrária, e de ser uma emissária da paz e do amor, de ver o que ainda há de bom na humanidade.

Mas nem tudo foram flores para a Mulher-Maravilha, sendo uma heroína escrita por homens num mundo de homens, as situações que Diana enfrentava dentro dos quadrinhos eram um espelho para momentos que as mulheres viviam todos os dias aqui do lado de fora. Por exemplo, quando a Mulher-Maravilha se juntou a primeira vez com a Sociedade da Justiça (primeira equipe de super-heróis), seu papel era de secretária, apesar de seus super-poderes que a tornavam tão forte, tanto quanto seus colegas homens.

Quantas vezes as mulheres foram, e são, preteridas no trabalho tendo as mesmas qualificações, ou até melhores que um homem, apenas pela fato de ser mulher? Dessa maneira, podemos perceber que nesse período, apesar das mulheres estarem mais inseridas no mercado de trabalho, oportunidades ainda lhes eram negadas. É relevante falarmos também da hiperssexualização que a personagem sofreu ao ser desenhada no decorrer de sua história, esse infelizmente não foi um problema enfrentado apenas pela Mulher-Maravilha, mas por muitas personagens femininas no mundo dos quadrinhos. Ainda hoje, personagens femininas são desenhadas com medidas corporais absurdas e roupas que claramente não cabem no contexto (até por que, você não vê o Batman combatendo o crime com um maiô fio-dental, né!?), apenas para satisfazer o male gaze, ou as vontades de um homem sobre como o corpo feminino deve se parecer.

Tal fato é comum na indústria de quadrinhos, por que presumiu-se e presume-se até hoje que o grande público alvo é masculino, o que não é mais verdade e talvez nunca tenha sido, meninas gostam de super-heróis tanto quanto meninos, o que nos mostra que, quando personagens femininas param de ser escritas e desenhadas para atender o olhar masculino, como vem acontecendo com a Mulher-Maravilha desde Os Novos 52, nos mostra que o feminismo avançou mais um pouco, que o estigma do gênero passou a ser quebrado e que as mulheres estão sendo respeitadas e enxergadas como público.

A inserção das mulheres como público alvo do universo dos super-heróis ficou ainda mais forte em 2017, quando a Mulher-Maravilha foi pioneira mais uma vez, sendo a primeira super-heroína a ganhar um filme solo, com o lançamento do título homônimo, dirigido por Patty Jenkins e estrelado por Gal Gadot. A produção abriu as portas para que mais filmes de heroínas pudessem sair do papel, como Viúva Negra e Aves de Rapina, mostrando para todos que um filme de super-heroína é tão fodão quanto um filme de super-herói, não sendo atoa que ‘Mulher-Maravilha’ é um dos melhores filmes, nos termos de aprovação da crítica, e a personagem é uma das mais consolidadas do DCEU.

O legado da Mulher-Maravilha é algo tão grande, que em 2016, a ONU elegeu a personagem como Embaixadora Honorária para Mulheres e Meninas, no entanto, discussões sobre o corpo da Mulher-Maravilha estabelecer um padrão de beleza que exclui vários corpos, impediu a posse da personagem, no entanto, o fato não deixa de inspirar mulheres e meninas pelo mundo afora!

A Mulher Maravilha é isso, um símbolo de força feminina, uma personagem que surge não para ser salva por um homem mas sim salvando não só um homem (Steve Trevor) mas toda a humanidade. Uma personagem que tem por princípios os valores da verdade, do amor e da justiça, uma emissária da paz, aquela que vê o bem na humanidade, fala todas as línguas e é o caminho entre os homens e os deuses. A Mulher-Maravilha nos lembra que, cada uma de nós seguimos em frente diante das adversidades, que somos fortes enquanto o mundo diz que somos o sexo frágil, que assumimos espaços majoritariamente dominados por homens, que fazemos revolução todos os dias e que somos o tipo de mulher que deve governar o mundo!

Sobre Luara

Graduanda em Direito, amante de Ciências Políticas e Sociais, Literatura e Cinema. Aficcionada por Cultura Pop e Dcnauta ferrenha. Busco enxergar conexões entre a cultura pop e debates sociológicos.

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