O Esquadrão Suicida de James Gunn consegue realizar mais do que apenas a visão de um cineasta inspirado, como também entrega um projeto grandioso, arriscado, mas realmente surpreendente.

Quase 5 anos se passaram desde a estreia do primeiro filme que apresenta ao público a famosa Força Tarefa X, que até então, só tinha sido representada no filme animado ”Batman: Assault On Arkham” em 2014. Comandado por David Ayer, o longa ambicioso apenas em papel falhou em entregar uma narrativa que cativasse tanto fãs quanto desconhecidos ao material original. Por uns belos 3 anos, o futuro desse time nos cinemas ficou jogado no ar.

Com U$746,8 milhões em bilheterias, era certo acreditar que o filme viraria uma franquia nas mãos do estúdio, e em janeiro de 2019, James Gunn é anunciado como diretor da tão misteriosa ‘segunda tentativa’. Agora, porque a timeline dessa franquia é tão importante quando falamos sobre o lançamento de 2021? Bom, para começar, o filme de 2016 nunca saiu dos tablóides mesmo após meia década ter se passado, e agora, com o lançamento de uma produção que está sendo vendido como um ‘soft-reboot’, ele se torna ainda mais crucial para a discussão.

É impossível não sair satisfeito de uma sessão de ‘O Esquadrão Suicida’, principalmente quando sua principal referência é o filme anterior, e é aqui que o longa de James Gunn irá se beneficiar até demais daqui pra frente. Tudo que você leu anteriormente sobre esse filme é colocado a teste em seus primeiros 20 minutos de tela, e posso dizer sem entregar nada sobre a trama que felizmente a grande aposta feita pela Warner Bros. deu muito certo. Mas vale apontar que pouco está sendo colocado em jogo aqui, se a expectativa já é baixa, a chance para uma surpresa positiva é maior, certo? Acredito que James e seus produtores sabiam disso quando aceitaram a missão de colocar esse time de volta aos eixos, e agora, sentam no que pode se tornar uma mina de ouro para todos os envolvidos.

Estamos em uma boa posição quando o assunto é o universo estendido da DC nos cinemas, saímos de 3 lançamentos que moderadamente se saíram bem com o público, apesar de algumas ressalvas, o cachê é positivo e a sequência de vitorias para a marca contínua intacta aqui, com uma das suas melhores entradas desde que ‘O Homem de Aço‘ iniciou esse universo compartilhado em 2013.

O primeiro ato não desperdiça tempo com introduções demoradas, é claro que somos devidamente apresentados a novos e velhos conhecidos, mas o filme entende que o público anseia por uma narrativa mais dinâmica quando o assunto é o Esquadrão Suicida, e não decepciona e nem economiza seus minutos iniciais, que foram feitos justamente para surpreender e assustar quem deu o play no filme achando que já sabia como a história toda iria se desenrolar. O humor pesado de James Gunn tem presença forte neste começo, enquanto mais e mais personagens interagem, falas bobas são jogadas de lá para cá como uma peteca, que curiosamente, ninguém deixa cair.

Meu medo em ver semelhanças descaradas com o outro sucesso de Gunn para outro estúdio era gigante aqui, mas posso afirmar que o humor é a única semelhança entre as franquias, e o Esquadrão continua sendo algo que pertence totalmente a DC, e não perde sua identidade em momento nenhum durante o resto do longa.

Apesar de ser vendido como um recomeço, migalhas podem ser observadas pelo filme, principalmente aqui no início, com velhos amigos da Força Tarefa X se reencontrando, personagens explicando como foram presos novamente após os eventos do primeiro filme. É tudo familiar, mesmo que não seja.

Sempre encarei o segundo ato de um filme como o corpo de toda a obra, e aqui temos um belo exemplo disso. O tempo que é dado para o desenvolvimento dos personagens é muito bem vindo, e feito de maneira bem natural. Não temos um remake da cena do El Diablo no primeiro filme chamando seus colegas de time de família, mas temos personagens reais, com traumas reais, e é aqui que plantamos sementes para relacionamentos que vão fazer a diferença no terceiro ato, não deixando nada gratuito ou sem sentido como na produção anterior.

A contagem de corpos continua gritante, mas a violência acaba se tornando costumeira, com algumas exceções mais radicais. Agora, temos um objetivo, um plano e sabemos como executa-lo. É nesse segundo ato que ganhamos o coração do filme, que por motivos de evitar qualquer spoiler, deixarei em aberto sobre quem estou falando. Aqui somos surpreendidos com ótimas participações especiais, Taika Waititi, que foi devidamente deixado de fora do material de divulgação do filme, tem uma breve cena emocional ligada a um personagem X – que é muito bem posicionada.

As cenas de ação dão uma bela de uma amadurada, o caos constante do primeiro ato apresenta cenas mais bem coreografadas e mais claras, visualmente os momentos mais marcantes no trabalho dos dublês do filme podem ser vistos aqui, apesar do diretor afirmar que muito do que vemos foi feito pelos próprios atores.

Temos uma grande estrela no terceiro ato (literalmente), e com belas reviravoltas, uma narrativa que vai e volta bem no estilo visto em ‘Aves de Rapina’, ganhamos o terceiro ato mais coeso do que se possa imaginar. Tem exatamente de tudo que o filme apresentou anteriormente, só que aqui, tudo vem com urgência, você sabe que o filme esta acabando, mas para esses personagens que restaram, o tempo é crucial e muito bem cronometrado.

Pela primeira vez em um bom tempo, você não tem certeza se tudo vai finalizar como ‘deveria’ ser em filmes do gênero, dando espaço para belas surpresas nos minutos finais, e um encerramento que satisfaz, mas não sem tirar algo em troca. Dói, mas você sabia que iria doer, todo mundo te avisou que doeria.

Individualmente falando, existe um belo espaço para todos os personagens brilharem durante todo o filme. Aqueles que partem muito cedo, ganham ao menos algumas boas cenas para valer sua participação. O filme não tem protagonistas tão declarados, mas a narrativa é sim acompanhada por um trio, que ganha destaque em momentos diferentes. Harley teve seu melhor momento em Aves de Rapina, e aqui, Margot Robbie continua seu trabalho impecável como a personagem que se tornou praticamente o quarto pilar da DC nos últimos anos. A atriz se beneficiou de ter filmado Aves e Esquadrão praticamente juntos, pois se mostra extremamente confortável no papel. O Sanguinário de Idris Elba claramente serve como o substituto ao Pistoleiro de Will Smith, que não estava disponível para reprisar seu papel na sequência, e infelizmente, as comparações não somem durante o filme. Não que Elba entregue uma performance menor, pelo contrário, o personagem por muitas vezes parece uma variante do que já conhecemos e não alguém completamente novo.

Bons destaques podem ser dados a Daniela Melchior, que garante sua visibilidade como a novata no elenco, e consegue bons momentos emocionantes com sua interpretação da Caça-Ratos 2, uma bela surpresa. Sylvester Stallone como Nanaue/Tubarão-Rei serve como alivio cômico, o equivalente ao Groot na outra franquia do diretor, mas com muito mais a fazer aqui, não só um objeto sem vida no roteiro, e sim um personagem com certas motivações e bons momentos em cena.

Ao todo é um alívio ver o potencial desses personagens finalmente sendo usados de maneira certa, e com um final tão impactante quanto o início, o sentimento ao sair da sessão é muito satisfatório, te deixando com vontade de voltar para um Round 2, ou teorizando sobre o futuro da franquia, que é bem diferente do gosto amargo que o filme anterior nos deixou.

Nota: 52/52 – Excelente!

Sobre Juan

"Lembrai, lembrai, o cinco de novembro. A pólvora, a traição e o ardil; por isso não vejo porque esquecer; uma traição de pólvora tão vil" - “V for Vendetta”

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