20 anos depois, a HQ mais ambiciosa da DC ainda redefine o universo dos quadrinhos

Quadrinhos são, por natureza, um processo coletivo. Em qualquer edição, cerca de cinco profissionais trabalham juntos em um único número, sem contar editores e designers que também colocam a mão na massa. Do roteirista ao letrista, nenhum quadrinho existiria sem uma equipe talentosa transformando ideias em páginas. É justamente por isso que a maioria dos títulos sai, no máximo, duas vezes por mês. Coordenar tudo isso com qualidade exige tempo. Qualquer desequilíbrio pode comprometer o resultado final. E é exatamente o que torna 52 uma conquista tão fora do comum.

52 foi uma série semanal que durou um ano inteiro, funcionando como desdobramento direto de Crise Infinita e mostrando como os heróis do mundo se viraram durante os doze meses em que a Trindade (Superman, Batman e Mulher-Maravilha) esteve ausente. Na época do lançamento, a série fez enorme sucesso, gerando uma série de spin-offs e continuações. Ela deixou uma marca permanente na identidade da DC, a ponto de o nome ser incorporado no grande relançamento editorial da editora, Os Novos 52. Sem dúvida alguma, 52 está entre as melhores séries já publicadas pela DC e é facilmente a mais ambiciosa. Hoje, celebramos vinte anos dessa obra examinando o que a tornou tão especial.

Uma maratona semanal rumo a algo extraordinário

A DC raramente se aventura em lançamentos semanais. Em determinado momento, a Action Comics chegou a ser renomeada Action Comics Weekly, mas durou apenas cerca de dez meses. Batman and Robin Eternal rodou por seis meses. Batman Eternal tem duração similar, mas sem a mesma qualidade. 52, por outro lado, durou um ano inteiro — e o mais impressionante é que não perdeu o nível em nenhum momento. Action Comics Weekly trazia vinhetas curtas em vez de histórias de fôlego, e tanto Batman Eternal quanto Batman and Robin Eternal são vistos como boas histórias, mas com falhas notáveis, especialmente no ritmo da narrativa. 52, por sua vez, permanece até hoje como um dos maiores quadrinhos já produzidos pela DC, e isso se deve em grande parte à equipe excepcional que manteve tudo unido.

Falando com franqueza, é quase um milagre que essa obra tenha saído tão incrível. O time de roteiristas reuniu alguns dos maiores e mais respeitados nomes da história da DC, entre eles Geoff Johns, Grant Morrison, Greg Rucka, Mark Waid e Keith Giffen. A equipe de arte é ainda mais impressionante: nada menos do que quinze desenhistas trabalharam juntos para garantir uma aparência coesa e visualmente deslumbrante. Trabalhos com dois roteiristas ou dois artistas já costumam perder a consistência por causa de estilos conflitantes. Reunir tantas pessoas em um único projeto daria a impressão de que o resultado seria, na melhor das hipóteses, uma colcha de retalhos de momentos brilhantes sem coesão. Mas foi exatamente o oposto.

Uma história que transformou coadjuvantes em protagonistas

É claro que, por mais tecnicamente impressionante que seja uma produção, uma HQ precisa dar ao leitor um motivo para comprá-la. 52 fez isso com uma das histórias mais ricas e bem construídas que a DC já publicou. A série entrelaça os caminhos de heróis como Gladiador Dourado, o Questão, a Batwoman, o Homem Borracha e muitos outros, cada um enfrentando ameaças aparentemente independentes, até que tudo converge em uma conclusão que sacode as fundações do universo DC. O mais impressionante, além do tamanho do elenco, é como a série consegue desenvolver tantos personagens ao mesmo tempo.

Antes de 52, a Batwoman como a conhecemos hoje simplesmente não existia, e Renee Montoya estava longe de ser a Questão. Com a série, ambas se tornaram personagens icônicas por mérito próprio. 52 fez o que a DC hesita tanto em fazer: abraçou um elenco enorme de personagens além dos seus pilares tradicionais, apresentou novos heróis que subiram e cairam ao longo da série, e deu espaço para que cada um brilhasse. O formato semana a semana nos permitiu viver dentro da cabeça desses personagens enquanto eles se ajustavam e lutavam com seus conflitos, e acompanhar esse desenvolvimento foi verdadeiramente espetacular.

52 abraçou a ideia de que era hora de mudar, e levou tudo ao seu máximo potencial. O elenco nunca pareceu inchado, e cada arco se somou ao anterior para compor um retrato instigante de como o universo DC funciona em todas as suas camadas, do crime nas ruas às ameaças cósmicas de destruição em massa. A série reconstruiu a DC do zero, transformando heróis pouco conhecidos em favoritos do público. É o exemplo definitivo do que a qualidade e a imaginação podem alcançar quando estão em perfeita sintonia, e não é à toa que a DC sempre volta a ela como referência. 52 é a prova de que um quadrinho quase perfeito é possível, e vai representar para sempre um momento de mudança empolgante e de possibilidades infinitas.

Will
Will
Publicitário e Batmaníaco. Fã incondicional da DC Comics e pesquisador assíduo desse universo e todas as suas possibilidades de transformação.

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