Coringa | Uma análise do discurso político presente na produção

Com a estreia de Coringa cada vez mais próxima, surgem na internet muitas polêmicas sobre a violência apresentada no filme e o quanto ela poderia influenciar as pessoas a cometer atos ilícitos. Acredito que toda a discussão sobre o filme seja necessária, mas ainda assim, considero que existem outros questionamentos a cerca da produção que também devem ser discutidos.

Entende-se que a expressão artística possui uma ancoragem na realidade, no nosso contexto social e principalmente, no nosso cotidiano de problemas e frustrações. Não pretendo nesse artigo explorar pontos sobre a estrutura narrativa do filme, mas sim questionar situações e contextos da necessidade dessa produção em nosso atual momento. O ano de 2019.

Desde que o mundo é mundo, os quadrinhos sempre acompanharam lado a lado a conjuntura política dos Estados Unidos. As grandes guerras, a depressão econômica, as questões sociais que envolviam negros e imigrantes no país, o empoderamento feminino, e agora mais recentemente, as questões LGBT. Ou seja, se você que ainda acredita que histórias em quadrinhos sejam apenas um mero entretenimento, está completamente enganado.

Quadrinhos, política e a história sempre andaram lado a lado. O alienígena Superman que na verdade é o reflexo de um imigrante Judeu, ou quem sabe o Lanterna Verde ao lado do Arqueiro, na clássica fase de Neal Adams, não resolvem combater problemas reais na Terra como o consumo de drogas e o racismo sem nenhum motivo. Isso é, sem sombra de dúvidas, quadrinhos, política e história.

Voltando ao Coringa, a necessidade da visão sobre o filme ser alinhada ao discurso político do período em que estamos vivendo, torna-se uma discussão mais que necessária. Em 2016, Donald John Trump é eleito presidente dos Estados Unidos da América. O Republicano prometia uma política ostensiva contra imigração, propondo até mesmo a construção de um muro na fronteira com o seu país vizinho, o México. Um governo extremamente conservador que lembra os piores momentos de Reagan e Nixon no poder. Conforme o The New York Times, Trump disse pelo menos uma afirmação falsa ou tendenciosa em 91 dos seus primeiros 99 dias no cargo de presidente.

Ok, mas o que o Trump tem a ver com o filme do Coringa? História. A nossa tríade de elementos dessa vez é alterada. Os quadrinhos dão lugar ao cinema. Coringa se passa na década de 80. Nossos olhos se voltam não para uma proposta política macro, mas sim micro. O cenário é uma Gotham City envolvida na corrupção de “grandes ratos”. Pessoas desacreditadas, manifestações, caos, criminalidade e uma grande sensação de medo tomam conta da cidade.

A Gotham City de Coringa é idêntica aos problemas atuais da nossa realidade e não apenas algo somente dos Estados Unidos. É também do nosso Brasil. A corrupção, a descrença nas instituições federais e principalmente, a falta de atuação do estado em pontos necessários como saúde, educação e segurança, transformam Coringa em um filme fundamental para o nosso tempo.

Sempre digo que a educação é libertadora e essencial. Entendo o quão necessário é contextualizar nossas atitudes no âmbito social e a prática da empatia em circunstâncias humanitárias. Uma escola de educação infantil, de tempo integral, com professores qualificados, vislumbra uma possibilidade real para evitar que no futuro, pessoas se envolvam na criminalidade. Não devemos olhar o problema pelos seus fins, mas sim compreender como o sistema, o ambiente e a vulnerabilidade social poderia desvirtuar uma pessoa para o crime. Encontrar possibilidades reais para que esse tipo de situação seja evitada e minimizada é papel do estado.

Coringa retrata a ausência do estado em problemas e contextos que necessariamente exigem a sua presença de forma atuante. São problemas reais retratados em uma narrativa fictícia que devem ser discutidos e aprofundados. Até onde vai os limites humanos diante do caos social que estamos vivendo?

Coringa estreia no dia 3 de outubro nos cinemas.

Willyan Bertotto

Willyan Bertotto

Publicitário e pós-graduando em Gestão Empresarial. Diretor de Arte, Designer e Batmaníaco. Fã incondicional da DC Comics e pesquisador assíduo desse universo e todas as suas possibilidades de transformação.

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