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Piada Mortal Especial 30 anos | A criação da graphic novel

“É essa a distância que me separa do mundo. Apenas um dia ruim.

Você teve um dia ruim uma vez, não é?

Eu sei como é. A gente tem um dia ruim e tudo muda.

Seu dia ruim o deixou tão louco quanto qualquer um.

Só que você não admite…”

29 de março de 1988. Chegava nas bancas americanas, depois de mais de 2 anos de desenvolvimento, a graphic novel A Piada Mortal, The Killing Joke. Sucesso de público e crítica, vencedora do Prêmio Eisner, as edições de A Piada Mortal entraram pra lista de Mais Vendidos do New York Times e conquistaram uma legião de fãs ao longo dos anos. A graphic novel sempre figura nas listas de melhores histórias do Homem-Morcego e forma com The Dark Knight Returns e Year One uma tríade das histórias fundamentais e necessárias do cânone do herói, que alavancaram a febre Batman dos anos 80 e serviram de base pra construção das novas cores e tons das histórias do Vigilante de Gotham. Cores e tons que continuam presentes e ressoando até hoje. A Piada Mortal serviu de base para Tim Burton em Batman (1989) e Batman Returns (1992), sendo, nas palavras do próprio cineasta, seu gibi favorito e o primeiro que realmente gostou. Também é vital na construção de Batman: O Cavaleiro das Trevas (2011) de Nolan, que incluiu a história no material de estudo de Heath Ledger. Ledger manteve sua pesquisa distante dos quadrinhos, preferindo buscar outras referências para a criação do seu Coringa, mas A Piada Mortal foi uma de suas principais fontes e um de seus principais contatos com o Príncipe Palhaço do Crime. Além de se fazer presente em todas as plataformas, como animações, jogos e action figures, os eventos daquele dia em que o Comissário Gordon recebeu uma visita inesperada em seu apartamento ainda são sentidos até hoje no Universo DC. E, mesmo após 30 anos, ainda se discute sobre A Piada Mortal. Seu final. Suas polêmicas. Seus significados. Sua piada.

E o que faz com que A Piada Mortal, uma graphic novel de apenas 46 páginas, seja tão memorável e importante para a história do Coringa, do Batman, da DC Comics e da nona arte? Para entender melhor A Piada Mortal, precisamos primeiro conhecer o contexto histórico em que estava inserida e como estava o mercado de quadrinhos da época. E entender como foi sua criação, que é cheia de lacunas e ambiguidade. Exatamente como a própria graphic novel.

No início dos anos 80 o universo dos quadrinhos passava por uma importante transição. A fase final da Era de Bronze vinha carregada de temas sociais e de questionamentos políticos, e tinha como público uma juventude desesperançosa e sarcástica. Esta geração se via representada por uma nova leva de artistas, principalmente britânicos, que conseguiam se comunicar muito bem com o novo consumidor de comics. As histórias, desde o fim da Era de Prata, buscavam humanizar seus heróis, retratá-los não mais como seres divinos, mas como homens e mulheres passíveis de erros. Os leitores receberam muito bem essa abordagem e anti-heróis começavam a ter uma atenção maior. Na Marvel, Justiceiro e Wolverine se tornavam os principais nomes da editora. Na DC Comics, Crise nas Infinitas Terras revolucionava a história dos quadrinhos e abria multiversos de novas possibilidades para os personagens, enquanto que Watchmen e Dark Knight Returns marcavam o início de uma nova era, que para alguns será a Era de Ferro, também chamada de Era Sombria, e para outros será a Era Moderna, esta última abrangendo até os dias atuais. Para o Batman, as Eras de Ouro e de Prata trouxeram poucas mudanças na história do personagem, sendo a maior delas a apresentação do Batman da Terra-2, que foi apagado nos eventos da Crise. As mudanças ocorridas foram no tom e na comunicação do personagem com o seu leitor. O personagem tinha incorporado leveza e humor em suas aventuras, especialmente depois da série The Batman de 66, protagonizada pelos eternos Adam West e Burt Ward. O mesmo pode-se dizer do Coringa, que não era a ameaça imprevisível que conhecemos hoje. É durante a Era de Bronze que se começa um resgate da essência dos personagens da linha editorial do Batman. É durante esse momento de efervescência na DC Comics, na metade da década de 80, que o projeto Piada Mortal começou a ser desenvolvido.

Apesar do nome de Alan Moore ser o mais lembrado quando se fala na Piada Mortal, a verdade é que tudo só foi possível graças a seu desenhista, Brian Bolland. Brian Bolland, um dos maiores desenhistas e capistas de quadrinhos, havia acabado a excelente maxi-série Camelot 3000, e como reconhecimento por seu trabalho recebeu carta branca do editor Dick Giordano para trabalhar com o título, o personagem e o escritor que quisesse. A resposta foi imediata: Batman, Coringa e Alan Moore. Bolland e Moore possuíam profundo interesse um no outro, e haviam perdido oportunidades de criarem algo juntos quando estavam no início de suas carreiras, ainda no Reino Unido. Moore e Bolland não gostam do resultado final de A Piada Mortal, mas sempre se trocam elogios quando falam sobre a graphic novel, exaltando o orgulho que sentem dos traços e da escrita do parceiro.

Alan Moore já era um dos melhores artistas de quadrinhos (e não apenas de sua geração, diga-se de passagem), já tinha lançado V de Vingança e trabalhado toda a série do Monstro do Pântano, atraindo atenção novamente para o personagem. Foi em algum momento durante a reta final de Watchmen, entre 1984 e 1985, que o convite de Bolland surgiu. Em outro momento, já entre 85 e 86, Moore entregou o roteiro de A Piada Mortal: 128 páginas de falas, descrições detalhadas de cada um dos quadros, comentários, piadas e conversas pessoais com Bolland. O próprio script se faz uma leitura necessária pra quem gosta de quadrinhos, para entender um pouco (só um pouco) de como funciona a mente de Alan Moore e poder comparar com a graphic novel final, vendo as mudanças que Brian Bolland realizou na obra e o que acabou nascendo do encontro entre estes dois mestres.

De início, já podemos destacar uma grande informação do script de A Piada Mortal. No alto da primeira página, encontramos escrito “Joker Graphic Novel“. Diferente do que dizem algumas lendas, de que a história seria do Batman e que o Coringa no foco principal teria sido um improviso, A Piada Mortal sempre foi uma história sobre o Coringa. Desde o momento que Bolland teve a ideia até o momento em que Moore sentou em sua poltrona para escrever. Entender que a intenção da dupla era contar sobre o Coringa e desvendar (ou não) um pouco mais sobre sua psicologia é importante para derrubarmos outra grande lenda em torno de A Piada Mortal: não, essa não é a última história do Batman e do Coringa. Não há indícios ou citações de que a dupla pretendia escrever uma história que encerrasse a história do herói e do vilão, mas sim escrever mais uma história sobre o herói e o vilão.

Também não se pode afirmar que inicialmente A Piada Mortal seria una história Elsewords, isto é, uma história que se passa fora do cânone principal da DC Comics. Ela pode ter sido em algum momento, mesmo que brevemente, mas tudo aponta que durante o longo tempo de finalização da graphic novel a DC Comics esteve sempre presente, acompanhando Moore e dando liberdade artística para o escritor, ao mesmo tempo que preparava o terreno para as mudanças que a história traria, inclusive, no status quo de alguns personagens. O próprio Moore se reportava para editores como Len Wein para receber permissão nas suas escolhas de roteiro. E isto não retira a ambiguidade e todos os possíveis caminhos de A Piada Mortal, muito pelo contrário, apenas reforça que a obra é, intencionalmente, aberta a interpretações e que seus criadores pensaram previamente nos caminhos psicológicos e filosóficos indicados ali, em “apenas” 46 páginas.

A demora na produção da Piada Mortal é, em boa parte, culpa de Brian Bolland. A criação da arte da graphic novel demorou pouco mais de 2 anos pra ser concluída, foi quando decidiu-se escalar John Higgins para fazer a colorização e agilizar sua finalização. Essa foi uma das dores pessoais de Bolland, que desejava dar as suas cores para a história. Isso foi corrigido anos mais tarde, em 2008, quando o artista teve a oportunidade de relançar a Piada Mortal em edição de luxo, agora com as cores originais. A colorização de Brian Bolland é mais sombria e escura, e deixa a história muito mais fria, o que realça cores vibrantes e mais marcantes como o cabelo verde do Coringa, a blusa amarela de Bárbara e as diversas luzes, lanternas e faróis espalhados pela história. Os flashbacks são muito mais destacados do resto da narrativa, sendo registrados em preto e branco e com alguns poucos elementos coloridos, conduzindo o olhar e interpretação do leitor.

 

Cabe aqui, também, falar sobre o trabalho magnífico que John Higgins realizou e que pouco é lembrado. A verdade é que é necessário fazer justiça com a visão que John Higgins trouxe para A Piada Mortal, e que colaborou para que a obra fosse única. Higgins pinta os quadros da história com coloridos lisérgicos e tóxicos, onde passado e presente parecem se confundir e uma aura de loucura iminente é presente em toda a história. É um trabalho muito mais oitentista e mais chamativo que as cores de Bolland, que se assemelham mais com obras da época, como as já citadas obras de Frank Miller sobre o Homem-Morcego. A preferência por cada artista vai do gosto pessoal do leitor, mas todo fã de histórias em quadrinho precisa se pôr na experiência de ler cada uma das versões. A colorização de Bolland é fácil de encontrar, pois está em todas as edições de A Piada Mortal relançadas. Já as cores de Higgins só podem ser encontradas nos primeiros prints de 88, ou na primeira edição brasileira, a Graphic Novel Número 5. Há também a edição Noir, toda em preto e branco, para aqueles que desejam ter uma maior atenção aos traços de Bolland.

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Entendendo um pouco mais do cenário e da criação de A Piada Mortal, o próximo passo será mergulharmos em toda a acidez e locura da graphic novel. Na próxima parte deste especial iremos passar página a página e encontrar as simbologias e significados deixados por Moore e Bolland. Então… até logo e smile!

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