Dinâmico, colorido e excitante. Mulher-Maravilha 1984 é tudo isso e muito mais. Nos aprofundamos em quem a Diana (Gal Gadot) se tornou em contato com o mundo dos homens. Alguém mais solitária, porém dedicada em atos heroicos.

A diretora Patty Jenkins mostra esse amadurecimento através da narrativa da própria princesa das Amazonas, que lembra de sua juventude em Themyscira e em como olhamos para o passado e percebemos que aprendemos lições quando não sabíamos que elas estavam sendo ensinadas.

Nenhum herói nasce de mentiras.

É muito bom ver novamente a jovem Diana na ilha com as outras Amazonas, ver mais de Themyscira e as olimpíadas é divertido e cheio de ação, porém ao lembrar do primeiro filme, é estranho ver a princesa tão jovem participando da competição sendo que a rainha Hipólita havia proibido que Antíope a treinasse.

Possivelmente a atriz do primeiro filme que interpretou a jovem Diana quando recebeu a permissão para treinamento cresceu demais, e resolveram utilizar novamente Lilly Aspell que teve mais destaque no primeiro filme. Nas olimpíadas, Diana lidera a competição até que seu ego infantil domina e literalmente a faz cair do cavalo. Ela toma um atalho para voltar a competição e liderar novamente, mas é interrompida por Antíope que a repreende. Por que tomar um atalho a tornaria merecedora?

Vamos para 1984, Diana Prince a civil, acumula experiência e em seus porta retratos vemos seus amigos de guerra, Etta Candy já idosa ao seu lado e o rancho Trevor, que além de uma homenagem a memória do seu grande amor é uma referência visual ao Superman de 78. Com o conhecimento de séculos de idade, Diana trabalha no Smithsonian como antropóloga entre outras várias certificações, e nas horas vagas salva o mundo. O fato de trabalhar para a instituição mostra que ao longo dos anos ela procurar manter um padrão em sua identidade secreta. Em “Liga da Justiça” a vemos trabalhando no Museu do Louvre.

Enquanto heroína, a Mulher-Maravilha tem sua primeira cena quando a situação foge do controle em um roubo mal sucedido a uma joalheria de um shopping, que por sua vez servia de fachada para o tráfico de artefatos históricos. A cena no shopping foi bem elaborada, os figurantes estão de parabéns, a vontade de gritar junto é contagiante. É uma situação com refém e todos estão desesperados até que uma super mulher com um laço mágico surge para salvar o dia.

O roubo é o pontapé inicial para uma série de acontecimentos que levarão a uma crise mundial!

Os artefatos apreendidos no roubo são levados para o Smithsonian pelo FBI com a intenção de descobrir a origem dos objetos, a encarregada por isso é a nova funcionária especialista e esquisitona do instituto, Barbara Minerva. Entre os contrabandos estava uma pedra de citrino, que aparentemente não teria valor comercial, mas Diana que desenvolveu uma rápida amizade com a novata, identifica inscrições no artefato que o caracteriza como uma pedra dos desejos.

Barbara brinca com isso por acreditar que não passa de uma falsificação, mas Diana de forma descompromissada faz um desejo silencioso. Ela quer o Steve de volta. Na mesma noite, após Barbara passar por uma situação de assédio e sendo salva pela nova amiga descolada, ela também faz um desejo, deseja ser como Diana sem imaginar o quão poderoso seu desejo é.

As coisas começam a mudar, de forma sutil,  Barbara está mais desinibida, ágil e sendo notada, começamos a ver certa alteração na postura e olhar, bem interpretados pela Kirsten Wiig. E Barbara é escolhida para atender o novo bem feitor da instituição, Maxwell Lord (Pedro Pascal), o magnata do petróleo e o “Cara da TV”. Com uma personalidade envolvente, carismático e caricato.

A partir desse momento a nossa relação de empatia com os vilões começa a ser construída. Uma mulher, que mesmo tão culta e instruída era uma ninguém e começa a ser tudo o que ela gostaria e muito mais. Um homem que está perdendo tudo e desesperado por uma última oportunidade, que parece não ser só por ele mas pelo filho, Alister, vista como a parte humana do magnata.

A pedra dos desejos concede o que eles querem, todos eles. O desejo de Max Lord é interessante, mostra que ele realmente pesquisou muito sobre a pedra e do que ela é capaz. Desejar ser a própria pedra parece arriscado, mas ele é um homem com um plano. Ele sabe que a pedra toma algo em troca de realizar o desejo, e não estamos cientes do que está acontecendo até que ele começa a dominar a situação.

Vemos a transformação do personagem que consegue manipular tudo a seu favor, ele é persuasivo, e mesmo quando as coisas não saem como quer, ele tem a habilidade de mudar a situação a seu favor.

Diana está encantada com o reencontro com o seu antigo amor, eles vivem papéis inversos do primeiro filme, Steve que voltou no corpo de outra pessoa, está descobrindo as maravilhas dos anos 80, de pochetes, cafeteiras, metros e aviões comerciais. Mas enquanto aproveitam os momentos juntos, Diana começa a enfraquecer, a pedra dá e a pedra toma. É gradual a forma que acontece e não chega a extinguir todo seu poder. Talvez pelo fato de ser uma semi-deusa ou pelo desejo agir lentamente ao cobrar pelo que foi concedido.

A relação entre Max Lord e Barbara se estreita a partir do momento em que ela vê que tudo o que ela sempre quis está em risco. Diana e Steve descobrem que a pedra é um joguete de um antigo deus da trapaça e que ao longo das eras vem destruindo civilizações, a única forma de impedir que aconteça com a humanidade é destruindo a pedra que “resetaria” os pedidos feitos… Sim, a humanidade está em risco e não apenas os Estados Unidos, o filme se passa no início da era da informação e é enfatizado por como Maxwell Lord causa impacto mundial. Graças a isso temos uma sequência de ação incrível no oriente médio.

Diana e Steve seguem Lord pelo mundo e temos a origem do jato invisível, na cena em questão eles roubam um jato e Steve se gaba de como ele é um ótimo piloto e que eles não tem chance de encontra-lo, mas estamos em 1984 e já existe tecnologia de radar e mesmo no escuro eles seriam vistos. Então Diana tira a carta “semideusa” da manga e fala de como o pai dela deixava a ilha invisível e resolve testar no jato. E funciona. A cena em questão pode causar estranheza por dois motivos. Um deles é; Steve pilotava aviões da primeira guerra, pilotar um jato deve ser muito diferente, mas como não temos especialistas em aeronáutica precisaríamos consultar um para afirmar, então só relevamos o fato e isso não atrapalha na narrativa… insistir nisso é desnecessário.

O segundo ponto é Diana dominando os poderes de Zeus e chamando ele de pai com tanta naturalidade. Este pode ser um indicativo de que ela procurou saber mais de sua origem e quem sabe até se encontrou com seu pai em algum momento, afinal segundo a história contada pelas Amazonas ele estaria vivo após a guerra que dizimou os deuses. E realmente os anos fora da ilha serviram para muita pesquisa. Foi desse modo que Diana encontrou a armadura da lendária guerreira Asteria, que se sacrificou para que as suas irmãs Amazonas pudessem fugir para Themyscira. A cena que mostra essa curta história lembra muito o filme “300” na questão da caracterização dos guerreiros que atacam Asteria. É uma cena bonita em que a vemos usando a armadura se protegendo do ataque enquanto a única coisa que podemos ver de seu rosto são seus olhos azuis intensos, olhos que são muito familiares.

Lord volta para os EUA e começa a conceder pedidos a torto e a direito, enquanto ele se corrompe cada vez mais o mundo se afunda em um completo caos. Mesmo com suas feições humanas já comprometidas temos uma cena muito tocante entre ele e seu filho; ele vai conceder um pedido a criança e diz que ele deve desejar grandeza, e Alister em sua pureza infantil deseja que seu pai seja grande. Vemos uma breve comoção do vilão que logo é interrompida, agora ele tem um alvo maior, ele vai falar com o presidente dos Estados Unidos, que pelo ano é Ronald Reagan, conhecido pelas estratégias econômicas, o tratado de forças nucleares de alcance intermediário e por acabar com a guerra fria.

Porém, antes disso, ele tinha atritos com a União Soviética, e o filme focou na visão que ele tinha de que era um “império do mal”, uma grande ameaça comunista. E Lord mais uma vez consegue persuadir alguém a fazer um pedido, o Presidente, que pede mais armas nucleares. O surgimento dessas armas aparecem para os soviéticos que veem isso como uma clara ameaça. Diana e Steve chagam a Casa Branca para impedir que Lord saia de lá, agora ele está mais poderoso, e tem um plano ainda maior, irá usar a tecnologia de satélites do governo que interfere na transmissão de sinal de TV a nível mundial para transmitir o que quiser, o que possivelmente é uma violação do ” Tratado do Espaço Sideral”, assinado em 1967 e que prevê o uso do ambiente espacial para fins pacíficos, o que pode não ser um furo no roteiro uma vez que os EUA não são lá de respeitar outros países.

Barbara aparece para proteger Maxwell Lord, ela não quer perder o que tem, e está feroz, o olhar, a postura mais uma vez estão mais imponentes e o conflito entre ela e Diana rende uma luta intensa, mais uma vez as cenas de ação se destacam. Com Diana enfraquecida a vitória de Barbara é garantida, que acompanha e garante a fuga de Maxwell que vai para a base de transmissão do sinal.

Entramos no terceiro ato, Diana abre mão do seu desejo, se despede de Steve Trevor e corre, salta e voa, ela escuta a voz de Steve falando como é voar, e ela pega impulso com seu Laço de Héstia que parece ter o poder de laçar nuvens e raios. É bonito ver a Mulher-Maravilha voando, é algo muito esperado, e a cena lembra as clássicas posições de voo do Superman nos filmes. Na base de transmissão, Lord começa a falar com o mundo. Ele quer conceder desejos, quer mais poder, quer força vital. E concede a Barbara mais um desejo; ela quer ser a número um, ela quer ser a fêmea alfa, uma predadora. De alguma forma, Lord consegue conceder mais um desejo a ela, e ela se transforma e fica pronta para receber Diana que chega na armadura de Asteria.

Bárbara finalmente se transforma em Cheetah com a caracterização da personagem muito bem feita, a maquiagem e CGI contribuíram para uma boa construção do visual, os pelos de leopardo, os movimentos, o cabelo, convencem e entregam o “fan service” esperado. Uma luta literalmente eletrizante entre Mulher-Maravilha e a famigerada Cheetah.


Após vencer a luta, Diana vai atrás de Lord que está mais poderoso do que nunca, o mundo inteiro fazendo pedidos e em completo caos, as pessoas fazem pedidos da boca pra fora, com ódio, sem necessidade, não percebem o impacto dos seus pedidos, das palavras odiosas, não é o que eles realmente querem. Diana com muita dificuldade consegue interferir no sinal usando o laço, e fala com amor e verdade ao mundo, pedindo que todos abram mão de seus pedidos, que olhem para o mundo e se perguntem se é isso o que eles querem. Nesse momento, Maxwell tem a visão de Alister perdido e em perigo, a União Soviética lançou mísseis contra os Estados Unidos e a criança está na linha de fogo. Alister é o que resta de bom e humano em Lord, que não suporta a ideia de perder seu filho, e abre mão de seu desejo. Os mísseis desaparecem, os pedidos são desfeitos, a predadora agora só é uma mulher com um olhar profundo e em silêncio, o caos é seguido do silêncio.

A bagunça fica para trás, não temos ideia de como o mundo ficou após isso, se todos perderam suas memórias ou consideraram um delírio coletivo e pode ser um problema como o filme é encerrado. Não é dado um ponto final para os coadjuvantes mesmo que o terceiro ato tenha sido cheio de ação e comoção com Maxwell encontrando Alister e mostrando um personagem totalmente diferente dos quadrinhos.

A cena pós-créditos guarda uma surpresa muito animadora e nostálgica. Para quem acompanhou o DC FanDome sabe que Lynda Carter participou da promoção do filme, e a cena revela que Asteria é interpretada por Carter, a Mulher-Maravilha da série dos anos 70. Asteria está viva, e no mundo dos homens, o que pode indicar um futuro encontro entre Gal e Lynda nas telas.

MM84 não mostrou ligação com outros filmes do Universo DC a não ser o primeiro filme da Mulher-Maravilha. O fato de não ter mostrado a vinheta de introdução dos filmes do DCEU, assim como em ‘Shazam!’, pode ser um sinal de que a produção não será considerada na cronologia do universo compartilhado. Um filme pra família toda aproveitar no fim de ano ‘Mulher-Maravilha 1984’ estreou no dia 17 de dezembro nos cinemas do Brasil e no dia 25 de dezembro será lançado também no streaming HBO Max.

Nota: 50/52

Sobre Rebeca

Rebeca Vilas Boas

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira.

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