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Meu encontro com Bobo. Junho de 2020. Era só mais um dia normal. Um dia como qualquer outro. Olho pelas frestas da persiana. Olho a cidade suja e exposta, como uma ferida aberta, e volto a me sentar na minha cadeira. Em cima da mesa, um copo de Whisky e um cigarro. Estranho, já que eu não bebo e nem fumo. Deve ser só um recurso pra criar a ambientação necessária. Malditos clichês, penso eu. E me perco nos pensamentos. É quando noto uma silhueta através do vidro da porta.

A pessoa hesita ao abri-la. Será medo? Ou… será culpa? A porta enfim se abre. Um homem entra. Estranho. Deveria ser uma mulher. É sempre uma mulher, não? Femme fatale, é assim que chamam. É o ponto alto desse tipo de narrativa, uma mulher, normalmente de preto, ou de vermelho. Por quê entrou um homem? Mas, precisa ser uma mulher? Digo, estamos em 2020, isso seria sexismo, não? Mas, usar o arquétipo numa paródia… seria sexista? Ou seria anti-sexista? Eu preciso postar isso no Twitter, vou ganhar muitos favs. Sorrio. Percebo que fiquei alguns minutos em silêncio, o homem começa a duvidar da minha sanidade. Estico a mão até ele, um sinal de amizade.

O homem se apresenta. Ele diz que o nome dele é Will. “Meu nome é Will”, ele diz. Agradeço a Deus. Se o nome dele fosse mais brasileiro, como Guilherme ou Cauãn, todo meu esforço pra criar um clima noir teria falhado miseravelmente. Ele me entrega uma pasta. “Terraverso”, é o que está escrito. Dentro, apenas um nome. “Detective Chimp”. O homem desaparece. Não foi uma imaginação, pois a pasta continua na minha mão. “Detetive Chimp”. Mais um mistério. Todos conhecem o Detetive Chimp. Ele está em um run atual, está em jogos, em histórias especiais, em animações. Mas ninguém conhece de verdade o Detetive Chimp. Qual é a origem dele? De onde ele veio?

Perguntando nas ruas, chego até 2 nomes: John Broome e Carmine Infantino. Esses são os pais do Detetive Chimp. Essa dupla não anda debaixo dos holofotes, mas são barra-pesada. Carmine foi o responsável pelo uniforme vermelho e amarelo do Flash, ele basicamente marcou o início da Era de Prata dos quadrinhos. Já Broome criou Hal Jordan, tido por muitos como o Lanterna Verde definitivo. Ambos foram responsáveis pelos títulos do Flash e do Lanterna Verde nas décadas de 50 e 60, que reviveram a febre dos quadrinhos de super-herói. E na década de 60 trabalharam com o Batman, trazendo novos elementos pro Homem-Morcego e deixando as histórias mais divertidas pras crianças. Resultado: em 1966, nascia a influente série protagonizada por Adam West e Burt Ward. É claro que esses caras não iam criar um macaco falante por nada. Eles não brincam em serviço. Eles não blefam com um par de Reis na mão quando tem um fullhouse na mesa. Gíria de Pôquer (nunca joguei pôquer). Pra entender o que eles queriam com esse macaco de chapéu engraçado, tive que cavar fundo pra encontrar a história por trás da história. Eis o que achei.

Nascido como personagem coadjuvante na edição 4 de Adventures of Rex, the Wonder Dog, em 1952, antes de se tornar o Detetive Chimp, o símio hoje conhecido com Bobo T. Chimpanzee era apenas um Pan troglodytes comum que vivia nas florestas da África Equatorial. Seu nome original é impronunciável no dialeto humano – mas Bobo já afirmou que, em tradução livre, seria algo como “Magnífico Descobridor de Larvas Saborosas”. Capturado em 1953 pelo explorador e treinador de animais Fred Thorpe, o agora batizado Bobo seria adestrado para estrelar um show circense nos Estados Unidios intitulado “Bobo, o Chimpazé Detetive”.

O espetáculo, na verdade, não tinha nada de sobrenatural. Era apenas um sistema de condicionamento com uma pitadinha de falcatrua e um tiquinho assim de exploração animal, onde Thorpe se comunicava por sinais e trocava recompensas com Bobo para direcionar as indicações de suas respostas em marcadores de “sim” e “não”, de acordo com a pergunta feita pelo espectador e do conhecimento de Thorpe sobre a mesma. Isso dava a ilusão de que o chimpanzé realmente podia descobrir segredos do público e prever acontecimentos. Caso Bobo cometesse algum erro, sofria corretivos para que não esquecesse do sistema de comunicação criado.

Apesar dos maus tratos, Bobo criou um forte laço com Thorpe. Afinal, Thorpe cuidava de Bobo e dava mordomias que ele não possuía na vida selvagem, como banhos de banheira e frutas que ele nunca havia provado. Porém, em um fatídico dia, seu treinador foi assassinado. Bobo, mesmo sendo só um chimpanzé, ajudou o detetive da cidade local a desvendar o crime, o que o fez se tornar o mascote da delegacia, ajudando com tarefas do dia a dia e na investigação de outros casos. A linguagem de Bobo já era evoluída o suficiente para entender ordens e intenções humanas e se fazer se entendido através de mímicas e sinais, mas ainda estava longe de ser um dos detetives mais inteligentes do mundo dos quadrinhos.

O passo final para a transformação de Bobo em Detetive Chimp aconteceu ainda no título Adventures of Rex, the Wonder Dog. Durante uma missão para capturar uma gangue de ladrões, Bobo e Rex viajaram até a ilha de Bimini, onde acabaram sendo atacados por um jacaré. Rex é gravemente ferido e Bobo é forçado a procurar por água doce para tratar os ferimentos. Encontra uma nascente, onde ambos tomam banho e cuidam dos machucados. A água, no entanto, tinha propriedade místicas, e ambos percebem que, além de curar os ferimentos de Rex, também os deixou mais jovens. Era a lendária Fonte da Juventude (uma das tantas que existiu no Universo DC ao longo dos anos). Bobo também acabou ganhando seu super intelecto e a capacidade de entender todas as criaturas vivas – todas as formas de comunicação entre animais e todos os idiomas falados por humanos. Além disso, se tornou imortal e manteve sua juventude.

Há uma ramificação na história de origem de Bobo. Na primeira versão, após adquirir suas habilidades nas águas da Fonte da Juventude, Bobo é recrutado pelo Bureau of Amplified Animals, uma agência governamental que tem super animais como agentes. Já em um retcom, depois da aventura com Rex, Bobo volta para o circo – seu dono, Fred Thorpe, não é assassinado e o chimpanzé não é adotado pelo xerife da delegacia. Porém, como Bobo é inteligente de verdade, começa a interagir com o público e contar segredos de verdade, descobre seus crimes, expões os espectadores. O público se revolta e o show do Detetive Chimpanzé acaba. Em ambas as versões, o resultado é o mesmo: Bobo assume sua alcunha de Detetive Chimp e abre seu próprio escritório, atuando como detetive particular.

Usando do seu gênio tático e habilidades cognitivas, o Detetive Chimp se torna um investigador renomado, que auxilia muitos super-heróis do Universo DC ao longo dos anos, como o Batman, o Caçador de Marte e o Homem-Elástico. Se torna também um grande conhecedor do oculto e mágico do Multiverso DC. Porém, a grande desilusão de Chimp foram os clientes civis. Mesmo quando o detetive solucionava os casos, os contratantes passavam a perna no pobre símio e não cumpriam com o combinado, alegando que ele não era um ser humano de verdade – não era um cidadão, somente um animal – portanto, não tinham a obrigação de pagar por seus serviços. Essa mágoa de ser constantemente lembrado que não é um humano, porém, não é mais um simples animal, levou o Detetive Chimp a se tornar um alcóolatra.

Sempre arrumando desculpas para se embebedar, Chimp chegou até o Oblivion Bar, uma taberna localizada em uma micro dimensão que serve de ponto de encontro para diversos seres mágicos. Chimp frequentava o bar na mesma época dos eventos da Crise Infinita e do Dia da Vingança, quando o Espectro saiu de controle e realizou uma série de ataques aos conhecedores de magia. Foi no Oblivion Bar que Chimp  e outros heróis tiveram a ideia de criar um grupo para salvar a comunidade mágica – o Pacto das Sombras, uma das equipes mais poderosas que já surgiu nas hqs. No Pacto das Sombras, Chimp operou em diversas missões e construiu relações com diversas criaturas. Uma das mais marcantes foi com o Senhor Destino, que pouco antes de morrer, o presenteou com o poderoso Elmo Dourado. Chimp nunca chegou a assumir o Elmo e alcunha de Senhor Destino, preferiu jogar ao destino a escolha, mas construiu um vínculo com o artefato, que lhe concedeu poderes místicos que usava em investigações – algumas, inclusive, no Departamento de Polícia de Gotham.

Sempre operando no Universo DC e auxiliando diferentes heróis e equipes, após os eventos de No Justice e a batalha com os Omega Titans, Chimp entra para a Liga da Justiça Sombria e integra uma nova formação liderada pela Mulher-Maravilha. Ao lado da Amazona, de Zatanna, Morcego-Humano e Monstro do Pântano, a nova Liga da Justiça Sombria enfrenta os misteriosos e monstruosos Otherkind e o líder do grupo, o Upside-Down Man – um dos seres do Multiverso Sombrio nascido das possibilidades distorcidas da magia de Hécate, deusa grega do oculto. Este embate com o vilão desencadeia acontecimentos que levam até a possessão de Mulher-Maravilha pelo poder de Hécate e uma guerra contra os Lordes da Ordem e Nabu. Durante esse evento, Detetive Chimp se transforma em um Lorde do Caos, aumentando ainda mais sua lista de feitos e mostrando como, de fato, é um do seres mais especiais que já passou pelo Universo DC.

Depois de me debruçar sobre a história de Bobo, a pergunta ainda martela na minha cabeça. Como colocar “macacos me mordam” ou outra expressão popular envolvendo macaco no meio desse texto? Mas além disso, por quê o Detetive Chimp não se tornou um personagem cômico?  Por quê ao contrário da maioria dos personagens animais que são personificados, o Detetive Chimp continua sendo um personagem tão autêntico e tratado com seriedade? É inevitável que estes personagens acabem sendo tratados como personagens de apoio, alívios cômicos ou sátiras. Existem diversos exemplos disso, como Howard, the Duck, ou qualquer um dos membros da JLA – Just’a Lotta Animals da Terra C-Menos – uma fusão da Liga da Justiça com animais.

A resposta é elementar. Como bons marketeiros que eram, Broome e Infantino viram uma boa oportunidade para criar um personagem de forte carisma entre as crianças e com um background maduro o suficiente para desenvolvê-lo a longo prazo. Os direitos dos animais já eram fortemente discutidos na época e, contraditoriamente, shows e programas com animais faziam moderado sucesso. O próprio título Adventures of Rex, the Wonder Dog, era popular. Não é de se estranhar que Chimp acabou tendo mais sucesso que o personagem-título. Chimp foi desenvolvido para ser o menos genérico possível e com temas que pudessem se converter para uma análise mais humana do personagem. Apesar das histórias de detetive estarem em baixa, o período clássico do Noir ainda era interessante ao público, e o período clássico do gênero ainda resistiu até 1958. Detetive Chimp era, portanto, uma receita de sucesso e uma aposta coerente.

Carmine e Infantino não fizeram tudo sozinho, obviamente. Os escritores que usaram o personagem depois tiveram a sensibilidade de aproveitar sua essência e não levá-lo pro campo do cômico, do satírico, apenas. A ideia de ter um animal detetive é sim, estranha e bizarra, mas o grande potencial do personagem reside na estranheza e neste conflito entre a figura animal e figura humana, no embate filosófico desta criatura híbrida. Um macaco inteligente e falante pode não parecer algo tão genial, mas só para ter uma ideia, Bobo foi criado em 1952 e Planeta dos Macacos foi publicado somente em 1963.

Mesmo tendo mais de 60 anos de publicações, o Detetive Chimp sempre foi um coadjuvante de luxo, trazido pelos roteiristas que buscam no cânone da DC o resgate de personagens com grande potencial. E isso já começou a dar sinais de sucesso. A run atual de Liga da Justiça Sombria mostra que o Detetive Chimp está conquistando os leitores e está cada vez mais popular. Não mais um personagem obscuro do cânone e longe de ser só “aquele macaco inteligente com um chapéu de Sherlock Holmes”, o Detetive Chimp está pronto pra conquistar mais leitores e espectadores. Se o personagem irá ingressar solo em outras mídias, só o tempo dirá. Por enquanto, cada macaco no seu galho. Sorrio enquanto olho pra janela. Eu sabia que ia conseguir encaixar um trocadilho. Mais um caso resolvido. Mais um dia normal nessa cidade.

 

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Sobre Rodolfo

Rodolfo Chagas

Sou daqueles que saía correndo na saída da escola pra almoçar assistindo Liga da Justiça. Daqueles que juntava o troco do pão pra comprar gibi no sebo. Feliz de viver na melhor época pra ser nerd. Sem editorismo, amai-vos uns aos outros! A alvorada dos heróis ainda vai durar por muitos anos! Que Snydeus seja louvado e que Stan Lee viva pra sempre!

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