Watchmen | Uma distopia atual na nova série da HBO

Distopia, segundo o dicionário, refere-se “a um lugar ou estado imaginário em que se vive sob condições de extrema opressão, desespero ou aprovação.” Exemplos de obras distópicas não faltam e Watchmen (a HQ) certamente se encaixa nessa definição.

Numa ideia bem elaborada (a série, isso é muito legal, eu confesso), também retrata uma distopia com um excelente porém: o futuro é exatamente agora. Os acontecimentos da série não são em um futuro tão, tão distante. Estamos falando de uma distopia onde o futuro é exatamente o ano em que vivemos. Desde o início, Damon Lindelof deixou claro que a série não seria uma adaptação literal dos quadrinhos, mas sim que usaria os quadrinhos como base e ao mesmo tempo, ultrapassando toda a história já escrita. O universo da HQ existe. Os elementos principais estão lá, alguns personagens e a própria trama se assemelha ao que já lemos.

Através dessa ideia, os padrões vilanescos, Guerra Fria, monstros e explosões, são trocados por um mal bastante atual e crescente: supremacistas brancos. Em 2017, homens, em sua maioria brancos, marcharam nas ruas de Charlottesville. Além de estarem fortemente armados, carregavam símbolos nazistas, bandeiras confederadas (símbolo do movimento pró-escravidão nos EUA) e vestiam máscaras da Ku Klux Klan.

Em março desse ano, 49 pessoas foram mortas e 42 foram feridas em um ataque a uma mesquita na Austrália. O atirador era um homem branco. Num manifesto, o atirador afirmou que uma das suas motivações envolvia “criar uma atmosfera de medo” e incitar a violência contra muçulmanos.

Grupos supremacistas brancos no mundo todo tem crescido e mensagens de ódio tem se tornado cada vez mais comum. No nosso amado país, negros são amarrados e torturados em supermercados e crianças mortas em favelas.

Tudo isso, atualmente.

A série começa com a recriação do massacre de Tulsa, Oklahoma em 1921. Cerca de 800 pessoas foram internadas em hospitais locais com ferimentos. O número de negros não pôde ser contabilizado, pois o hospital que atendia negros foi incendiado. O número de mortes também não pôde ser contabilizado devido ao fato de muitos negros terem sido enterrados em valas ainda não descobertas ou mesmo queimados. Cerca de 10.000 ficaram desabrigados.

O ataque havia sido impulsionado por um suposto estupro praticado por um jovem negro contra uma menina branca. Não foram encontradas provas que corroborem as acusações, pelo contrário, muitos indícios indicam que o que realmente pode ter acontecido, não passe de um assalto. Algo a se considerar é que o rapaz já estava preso, entretanto, homens brancos provocaram um tumulto na delegacia que rapidamente virou uma guerra racial.

Após exibir uma retratação do massacre, a série pula quase 100 anos. Acompanhamos uma batida policial feita por um policial negro a um homem branco na mesma cidade que ocorreu o massacre. Enquanto o policial tenta destravar sua arma que é controlada pela central, ele é morto.

Seu assassino faz parte de um grupo supremacista branco chamado de “A 7ª Kavalaria”. Seus membros tem o Rorschach como um mentor-deus. Para quem só assistiu ao filme do Zack Snyder, essa ideia pode ser absurda, mas contando o quanto o cara era desequilibrado, psicótico e violento nas HQ’s, ser uma inspiração para extremistas imbecis não parece algo improvável.

Nos EUA retratado na série, o governo impôs uma série de medidas a favor da reparação histórica em “favor” dos negros. Existe também uma tentativa de controlar a violência policial e transformar, meios letais como último recurso. Embora na teoria tudo pareça caminhar para um mundo justo, o mal estava apenas a espreita, procurando uma fagulha para despertar. Após a morte do policial, a polícia começa uma investigação contra os supremacistas responsáveis pelo ataque.

Aquele mundo ideal desaba e logo a violência policial se mostra como uma medida imediata. As armas passam a ser liberadas rapidamente e o chefe de polícia, assim como a maioria dos policiais ficam animados com a ideia das armas a disposição sem censura.

Antes mesmo da liberação oficial de meios mais violentos para combater a Sétima Kavalaria, a Sister Night (Regina King) captura um suspeito e entrega a polícia. Após um interrogatório conduzido por Looking Glass (Tim Blake Nelson) é comprovado que o suspeito está ligado ao grupo supremacista. Com isso, resta a Sister Night conduzir um novo interrogatório, dessa vez, com seus punhos. Depois de uma sessão de clube da luta particular é descoberto uma pista sobre o esconderijo de alguns integrantes da Sétima Kavalaria.

Assim como no massacre de Tusla, tudo se explode rapidamente e a violência ganha ares astronômicos. O glamour por trás das armas por parte da polícia não é surpreendente, assim como uma necessidade de um controle mais rígido da violência policial. Nos EUA, o número de negros mortos por policiais só aumentou nos últimos tempos, enquanto aqui no Brasil, guarda chuva na mão de negros é confundido com um fuzil, no final, morte.

Watchmen traça um paralelo claro que não existem heróis nessa história e a busca por uma suposta “ordem” pode ser tão cruel como um massacre. Se nos quadrinhos o maior questionamento é como seria o mundo se heróis existissem de verdade, na série a grande pergunta é: Existe alguma distopia pior do que a nossa própria realidade?

Lucas Pimentel

Você acredita em milagres? Também não, mas vivo na esperança de um universo de filmes maravilhosos da DC. Enquanto não acontece, sonho e escrevo.

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