Harleen quando nasceu era tão pequena e doce como um pêssego, mas a vida é uma droga, pessoas boas pagam pelas ações de pessoas ruins. E Mariko Tamaki procurou ilustrar ao máximo todas as questões sociais, a gentrificação e como ricos ficam cada vez mais ricos enquanto pobres ficam ainda mais pobres. 

Mas não está tudo perdido, ainda há pessoas dos mais diversos lugares que se preocupam uns com os outros, pode ser em uma escola, um comício e até um show de drag queens. 

Tamaki ficou responsável por dar uma nova origem para Harleen Quinzel e ela não mostrou somente como ela se tornou a Arlequina e sim da infância conturbada até a jovem Harleen colegial excêntrica e cheia de energia. A personalidade de Harleen foi muito bem trabalhada, não um enlatado de informações e personalidade jogado goela abaixo, onde temos que aceitar que ela é assim e ponto. Vemos toda uma construção da personagem. Parece complexo falando dessa forma, mas lembre-se que Arlequina Quebrando Vidraças é um título do selo DC Teens, de publicações destinadas ao público jovem. A linguagem fala com o público jovem e os personagens foram repensados para serem inclusivos. Não é lacração, é uma necessidade real para conversar com um público de mudanças sociais significativas. 

Depois que sua mãe conseguiu emprego em um cruzeiro, Harleen chega em Gotham com uma mochila de 5 dólares, as roupas do corpo e uma caixa de sucrilhos para morar com sua avó já idosa e com um gosto peculiar por palhaços, mas a jovem é surpreendida com a notícia que sua avó havia falecido. Sem alternativas ela implora para Mama, um homem gay orgulhoso que se torna sua “Fade Madrinhe”, para ficar, ele aceita com a condição que ela continue fofa e vá para escola. 

É interessante notar como é o usado gênero neutro na tradução, é feito com naturalidade própria do dialeto Queer, mais como uma forma carinhosa de tratamento do que como uma questão de gênero, uma vez que Mama se identifica como homem. Mama representa também uma categoria artística, está a frente de um show de Queens que agora será a nova família de Harleen. 

As cores escassas das ilustrações de Steve Pugh provocam uma reação de imersão na leitura e são um apontamento dos sentimentos da narradora. A introdução em preto e branco como o início de “O Mágico de Oz” e aos poucos cores são inseridas na narrativa, sinalizando que nossa “Dorothy” não está mais no Kansas. Os cenários de Gotham são em escala de cinza capitalista e urbano, com o céu em vermelho opressor; a Boate Mama’s em detalhes rosa neon divertido e feminino; o roxo suave, que por vezes indica melancolia e outras realeza pela presença das queens; cenas do passado amarelo açafrão; as cores mais abundantes e naturais da horta comunitária, o local preferido da primeira melhor amiga de Harleen, Hera. 

Hera é uma jovem Preta, vegetariana, politicamente e socialmente engajada, ativista e que está de saco cheio do sistema e dos Kane, a família que é dona de vários negócios e que está colocando todo o bairro como área condenada para tomar as propriedades e construir mais prédios e empreendimentos. Harleen acha Hera a pessoa mais incrível do mundo, e começa a apoiá-la em todas as suas empreitadas. 

Harleen está feliz com sua nova família e sua amiga, seus anjos pessoais e está disposta a tudo para ajudá-los mediante a “xexelentos” e as ameaças dos Kane, a primeira ameaça acontece durante o show beneficente organizado no Mama’s após a subida exorbitante do aluguel, e junto com essa ameaça, a primeira vidraça da história é quebrada, um tijolo atinge o Mama’s durante o show, o chão pichado imperando que eles saiam dali com uma pista, um copo enorme da cafeteria Kane, um aviso. Mas Harleen quer defender sua família, se vingar, vai até a cafeteria com a “vara de condão” como é chamado o taco de baseball e agora é sua vez de quebrar a vidraça. E é ali que conhece “O Coringa”, ele a toma pela mão para fugir da polícia que foi acionada rapidamente pelo alarme, a leva para um bueiro, a toca do coelho, que em vez de a levar para o mundo das maravilhas terá que se contentar com o esgoto e com seu coelho branco, um “enigma” que em um segundo momento se apresenta como um agente do caos, as cores falam conosco novamente. O fundo em vermelho vivo aponta o perigo. 

O Coringa é diferente do que estamos acostumados, a apresentação do personagem parece uma colagem de arte pop e lembra de longe o que vemos em “Batman – Morte em Família”, usando um rosto como máscara. O rosto da máscara foi arrancado de um dos milhares de outdoors dos Kane, um sorriso plastificado, falso, de quem não sorri com os olhos, e talvez por esse motivo os olhos não sejam da mesma fonte, um recorte de outro cartaz, de um dos milhares de Gotham. O Coringa parece uma mistura com tudo de ruim, um contraponto a criação da Arlequina pela Harleen, que cria seu alter ego com suas experiências, as cores tem relevância novamente e se misturam durante o nascimento da Arlequina. 

Harleen não aceita ser o que foi entregue a ela em uma caixa, e ao se “montar” tudo o que ela é está lá, de bom e de ruim,  o perigo está lá, o passado, a melancolia, a sua nova família e uma referência direta a sua avó, que da coleção de palhaços sua peça favorita era uma pequena arlequina.

Com uma narrativa levemente confusa e fofa, afinal a narradora é a própria Harleen que narra no presente e no passado ao mesmo tempo, assim como se trata em primeira e terceira pessoa, cheia de referências a contos de fadas. Quebrando Vidraças é a jovem Harleen contando uma história, a história de como ela chegou onde está, como o mundo é cheio de xexelentos e o que devemos fazer com eles. Não só isso, que ainda existem anjos, e que eles valem a pena. 

Nota:

Sobre Rebeca

Rebeca Vilas Boas

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira.

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