Guerra da Trindade foi uma saga de 2013, que ocorreu em forma de crossover entre as revistas Liga da Justiça (Justice League), Liga da Justiça da América (Justice League of America) e Liga da Justiça Sombria (Justice League Dark). Contou com roteiros de Geoff Johns, Jeff Lemire e Ray Fawkes, além de artes de Ivan Reis, Doug Mahnke e Mikel Janín. Além de ser lançada nas mensais no Brasil em 2014, também foi lançada em formato de luxo em outubro de 2017.

A ideia desta matéria é revisitar a saga, repassando alguns pontos cruciais da mesma, além de comentarmos sobre as virtudes e falhas da história.

Antes de Guerra da Trindade

Em 2011 iniciou-se a Liga da Justiça de Johns. Na época, ainda com desenhos de Jim Lee, a revista fez muito barulho no meio dos quadrinhos, e liderou em vendas por alguns meses. Porém, a aceitação não foi unânime. Haviam críticas ao estilo mega frenético do primeiro arco (Origem, que mostrava a invasão de Darkseid à Terra), além dos fãs estranharem algumas falas não condizentes com os personagens em questão. Ficou uma impressão de artificialidade, de que estávamos lendo uma HQ roteirizada como um storyboard de um filme, visto a ação imparável e as situações um pouco exageradas.

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A Liga da Justiça dos Novos 52!

Em seguida, Johns pareceu estabelecer um ritmo certeiro, mesmo com a troca de desenhistas: O arco “A Jornada do Vilão”, ainda com Jim Lee, apresentou consequências interessantes sobre o legado da Liga da Justiça, consequências essas nem sempre positivas. O famigerado romance entre Superman e Mulher Maravilha também ocorreu aqui. Logo após isso, o brasileiro Ivan Reis assumiu as artes da revista, e com ele veio o elogiado arco “Trono de Atlântida”.

Guerra da Trindade

Guerra da Trindade foi anunciada como a culminação de vários eventos e pistas inseridas por Geoff Johns desde “Flashpoint” (Ponto de Ignição) até as edições da Liga. Uma misteriosa personagem chamada Pandora vinha aparecendo esporadicamente, nos dando dicas de alguma suposta participação dela nos eventos que reiniciaram o universo DC.

Aparição de Pandora em Flashpoint.

A “trindade” do título, apesar da jogada de nome com a trindade da Liga (Batman, Superman e Mulher Maravilha), se referia na verdade à Trindade do Pecado, introduzida aqui por Johns. Se tratam dos personagens Questão, Vingador Fantasma, e a própria Pandora.

A história se inicia mostrando um homem misterioso, aqui chamado apenas de Renegado. Ele parece estar ciente do que está ocorrendo durante a história, além de estar participando ativamente dos rumos dela.

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Qual é a dele?

Em seguida, temos a vidente Madame Xanadu sendo consultada por uma mulher, e assim a história se inicia na narração da mesma, relatando tudo o que vê e dando várias dicas dos rumos da história.

Então, é apresentado o motivo de Pandora ser punida e amaldiçoada como um membro da Trindade do Pecado: Assim como na mitologia grega, ela tentou abrir uma caixa contendo todo o mal do mundo. Aqui, o mal é representado pelos sete pecados capitais (Cobiça, Gula, Inveja, Ira, Luxúria, Orgulho e Preguiça), o que faz conexão direta com a mitologia de Shazam.

Após isso, Pandora é julgada pelo Conselho dos Magos, na Pedra da Eternidade (outra conexão importantíssima com Shazam – O próprio mago está presente no julgamento). O conselho, formado eras atrás, quando o homem iniciou o uso da magia, decidiu punir a Trindade, julgando-os como os grandes transgressores da humanidade.

Conselho dos Magos, em toda sua glória e autoridade

O Vingador Fantasma foi obrigado à andar pela terra como uma testemunha do que a cobiça pode fazer aos homens. Então eles lhe deram trinta moedas de prata para usar em volta do pescoço, implicando que sua identidade original era de Judas Iscariotes, o infame traidor de Jesus na crença cristã. Ele só se livraria da maldição assim que se livrasse das 30 moedas de prata, cumprindo certas penitências e boas ações ao longo dos tempos para atingir tal objetivo.

Questão, aqui totalmente repaginado, foi considerado desafiador e desacatador de ordens, e declarou que se os magos não o matassem, ele subiria ao poder novamente, e os magos temeriam seu nome como o mundo o faz. O conselho decretou que o mundo e o próprio homem esqueceriam seu nome e quem ele era. Então os bruxos apagaram as características faciais do homem e disseram-lhe que ele vagaria pela terra fazendo perguntas e buscando respostas que nunca encontraria, e mandaram-no embora.

Pandora, apesar de confusa e arrependida por sua curiosidade, foi punida por ter libertado os sete pecados, e deveria vagar eternamente em solidão pela Terra, apenas testemunhando a ruína que trouxe ao mundo.

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Questão, Pandora e Vingador Fantasma

A mitologia da DC aqui é bem explorada, com Johns se auto-referenciando, visto que Shazam teve sua mitologia revisitada pelo próprio em histórias da Liga da Justiça um pouco anteriores.

Posteriormente, Guerra da Trindade corta para os dias atuais, mostrando a atual condição de cada um dos membros da Trindade do Pecado. Todos deixaram suas condições passivas de testemunhas ao longo dos séculos: O Questão teve sua caracterização aproximada com sua persona antiga: Ele se tornou um vigilante que resolve crimes de Hub City. Vingador Fantasma já avançou bastante em sua jornada de se livrar das moedas de prata, e agora possui uma família.

Pandora, a protagonista, tem se dedicado à caça dos pecados capitais. Ela se encontra com um dos magos que a julgou nos tempos idos (vulgo mago Shazam), e o mesmo, em um estado quase moribundo, revela que para ela aprisionar novamente os pecados, a caixa necessita novamente ser aberta. Porém só pela alma mais pura… ou pela mais sombria.

Pandora visivelmente irritada… Ser condenada erroneamente para sofrer pela eternidade não é pra qualquer um

Com essa informação, Pandora busca novamente a caixa, que está em posse da A.R.G.U.S., de chefia de Amanda Waller (que por sua vez é a responsável pela Liga da Justiça da América, uma equipe criada pelo governo exclusivamente para fazer frente à Liga da Justiça).

Tentativa de abrir novamente a caixa

Até este momento, a história apresentou elementos de diversas mitologias e crenças, formando parte do passado canônico da DC. E estava bem interessante, na opinião deste que vos escreve. Porém, aqui a saga inicia sua confusão e principal alvo de críticas: as brigas ininterruptas entre os heróis e as motivações fracas para tais brigas, que apenas enchem páginas duplas sem tanta empolgação.

Assim que a Pandora volta a ter a posse da caixa, ela leva a mesma até aquele que acredita ser a alma mais pura de todas: Superman. O problema, é que o Superman dos Novos 52 era desenvolvido nas histórias com uma personalidade muito diferente do Superman que conhecíamos anteriormente. No lugar do escoteiro de personalidade perfeita e moral irretocável, tínhamos um Superman muito mais rebelde, com certas malícias sutilmente (às vezes nem tanto) apresentadas. Ou seja, sua alma não era necessariamente a mais pura.

Sendo assim, Superman fica aparentemente possuído ao tentar abrir a caixa, e Pandora foge com o objeto. Vale citar que posteriormente ela executa outra tentativa frustada de abrir a caixa com Vandal Savage.

Shazam, que derrotou Adão Negro em suas histórias solo, toma como missão pessoal a de levar as cinzas de seu inimigo à sua terra natal, Kahndaq, gerando um incidente internacional com o autoritário país. Temos então o primeiro grande conflito da saga, Liga da Justiça x Liga da Justiça da América. Nele, Superman mata o Dr. Luz, recém contratado por Amanda Waller.

Shazam em Kahndaq

A história prossegue mostrando as consequências do ato do Superman: Após se entregar para a A.R.G.U.S., Questão o liberta, afirmando que Superman foi vítima de uma ilusão do Dr. Psycho.

Deu ruim…

Paralelamente, temos a Mulher Maravilha questionando Hefesto e buscando respostas para a ação de Superman. Ela chega à conclusão de que deve buscar Pandora e tomar a caixa para si, e para tal ação recruta a Liga da Justiça Sombria para ajuda-la.

Mulher Maravilha e a Liga Sombria

Em outro núcleo, temos o Vingador Fantasma dizendo ao Batman que ele deve impedir a todo custo que a Mulher Maravilha coloque suas mãos na caixa, pois isso significaria a morte de todos.

Pandora, em sua interminável busca, chegou à prisão onde Lex Luthor estava preso, para fazer com que ele abra a caixa. Antes que tivesse a oportunidade, Mulher Maravilha e sua equipe chegam e tomam a caixa de Pandora. Então, assim como aconteceu com Superman, Mulher Maravilha é possuída e outra batalha se inicia. Interessante notar que nesta cena, Pandora consegue visualizar os Pecados agindo sobre os heróis, e no processo mata a Inveja.

Após passar a perna em Billy Batson e roubar momentaneamente seus poderes, Constantine alerta à Billy que não toque na caixa, o que obviamente ele desobedece. Amostra de dois elementos sobrecarregados na história: a previsibilidade e mais batalhas.

Shazam, ao ser possuído, fica com feições de Adão Negro

No meio do crescente conflito, Constantine consegue pegar a caixa e se transportar ao templo de Hefesto. Lá, descobre-se que Madame Xanadu havia sido sequestrada e trancada em um bunker. Xanadu diz a todos que Pandora errou, que a caixa é na verdade uma porta e que ela não acabaria com os pecados. Superman, Mulher Maravilha e seus respectivos grupos de heróis chegam ao templo. Constantine, ainda em posse da caixa, percebe que a caixa está permitindo que maus pensamentos passem pela mente de todos, e uma luta massiva irrompe (de novo) quando os heróis lutam para conseguir a posse da caixa.

No meio da batalha, Nuclear percebe que Superman está emitindo Kryptonita. A Mulher Elemental entra na corrente sanguínea do Superman e encontra uma pequena lasca da pedra no cérebro dele.

No clímax,Átomo então revela à todos que ela colocou a lasca ainda em Kahndaq, e que foi isso que causou a doença do Super-Homem e a perda de controle de seus poderes. O personagem misterioso que sequestrou Xanadu sai das sombras para pegar a caixa. Ele diz aos heróis que a caixa não é mágica, mas sim ciência, e que foi criada em seu mundo, só podendo ser aberta por alguém do seu mundo. Ele explica que a caixa abre uma porta de entrada para seu mundo natal, e que ele e Átomo chegaram nesta Terra após o enfraquecimento das barreiras entre os universos (resultantes da batalha da Liga da Justiça com Darkseid no arco Origem).

O homem então usa a caixa de Pandora para abrir um portal para seu mundo natal, a Terra 3, quebrando a caixa no processo. Surge a encarnação da Liga da Justiça na Terra 3 – Anel Energético, Rei dos Mares, Renegado, Relâmpago, Morte Nuclear, Rede, Coruja e Superwoman – O Sindicato do Crime. O Rei dos Mares não sobrevive a jornada e cai morto. A agente dupla Átomo se junta ao grupo, respondendo ao nome Atômica, revelando que ela havia chegado à Terra Primordial junto com o Renegado, que é revelado ser Alfred Pennyworth da Terra 3. Atrás do Sindicato do Crime está um prisioneiro da Terra 3 cuja identidade não é revelada. O Sindicato afirma que o planeta é deles e ataca as três Ligas da Justiça enfraquecidas.

Contando com alguns clichês demasiadamente utilizados, como os Deus Ex-Machina, as citadas brigas em excesso e as coincidências estranhas, o que mais acaba incomodando é o roteiro. A impressão é que a história foi sendo escrita e alterada no meio por algumas vezes. Por que o mago Shazam afirmou que a caixa seria a chave para aprisionar os pecados, sendo que era apenas um artefato científico alienígena de uma Terra paralela? Como a caixa foi parar na antiguidade, na Pedra da Eternidade da Terra Primordial? Questão e Vingador Fantasma também fazem afirmações e acusações descabidas e injustificadas, vide a ameaça à vida de todos que seria se a Mulher Maravilha colocasse suas mãos na caixa, ou a afirmação de que Dr. Psycho seria culpado de algo que não o fez.

No final das contas, apesar do início empolgante e mitologia interessante apresentada, elementos da Trindade do Pecado foram sendo deixados de lado com o tempo, com a importância da saga e seu legado se destacando por ser a introdução do arco seguinte: Vilania Eterna, que conta com o citado Sindicato do Crime dominando a indefesa Terra Primordial – com Superman ainda doente e outros heróis obsoletos.

Sobre Daniel

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Louco por explorar vários cantos da cultura pop, em especial filmes e HQs. E em especial os da casa das Lendas, que produziu e continua produzindo tantas histórias marcantes.

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