Quando a DC resolveu encerrar o selo Vertigo, acho que fui um dos primeiros a ir até as redes sociais e dizer: “Naaaãão, vocês estão matando a minha Vertiguinho, homens maus!” Era o calor do momento. Justamente a Vertigo, que já trouxe histórias necessárias e revolucionárias, das quais vibrei, chorei, me emocionei e passei raiva é claro. Virar as costas para um selo adulto, para um público fiel que consome esse tipo de material, poderia ser um tiro no pé. Mas agora, pensando bem, a decisão foi acertada.

A DC apresentou o novo selo adulto chamado “DC Black Label” em meados do ano passado. Algo como se fosse a “nova” casa da Vertigo, e como primeiro título “Batman Damned” de Brian Azzarello e Lee Bermejo em três volumes.

Por muito tempo queria ler uma narrativa do Batman que não fosse pragmático as raízes heroicas do Homem-Morcego. Era como se nesse momento minha preferência de bebida fosse Whisky e não mais Coca-Cola com gelo e limão. Talvez o último “grande whisky” do Morcegão que tenha remetido em mim tal sentimento tenha sido o clássico Morte em Família.

Batman Condenado não fala sobre o super-herói que veste um uniforme de morcego e combate o crime. Essa edição fala sobre o quanto um humano é vulnerável não só fisicamente, mas psicologicamente as angústias que envolvem o passado, o presente e o desconhecimento do futuro que o aguarda.

Na edição, o passado do Batman é a família, na figura da sua mãe, Martha Wayne. Impossível imaginar que o casal Martha e Thomas Wayne tivessem tantas brigas, problemas na relação, idas e vindas durante o período da juventude de Bruce.

O presente por sua vez, é retratado por uma perseguição clássica ao Coringa. Uma morte que envolve o Palhaço do Crime atormenta o Homem-Morcego durante toda a história. A busca implacável pelo vilão, torna o Batman e também Bruce Wayne condenado pelos fantasmas do passado e presente. Seja sua família ou seja a criminalidade de Gotham, Batman está atormentado o tempo todo. Durante as 3 edições, a presença da Liga da Justiça Sombria no enredo funciona como a linha que costura toda essa narrativa. Constantine é o “Mestre dos Magos” nesta proposta. Por vezes, adota uma postura de um espectador, que usava sua visão de fora da situação para orientar o Morcegão nas suas ações.

Em muitos momentos, a edição de Batman Condenado me causou certo desconforto por não conseguir prever as ações ou adivinhar as sequências da história. Talvez seja essa a real função de uma boa história em quadrinhos, despertar surpresa e sensações a cada página.

Impossível também não ler Batman Damned sem lembrar do clássico Coringa de Brian Azzarello. Depois que conclui a edição de Condenado, busquei novamente a edição do Coringa de Azarello para encontrar pontos que talvez conectassem uma narrativa a outra. Encontrei. Talvez seja uma visão de fã, algo proposital ou não, mas há uma conexão clara de cenários e enredos entre uma e outra.

A edição em seu roteiro é um soco no estômago. Propõe reflexões e potencializa a todo momento o quanto os fatores externos, que rodeiam e atingem o personagem, constrói a sua personalidade e molda o caráter do Batman que conhecemos. De forma necessária, esse é o Batman menos “Batman” que já vi, porque ele deixa a roupagem do estrategista para trás e se torna um ser atordoado e atormentado pelo completo caos.

A Liga da Justiça Sombria cumpre um papel crucial em toda a história. Necessária para tirar o Homem-Morcego do caos e leva-lo para o fundo do poço. Pois essa é a real forma do Batman lutar. Ele precisa estar no seu limite para somente assim emergir e combater seus inimigos.

Batman Damned é a edição lado B daquele seu disco clássico favorito. Vale cada página! E sobre a Vertigo? Não seja saudosista demais. DC Black Label chegou com uma proposta que vale a pena de verdade!

Nota:

Batman: Amaldiçoado (Batman: Damned, EUA – 2018/19)
Edições: Batman: Amaldiçoado #1 a 3
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: Lee Bermejo
Letras: Jared K. Fletcher
Capa: Lee Bermejo
Editoria: Mark Doyle
Editora original: DC Comics (selo DC Black Label)
Data original de publicação: 19 de setembro e 12 de dezembro de 2018 e 26 de junho de 2019
Páginas: 156.

Sobre Willyan

Willyan Bertotto

Publicitário. Diretor de Arte, Designer e Batmaníaco. Fã incondicional da DC Comics e pesquisador assíduo desse universo e todas as suas possibilidades de transformação.

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