Recentemente, Steve Mosko, CEO da Village RoadShow (empresa que ajudou a financiar o filme do Coringa), falou ao site THR sobre uma possível sequência. “Estamos mantendo nossos dedos cruzados para que um ótimo roteiro chegue e nos vemos um Coringa 2”.

A pergunta que fica é: Uma sequência do filme é realmente necessária?

O filme do Coringa foi um projeto pensado, planejado e articulado para um filme solo e único. Vejo que a Warner depositou todas as suas fichas possíveis para entregar uma produção que, ao mesmo tempo que destoava de tudo que a DC apresentou nos cinemas até aquele momento, entregaria também um longa com capacidade de chegar e levar grandes premiações do meio cinematográfico.

As fontes que Coringa bebe, a proposta “Scorsesiana” que aplica os elementos da Nova Hollywood, mostra que o filme de Todd Phillips é uma obra fechada. Um livro de volume único que de forma alguma deveria ser aberto. Imagino que daqui há 100 anos possa existir um remake dessa produção, mas jamais uma continuação. Assim como Piada Mortal, Coringa condiciona o espectador a jogar com a imaginação, definindo conclusões e compreendendo lentamente o que cada cena deseja transmitir, mesmo que o sentido dela seja dúbio. A arte e a construção de narrativas deve prever o público como um elemento da produção, costurando a trama para que seja coerente e apresente total sentido, seja interpretativo ou não.

Coringa é um filme de camadas, que adverte a nós o quanto nossa membrana social pode se partir, se perder em meio ao caos. O fio entre o mundo ficcional do universo DC e a realidade é extremamente tênue nessa produção. Uma camada que por diversas vezes se rompe e extrapola o imaginário coletivo. A frase que fica ao fim da experiência ao assistir esse filme é “Isso pode ser real. Essa história pode acontecer a qualquer momento.”

Nesse ponto, seria improvável que qualquer questão mercadológica esteja acima da obra. Um ‘Coringa 2’ realmente seria uma falta de sensatez e sensibilidade quanto ao que já foi feito e produzido. Mas por outro lado, vejo que esse filme pode ser uma fórmula. A DC possui inúmeros personagens que podem deixar esse fio realidade x ficção no limite. Como exemplo, Lex Luthor e Questão poderiam ganhar produções nesse estilo e proposta.

Isso já esteve em pauta na Warner, um selo semelhante ao “DC Black Label” dos quadrinhos. São histórias que precisam ser contadas e nós como fãs gostaríamos de ver e ouvi-las. Narrativas densas, trabalhadas, reais, conceituais e que deixam a sensação do “Isso pode acontecer.”. Historicamente, a DC sempre foi pioneira nesse ponto, quando trouxe o selo Vertigo para suas publicações nos quadrinhos. No cinema, podemos citar além de ‘Coringa’, ‘V de Vingança’, baseada na obra de Alan Moore e David Lloyd.

Então, deixem Coringa como está. Mantenham intacta a obra de Todd Phillips e o trabalho de Joaquin Phoenix, o filme com o maior número de indicações ao Oscar 2020 e que será sempre lembrado como uma grande produção cinematográfica.

Sobre Willyan

Willyan Bertotto

Publicitário. Diretor de Arte, Designer e Batmaníaco. Fã incondicional da DC Comics e pesquisador assíduo desse universo e todas as suas possibilidades de transformação.

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