A primeira vez que ví Marcio Hum, ele estava com um grande sorriso no rosto, assinando algumas peças da sua coleção, Mini Co. que teve lançamento na CCXP. Sua atenção com o público é notável, e seu trabalho admirável, logo vi uma oportunidade de entrevista exclusiva para o Terraverso. Um artista “Br” com uma linha de colecionáveis dedicado a DC Comics não é algo que vemos todo dia.

Com a correria da CCXP seria inviável uma entrevista no dia, ao vivo, que abrangesse todas as nuances do artista. A melhor forma que ví foi uma entrevista online.  E de pronto Marcio aceitou. Confira a história do menino que vendia desenhos dos ursinhos carinhosos, cresceu e se tornou um arquiteto e ilustrador de sucesso.

Podemos começar fazendo uma breve apresentação sua por favor?
Tenho 39 anos, sou arquiteto e urbanista e trabalho oficialmente com cenografia desde os 19 anos, mas antes disso eu trabalhei com ilustração e quadrinhos. Fiz historinhas de sacanagem [risadas]. Antes disso, tenho uma história curiosa. Não vem ao caso, mas quando tinha uns  16 anos fui auxiliar de pintor de frase caminhão, mas durou pouco tempo.

Alguma frase memorável?
Não lembro, só lembro do cheiro do solvente. Quando comecei a trabalhar com ilustração, fiz desenhos de mascotes pra empresas, caricaturas pra revistas e quadrinhos nacionais, adultos [risadas] (acredito que seja difícil para Marcio falar sem rir. E não meu caro leitor, não teremos amostras desse trabalho aqui), depois fui contratado pra fazer desenhos pra cenografia de eventos, é um nicho forte. E pensei, agora vou ter dinheiro pra me dedicar aos quadrinhos… eu tinha dinheiro, mas não tinha tempo.

Resolvi cursar arquitetura, e paralelamente continuava desenhando, mas apenas por hobby tirando alguns eventuais freelas Criei um fotolog de desenhos, quando a internet era mato (risos), como fazia essas ilustrações nesse estilo chibi, ou super deformed (só conheci esses termos depois), resolvi criar um Fotolog pra contar a historia dos x-men fazia muito sucesso, os 10 comentários enchiam em poucos minutos, daí criei conta gold, e mesmo assim continuava enchendo. Só sei que ate hoje tem gente que me conhece daquela época. Eu até escrevia, e as pessoas liam!!! Mas enfim, lá eu era muito radical, não postava nada que não fosse de X-men, depois que migrei pra outras redes sociais como tumblr e Instagram, resolvi postar os outros personagens que eu também curtia, Batman por exemplo, sempre era muito popular. Nessa ordem, fotolog, tumblr, Facebook e Instagram (ordem de migração das redes sociais). Sempre adorei Instagram desde o começo, daí o Instagram pegou o mundo todo. Sei que ate artistas de Hollywood já compartilharam desenhos e tal, sempre uma felicidade.

Quais artistas?
Lembro muito bem do ator fez o fera em X-men e Mad Max (Nicholas Hoult) e do ator que vai fazer o inimigo do pantera negra no filme e já foi o tocha humana, naquele ultimo filme do quarteto (Michael B. Jordan). Do mais a galera comentava, curtia, etc
Você comentou bastante sobre os quadrinhos, em trabalhar com eles e querer se dedicar. Mas qual a sua relação pessoal com os quadrinhos/super heróis? Você sempre gostou desse universo? Como foi apresentado?

Sou muito fã de X-men , tenho praticamente tudo que saiu no Brasil e muita coisa que saiu na gringa, mas minha entrada em comics (óbvio, tirando Turma da Mônica) foi com as grandes tragédias DC Comics: Morte do Robin, morte do Superman e paraplegia do Batman. Foram os primeiros de quadrinhos de heróis eu li, eu tinhas uns 12, 13, 14 anos. Meu interesse é porque eu adorava o desenho animado da liga (aquele antigo) e tinha bonequinhos dos super amigos [risadas].

Teve algum personagem preferido?

Tempestade dos X-men

[risadas] E da DC?

Na verdade o primeiro de todos foi o Superman , antes mesmo de conhecer os X-men.

Qual é a sua primeira lembrança dele? (preparem-se para um combo de fofura)

Os filmes. Eu ia pra escola com uma calça azul adidas por baixo da calça jeans, ia correndo algumas vezes, e como eventualmente uso óculos, gostava que as pessoas desconfiassem que eu era o Clark Kent [risadas] nas festas infantis sempre tinha o tema Superman, com o desenho do Garcia Lopesdetalhe que há dois anos o conheci pessoalmente, estava com ele no stand da Chiaro, imagina a felicidade!!! Na quinta série, uma menina flagrou a minha calça azul, na sala de aula, eu fiz cara de desentendido e disfarcei, arrumando meus óculos [risadas]. Hoje tenho todos os clássicos DC encadernados e vários soltos, na verdade sempre li de tudo, desde os meus 15 anos. Ah, sabe qual a minha liga da justiça favorita?

A resposta foi dada em uma imagem. Quadrinhos da liga da justiça internacional publicadas pela editora Abril de quando Marcio tinha 17 anos.
Como não gostar de uma formação da liga que tem em sua formação Gladiador dourado e Besouro azul? Quando afirmei ter muito carinho pela dupla, Marcio disse também gostar, em especial de uma história desenhada por Adam Hughes, em que eles (Besouro e Gladiador) comprar uma ilha no Hawaii.
A imagem dos quadrinhos foi seguida pela foto de uma coleção incrível que segundo ele, eu precisava ver. E precisava mesmo. Itens que qualquer fã da DC adoraria ter.
E como bom colecionador, sua coleção está em expansão, disse ainda precisar da Mulher Maravilha e versões da Liga da Justiça hot toys. Mas sem previsão para completar, irá comprar aos poucos.
Imagino que sua paixão por quadrinhos o tenham influenciado a desenhar de alguma forma. Quando começou a desenhar?
Comecei a desenhar de criança. Meu tio me deu uns livros de desenhos dos ursinhos carinhosos. Daí na primeira série eu copiava e vendia pras meninas antes do recreio, antes de gastarem com lanche. [risadas]. Depois desenhei roupa, porque minha mãe costurava e meu avô era alfaiate. Mas depois já pulei pra Mortal Kombat, Street Fighter e então Comics. Ah, teve Turma da Mônica também, eu nunca acertava quando criança.
Quando percebeu que o desenho estaria ligado a sua carreira?
Acho que foi inevitável hoje, devido ao meu tempo com as ilustrações e com arquitetura (cenografia de eventos corporativos, stands). No pré escolar a professora mandou os alunos desenharem seus pais. Minha mãe tinha uma loja cujo o logo, ela desenhou e criou, e eu sabia reproduzir. Então na lição fiz a fachada da loja com o logo, balão de gás com o logo, e ela e as funcionárias com uniforme. E também fazia planta baixa em escala, sem saber o que era… Acho que foi inevitável trabalhar com desenho e arquitetura. Fora aquela história de desenho escolar… quando percebi que poderia ser rentável. Na verdade conheci uns amigos aqui em SP, na gibiteca Henfil, na vila mariana, era um lugar muito legal, todos os tipos de nerds iam pra lá de fim de semana, tinham umas castas: Fãs de quadrinhos, fãs de Star Trek, fãs de Star Wars, fãs de anime/mangá. Eu era da turma dos quadrinhos, tínhamos uma fanzine (termo para revista de fãs), nesse grupo conheci o Laudo Ferreira Jr., bem conhecido aqui no mercado nacional, ele que me indicou para vários trabalhos, eu tinha 18 anos na época.
Com 18 anos você já tinha alguma formação, ou os trabalhos eram resultado da técnica que adquiriu com o tempo desenhando?
Tudo resultado de prática. Com 11 anos eu já tinha feito curso de pintura a óleo, mas nada relacionado aos quadrinhos. Minha mãe me deu um curso da editora Globo de desenho e pintura, pratiquei muita anatomia com dois desses livros.
Como já citou antes, você é arquiteto e cenógrafo. Como foi seu processo de formação?
Desenho foi apenas prática mesmo, com várias influências dos quadrinhos e arquitetura foram 5 anos.
Dos quadrinhos quais que mais te influenciaram no desenho? Tudo bem se for X-men…
Todos que eu lia na verdade, de DC, Marvel, Vertigo e até Calvin e Haroldo. E claro, tem aquele lance que todo mundo que desenhava queria ser o Jim Lee, tive isso. Tive a chance de conhecê-lo aqui na CCXP. Naquela época eu queria que o Jim Lee desenhasse tudo. Daí fiz um Batman, no estilo, só anos depois ele foi desenhar Batman.

Capa ilustrativa da revista Wizard.

O desenho feito por Marcio com referência ao estilo de Jim Lee saiu na Revista Wizard nacional em 15 desenhos de leitores, totalmente desenhado e colorido a mão.

Marcio também incluiu em nossa entrevista sua primeira mulher maravilha mini, feita em 2002. Ao observar o desenho, Marcio percebeu como evoluiu em seis anos e foi alterando seus estilo, como o formato da cabeça e distancia dos olhos. 

Você pode dizer que ele (Jim Lee) é seu favorito?
Adoro o trabalho dele, mas hoje meus favoritos são Oliver Coipel e Ivan Reis, e tenho a hora de ser amigo dos dois. Fico impressionado com o profissionalismo do Ivan e com a qualidade do trabalho dele, rapidez, enfim…
Teve a chance de conhecer mais algum desenhista que admira?
Conheci nessa CCXP o Arthur Adams! Que é foda, criou os x-babies!!! Conheci alguns desenhistas que admiro muito nessas CCXPs que rolaram. Ano passado conheci e dei carona pro Frank Quitely, que sou muito muito muito fã.
Você comentou que trabalhava com cenografia, o que rendia dinheiro mas consumia seu tempo para se dedicar ao que gostava, que eram quadrinhos, e nisso resolveu estudar arquitetura. Isso não consumiu mais ainda seu tempo? Qual foi a motivação para essa escolha?
Foi porque acabei decidindo levar em frente a profissão que eu também gostava e já praticava. Mas eu também tive que me bancar, precisava trabalhar e estudar, ajudar a minha mãe em casa, foi uma decisão financeira, acima de tudo. É árdua a vida de desenhista no Brasil.

Como arquiteto Márcio criou os stands da Chiaroscuro nos últimos dois anos de CCXP. No de 2016 criou o conceito de ser um stand construído com o traço dos artistas do estúdio somado aos rooftops tão comuns às HQ’s e surgiu o conceito Rooftop Gallery. Inglês é porque a empresa é voltada principalmente para o mercado internacional. Em 2017 com a parceria com a Faber-Castell, para abraçar as duas empresas criou o conceito ART Factory.

Quanto aos conceitos que criou para stands, eles já foram ou tem previsão para serem usados em outros eventos, nacional/internacional?

O stand da Chiaroscuro Studios de 2016 foi readaptado pra CCXP tour 2017 em Recife, então se surgir alguma versão do evento em outra cidade ou no exterior, sim ele seria adaptado. Mas se surgir alguma participação da Chiaro em alguma outra Comic Con, como San Diego ou New York Comic Con, por exemplo, deve ser feito um novo projeto, já que lá, de um modo geral, o evento tem outro formato, sem muitos grandes stands como no Brasil.

Você também se define como colecionador. Já mostrou alguns itens da sua coleção, tem algo mais que coleciona?

Coleciono quadrinhos: DC, Vertigo, Image e Marvel, destes em especial X-Men. E coleciono action figures de várias escalas e séries, daí tenho de tudo, DC Comics, Marvel, Star Wars, de outros filmes , séries e games.

Tem algum item favorito?

Amo todos. Tenho um carinho especial pelos hot toys e agora os Mini Co. 

Como surgiu o projeto Mini Co.?

Foi uma ideia que surgiu há dois anos, com um convite que recebi da mesma equipe que produz os colecionáveis da Iron Studios, mas engrenou mesmo agora em 2017. O nome surgiu depois, é algo como Mini Company. Além de todos os concepts dos personagens, fiz também o design do logo e embalagem. Na faculdade há uma matéria chamada Comunicação Visual, então eventualmente podemos fazer esses trabalhos de identidade visual, mas não espalha. 

Por que a Liga da Justiça e Arlequina e Coringa?

A Liga da Justiça veio por conta do lançamento do filme e quanto a Arlequina e Coringa, todos os trabalhos que fiz recentemente pra DC incluem os dois personagens, acho que é por conta da popularidade. Eu também adoro os dois, são meus vilões favoritos da DC. Recentemente fiz uma ilustração pra linha DC Signatures da loja oficial da DC (@lojadccomics), junto com Ivan Reis, Marcio Takara, Robson Rocha, Felipe Watanabe, Lucas Werneck, Natália Marques e Eddy Barrows,  cada um ficou com um tema  e comigo ficaram os vilões. Fizemos três esboços como opção, eu fiz  um com diversos vilões DC, outro com os vilões clássicos contra a Liga da Justiça clássica e outro com os vilões de Gotham, este último é a versão aprovada. Então mais uma vez teve Coringa e Arlequina, mas dessa vez junto com Mulher Gato, Hera Venenosa, Bane, Charada, Duas Caras e Pinguim. 

Você pode ver mais informações aqui!

Esse é seu primeiro trabalho em colecionáveis?

É o primeiro neste formato, mas o terceiro na linha de colecionáveis. Já fiz uma série de puzzles pra Puzzles Mania e em seguida a Piticas encomendou uma série exclusiva, os Pititoys, todos com personagens DC e como antagonistas o Coringa e a Arlequina. [risadas]

Como foi o processo de criação?

No caso dos Mini Co. eu faço os desenhos, um turnaround de cada personagem, depois passo para a equipe de modeladores, que fazem a modelagem 3D. Depois em cima de cada modelo eu faço ajustes na anatomia, pra ficar próximo do desenho 2D e mesmo depois do protótipo pronto também as vezes sugiro ajustes na pintura. As partes mais trabalhosas são os rostos dos personagens.

Como é pra você como colecionador, criar uma coleção? Imagino que tenha ela completa.

É demais! No início rola o receio de não saber como vai ser o resultado, mas depois de ver o modelo pronto é uma satisfação muito grande. Por enquanto temos 8 modelos prontos, mas 5 são protótipos, então tenho comigo três dos oito, Batman, Coringa e Arlequina.

Como é ver um desenho seu se tornando um item de consumo? Você gostaria que se popularizassem e se tornassem acessíveis?

É meio surreal e uma felicidade poder compartilhar um trabalho dessa forma e seria divertido ver algo que você criou, morando por aí, na casa de uma  galera, mas acho que mais que almejar pela popularidade, a qualidade da peça é uma preocupação principal e acho que eles conseguiram chegar numa qualidade excelente num preço acessível. Confesso que coleciono alguns action figures com qualidades não tão boas e com  preços mais salgados.  

O preço atual dos colecionáveis são relativamente acessíveis, você vê a possibilidade de outros produtos com a mesma imagem? Assim como Funkos que tem chaveiros e outros produtos.

Embora o foco inicial agora sejam os bonecos, sim, há essa possibilidade.

Como foi autografar sua coleção na CCXP?

Foi incrível esse contato com o público novamente e saber que curtiram o resultado do trabalho, é uma satisfação muito grande.

Para nossos leitores que curtem desenhar, e querem seguir carreira Marcio deixa a seguinte mensagem:

Acho que o fundamental de tudo, em qualquer área, é a dedicação. E pra quem desenha não é diferente. Tem que se dedicar e praticar sempre, ser perseverante mesmo e gostar do que faz, que em algum momento você colhe frutos.

Em junho teremos o lançamento de mais uma peça da coleção Mini Co. agora é a vez da Mulher Maravilha que vem cheia de detalhes com escudo e espada. Você pode acompanhar os próximos lançamentos da Mini Co. e artes de Marcio Hum nos perfis abaixo:

Instagram: @cerebroxmini

Facebook: X-Mini

Mini Co. Facebook: Mini Co.

Box Chiaroscuro DC Comics: https://www.lojadccomics.com.br/box-chiaroscuro

Confira a galeria com outros trabalhos de Marcio Hum e o Mini Co. da Mulher-Maravilha.

Sobre Rebeca

Rebeca Vilas Boas

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira.

Últimas notícias