Quando a animação de dos anos 2000 “Super Choque” passava na hora do almoço no SBT, era comum que todas as crianças se empolgassem com aquela história, e quando uma mídia do gênero de Super-Heróis traz um garoto negro tão representativo e identificável, ela alcança outro patamar na vida das pessoas. Com os protestos antirracistas nos Estados Unidos sendo recorrentes, acabou por viralizar o episódio 8 da animação do Super Choque, intitulado “Filhos dos Pais” por ser uma lembrança marcante na vida de pessoas pretas que se viam no Virgil desde cedo. Afinal qual criança negra não sonharia em ser um Super-Herói que solta raios ao mesmo tempo que é um garoto que ama música, comum e amado?

Mesmo algumas pessoas como eu, tendo conhecimento tarde do que aquele episódio realmente se tratava, para outros aquilo já era mais que fatídico. Esse episódio traz uma discussão racial relevante para os anos 2000 e diferente de tudo quando Virgil percebe que nunca tinha ido para casa do seu melhor amigo branco Ritchie, só que ele não esperava que o pai do seu amigo fosse um homem racista. Apesar de lembrar desse episódio como se fosse ontem, me peguei pensando que enquanto assistia aquilo sendo uma criança negra de pele clara eu não me tocava da realidade que aquilo mostrava, e quando eu tive acesso a esse episódio com mais consciência da minha identidade racial, ele surtiu um efeito diferente em mim. Porém, naquela época haviam crianças pretas em situações diferentes da minha que sentiram do que aquilo se tratava, pois era na pele.

Cena que aborda o racismo na animação do Super Choque.

Não era só um homem branco conservador que condenava o hip-hop como uma “influência ruim” e sim um homem branco que não tentava disfarçar um minuto o seu racismo e fazia com que aquilo tentasse soar ‘menos pior’, como se fosse um “cuidado de pai”, o que fez seu filho se virar contra ele quando vê seu melhor amigo negro ir embora. Na entrevista para o canal Load Comics , em 2017, o Denys Cowan criador do Super Choque fala que Virgil foi criado para ser um garoto negro comum e trazer uma mensagem. Mas desde quando Denys apresentou o personagem para DC Comics com apenas 17 anos, ele teve um choque ao receber a resposta de um Diretor de Arte que disse: “Garoto você é bom, mas já temos um artista de cor trabalhando aqui”. Não havia espaço para mais um artista negro iniciante no mercado, e é por isso que quando percebemos os detalhes do Super Choque ele vira mais do que um personagem e passa a ser a representação de cada pessoa negra do mundo. Pois cada detalhe dele foi pensando para ser marcante.

Virgil surgiu para ter relevância entre garotos negros geeks tão qual a importância do Peter Parker para cultura pop, que é simplesmente um garoto que vira um herói. Por que aquilo não podia ser para garotos negros da época que consumiam quadrinhos tanto quanto qualquer garoto branco?

Quando a Milestone Comics, selo montado por autores afro-americanos em 1993 aparece para mudar o cenário, trazendo mais representatividade para pessoas não-brancas que liam quadrinhos na época, isso trouxe uma revolução na indústria onde não havia espaço para personagens pretos que fossem relevantes como super-heróis brancos. A empresa que acabou um tempo depois, trouxe personagens notáveis como o Super Choque, Icon, Rocket Hardware e o Blood Syndicate. Apesar de todo esse carinho que a animação e o selo receberam, não só o Super Choque como outros personagens negros nos quadrinhos sofre com o descaso da editora. Sim, temos visto o enorme avanço que a DC Comics tem feito em outras mídias principalmente na TV, mas os quadrinhos é algo que merece críticas.

O seu grande acervo de personagens não-brancos que são relevantes continuam de lado, e os poucos que recebem destaque não tem quadrinhos solos. Desde a pausa da Milestone Comics a pergunta que fica é o motivo sobre o que aconteceu com o Denys Cowan continua se repetindo até hoje, anos depois. Já que parece que pelo fato de existir alguns heróis negros em revistas variadas, já é o bastante, soa como se há alguns personagens não-brancos soltos em quadrinhos aleatórios fosse o suficiente. Essa falta de comprometimento em relação a esse acervo de personagens é um reflexo do público, que o Alan Moore chama de “gente de meia idade motivada pela nostalgia de sua infância e de tempos mais simples” se acomode a achar que não precisa de personagens negros nas suas revistas. Quando a editora traz a violência policial como pauta, como ocorre na edição #44 do Batman, onde ele acaba descobrindo que o assassino de um garoto negro é um policial branco, isso acaba gerando polêmica e sendo boicotado por pessoas brancas de classe média que se apoiam em quadrinhos “não politizados”.

Watchmen da HBO foi uma série que foi enaltecida pela crítica, mas acabou sendo massacrada em seus primeiros episódios em sites de avaliação por conta de supremacistas brancos que criticaram o fato da produção ser montada pela violência racial. São pessoas de classe média que tem acesso aos quadrinhos da editora, sabem da sua história, sabem do histórico do Alan Moore em suas antigas narrativas, mas continuam sendo racistas, misóginos, homofóbicos em qualquer avanço que a editora faça, seja a mídia que for. Trazer pessoas não-brancas para trabalhar e produzirem histórias com importância e personalidade é mais do que importante numa época onde estamos em uma ascensão enorme do discurso de ódio. Quando você tem um universo tão vasto como o da DC Comics no mundo e todas as suas histórias com um grau de importância, mesmo em gerações diferentes, você tem a necessidade de cultivar e melhorar os seus leitores e não dar espaço para o crescimento do preconceito.

Recentemente, Denys Cowan que também foi um dos fundadores da Milestone confirmou em uma entrevista para a Syfy, que toda as questões legais que prejudicaram a empresa e a fizeram dar uma grande pausa já foram resolvidas e em breve podemos ter novidades sobre o selo. -Leia mais aqui- Com essa organização sendo feita é possível que finalmente outros personagens negros da DC Comics voltem a ter destaque, além de histórias mais adultas, raciais e variadas sejam criadas, gerando mais oportunidade para artistas não-brancos e não apenas brancos desenhando e escrevendo personagens negros.

Sobre Sana

Sana Lima

Olá, me chamo Sana tenho 19 anos e curso Direito, atualmente no 4º período. Sou apaixonada por criminologia e política, o que fez apaixonar-me cada vez mais pela DC Comics, mas isso começou quando eu era criancinha e vi pela primeira vez a Shayera em Liga da Justiça Sem Limites e decidi que tinha que ser ela HAHAHAHA. Espero contribuir para o Terraverso com minha bagagem que está se desenvolvendo cada vez mais no universo da DC Comics.

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