20 de julho de 2012. Aurora, EUA. Cinema lotado para mais uma sessão de O Cavaleiro das Trevas – Ressurge. Um homem de vinte e quatro anos usando uma máscara de gás, lança uma bomba de gás lacrimogêneo contra a plateia. Em seguida, abre fogo. No total, 12 pessoas foram mortas e 70 ficaram feridas. O atirador foi preso em seguida no estacionamento do shopping. Ao ser abordado pela polícia, se proclamou o próprio Coringa.

A repercussão, como já esperado, foi estrondosa. Uma grande parte da mídia acusou o filme de ser propagador da violência com sérias ideias anarquistas que supostamente, não fariam bem a sociedade. O seu predecessor, O Cavaleiro das Trevas, também foi acusado, principalmente pela interpretação do Coringa e a classificação etária ter sido considerada por muitos, principalmente pais, como inadequada.

Muitos anos se passaram e ataques semelhantes se tornaram cada vez mais comuns. Na busca de culpados, filmes e jogos violentos tem sido acusados por muitos de serem motivadores da violência e até mesmo, o principal causador de tais tragédias. Poderíamos encarar filmes como potenciadores da violência? Qual a responsabilidade do cinema e da arte nesse respeito?

A violência não é assunto novo em Hollywood. Ao invés disso, é um dos temas mais explorados por inúmeras produções, seja explicitamente ou não. Alguns diretores altamente venerados pelo público e a crítica, tem como a violência, sua característica principal em seus filmes, como exemplo, temos Tarantino e Scorsese. O próprio Tarantino revelou estar cansado de defender a violência de seus filmes e que não procura o “politicamente correto”.

Um estudo conduzido por investigadores das Universidades americanas de Columbus e da Pensilvânia e da Universidade de Amsterdã na Holanda, analisou 945 filmes com maiores receitas entre 1950 e 2012. Ao todo, o estudo encontrou 17.695 cenas consideradas violentas, com os filmes de 2012 a terem em média, duas vezes mais cenas violentas do que de 1950.

Para Brad Bushman, coautor do estudo, os resultados apontam para uma inversão de valores sociais. “É chocante como o uso de armas disparou em filmes que são frequentemente direcionados ao público adolescente, parece que as cenas de sexo resultam mais em classificações para adultos do que cenas de violência”. Sobre a ligação ao aumento da violência nos filmes e os eventos de violência constantes no mundo real, Bushman afirmou: “Nós não estabelecemos uma conexão direta com o aumento de tiroteios em escolas e outros locais públicos, mas o aumento de violência armada em filmes certamente coincide com esses eventos”.

Entretanto, alguns especialistas discordam sobre a eficácia desses estudos em estabelecer uma resposta afirmativa ao problema. Wanderley Codo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília afirma que “Esses estudos existem há muito tempo, mas as conclusões são decepcionantes, pois existem resultados que mostram que cenas violentas podem gerar comportamento violento, porém ,existem outros estudos que afirmam que cenas violentas podem diminuir a violência no público, pois ocorreria uma descarga de violência. É um problema sem solução simples.”

O professor de psicologia da Universidade Stenson (EUA) Christopher Ferguson conduziu um estudo em busca em busca de uma conexão entre a evolução da violência nos filmes e jogos no mundo real. O estudo analisou outras variáveis importantes como nível histórico de renda das famílias, número de policiais em cada momento, a taxa da população juvenil e o PIB. O que ficou provado é que não existe correlação entre as cenas violentas dos filmes e a taxa de homicídios. Pelo contrário, na década de 80, quando a violência explodiu nos cinemas, as taxas de homicídio despencaram.

“Se observamos a tendência global entre a violência no cinema e a violência na sociedade, encontramos algumas pequenas correlações”, disse o professor Ferguson ao El País por e-mail. “Elas são acentuadas a meados do século XX, quando a violência nos filmes e os homicídios aparecem correlacionados. No entanto, esta descoberta é questionada pelas primeiras tendências anteriores a 1940 e desde 1990, quando a violência nos meios e a social experimentam uma relação inversa. É uma forma de comprovar como, embora algumas vezes existam correlações, devemos ser cuidadosos ao fazer uma leitura causal dos efeitos”, acrescenta.

O que todos esses estudos evidenciam é como a influência dos filmes sobre o telespectador ainda é impreciso. Obviamente, isso não é uma carta branca para que Hollywood não possa ser questionada sobre suas obras. O padrão de beleza que é tão imposto na sociedade sempre foi incentivado em filmes, fazendo com que crianças cresçam com ideias erradas sobre como seu corpo não é aceitável perante a sociedade e produzindo problemas que perduram pela vida toda.

Ao analisar a influência de um filme sobre um indivíduo, é necessário claramente que se questione quem é esse indivíduo que está assistindo. As emoções que podemos sentir ao assistir a um filme variam bastante e fatores como escolaridade, a própria criação familiar, o conhecimento sobre a obra em questão e o repertório de filmes anteriormente assistidos, não podem ser ignorados. Por isso, julgar um filme específico como incentivador da violência e um gatilho para alguém, é bastante sensível.

Se analisarmos o personagem Coringa, facilmente podemos perceber a psicopatia no personagem. A violência está ligada ao Coringa tanto quanto o senso de justiça está no Batman. O vilão sempre foi o maior contraponto ao Homem-Morcego por justamente, não ter limites e seu senso moral ser inexistente. Coringa representa, mesmo que não intencionalmente, uma triste parcela da sociedade.

Com seu total protagonismo e sem a figura do Batman para se contrapor, Coringa assume totalmente o palco e muitos sugeriram que essa expressão séria um incentivo para os incels, homens, em sua maioria brancos e heterossexuais, que tem dificuldade em se relacionar sexualmente com mulheres. Em fóruns, depositam ódio a mulheres e minorias. Recentemente, o FBI e as Forças Armadas dos EUA, emitiram um alerta a seus membros sobre o perigo de ataques de incels em cinemas dos Estados Unidos.

Ao site IGN, Joaquim Phoenix falou sobre as acusações de incentivos a comportamentos violentos: “Eu não acho que seja responsabilidade de um cineasta ensinar a diferença entre o certo e o errado para o público. As pessoas podem interpretar letras de músicas de maneira errada, podem interpretar livros de maneira errada. Se alguém está nesse nível de distúrbio emocional, qualquer coisa pode ser um gatilho”. O diretor Todd Phillips também comentou sobre o assunto : “Estou surpreso… Não é bom ter essas discussões? Não é bom ter essas discussões sobre esses filmes, sobre violência? Por que isso é ruim se leva a uma conversa sobre isso?”

Os argumentos de Joaquim e Phillips são bastante interessantes. Ambos não negaram o possível influência que o filme possa ter em algumas pessoas, mas julgar uma obra por isso seria completamente errônea e ineficaz para uma possível solução. Como apontou Philips, é através da conversa que podemos começar a resolver o assunto. Expôr as fragilidades através da arte é um excelente início de uma discussão sobre o quanto nós como membros da mesma sociedade, estamos contribuindo para comportamentos destrutivos.

A Warner também se manisfestou após as acusações contra o filme:

“A violência com armas em nossa sociedade é um problema crítico, e oferecemos a nossa simpatia para todas as vítimas e famílias impactadas com essas tragédias. Nossa companhia tem uma longa história de doações a vítimas incluindo Aurora, e nas semanas recentes, nossa empresa-mãe se juntou a outros líderes de empresas para convocar legisladores para promulgar legislação bipartidária para enfrentar esta epidemia.  Ao mesmo tempo, a Warner Bros. acredita que uma das funções da narrativa é provocar conversas difíceis sobre questões complexas”, argumentou a empresa. “Não se engane: nem o personagem fictício do Coringa nem o filme são um endosso de qualquer tipo de violência no mundo real. Não é a intenção do filme, dos cineastas ou do estúdio enaltecer esse personagem como herói.”

Não podemos prever o impacto do filme na sociedade em geral. O que é certo é que será um grande divisor de águas. Coringa é uma personalidade extremamente controversa digna de diversas análises e visões, assim como os tempos atuais.

Coringa estreia no dia 3 de outubro.

Sobre Lucas

Lucas Pimentel

Você acredita em milagres? Também não, mas vivo na esperança de um universo de filmes maravilhosos da DC. Enquanto não acontece, sonho e escrevo.

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