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Batman | “O Que Aconteceu Ao Cavaleiro das Trevas?”, uma reflexão sobre a vida e a morte

O Batman, para uma grande parcela de consumidores da cultura pop, entraria facilmente em uma lista sobre os maiores detetives do universo ficcional. Com toda sua disposição, inteligência e artifícios, Bruce Wayne encara o papel de Homem-Morcego, desbrava todos os becos de Gotham City e faz-se presente onde o crime se manifesta.

Mas, e se o mistério da vez for a sua morte?

É justamente essa questão que o Batman tem que desvendar em “O Que Aconteceu Ao Cavaleiro das Trevas?”, publicação de 2013, dividida em duas partes. Sendo assim, muito oportuno é tomar o dia 2 de novembro, Dia de Finados no Brasil e data para lembrar os mortos também em outras culturas, para debruçar-se sobre essa obra de Neil Gaiman (Sandman, Coraline), com desenhos de Andy Kubert, arte-final de Scott Williams e cores de Alex Sinclair.

Logo nos primeiros quadros a leitura é tomada por espanto não pelo fato de um a um os maiores vilões do Cruzado Encapuzado estacionarem seus carros no Beco do Crime, em Gotham, mas sim o que o lugar que eles adentram reserva. Um Batman, vestido no seu traje, em um caixão. Morto!

Antes de prosseguir por essa fúnebre investigação, vale uma menção à chegada do Coringa ao Bat-Funeral. O Palhaço do Crime atordoa um jovem garoto responsável por olhar os carros apenas por pedir que o mesmo faça o seu serviço. Com medo de falhar ou de que mesmo com êxito no seu trabalho ainda assim possa ser morto, desesperado ele ouve:

“Garoto… Eu sou o Coringa, não mato gente por acaso. Mato gente quando é engraçado. Que graça poderia ter em matar você?”

Assim, com uma sequência de alguns poucos quadros e uma empáfia na fala do Coringa, a obra consegue presentificar o seu passado de feitos criminosos, até mesmo atos de outras mídias. Depois disso, o Coringa é mais um entre os muitos presentes no velório do Batman, e lógico que ele não estaria ausente desse evento grotesco que reúne harmoniosamente no mesmo espaço que o vilão a família Gordon com sequelas de “A Piada Mortal”, o que sublinha ainda mais as dúvidas sobre esse suposto ato final.

Desde o início da narrativa, Batman dialoga com uma misteriosa personagem narradora, sim ele está presente de alguma forma em sua própria morte, quase como um jogo, separados corpo e consciência. Entre o fantástico e ávido por encontrar respostas para essa noite, além de não reconhecer a Gotham que assiste, talvez por não estar mais nela, ao final da Parte 1 ele é novamente provocado pela voz a descobrir o que aconteceu a si mesmo, “Bruce, você é o maior detetive do mundo. Por que não descobre?”, e talvez seja esse o principal motivo que faça sua morte não ser um final tranquilo ou completo, ainda lhe resta um enigma.

Lembrado por muitos, heróis e vilões, Batman não parece muito concordar com as diversas versões sobre o que ocasionou sua partida, não se sabe se porque quer ele ser o dono da sua própria história ou se, talvez, pelo fato de suas aparições serem cercadas de tanto mistério que os demais envolvidos são confundidos tamanha a habilidade do morcego em se desvencilhar pela escuridão sem deixar rastros. Ou, ainda, ele próprio não se vê como parte do caos de Gotham, nas palavras do Superman sua ação deveria ser para tornar as pessoas melhores, motivar boas ações e não ser um agente criador do medo, afinal, ser assim “É tão ruim quanto o pior deles”. Para Superman, em seu tradicional traje – vibrante no contexto da obra, ser morto por aqueles que o próprio Cavaleiro das Trevas ajuda a criar diariamente seria inevitável. Uma outra versão, contada por Alfred, é a que mais brinca sobre a forma como o vigilante de Gotham ganha vida, um passeio entre melancolia e piada.

Se o dia dos mortos é para se lembrar de quem partiu, nessa HQ o Batman será lembrado, também com doses de saudade contornadas por até uma espécie de frustração por não ser o narrador da vez o dono da verdade e responsável por aquilo que seria o maior acontecimento da vida (de Gotham), a morte do Batman. De certa forma, um final para muitos, e talvez por isso estão ali, para verem com os próprios olhos morto o que lhes dá vida.

Neil Gaiman propõe em “Batmam – O Que Aconteceu Ao Cavaleiro das Trevas?” um tipo de movimento complexo de duas mãos, que vai desde o personagem entender suas ações quase como uma morte diária, mesmo que em determinadas situações isso não o atravesse de forma consciente. O ápice desse vagar sobre sua própria existência é rememorado pelo leitor e refletido pelo próprio Batmam em um trecho específico com uma sequência de desenhos de Andy Kubert que evocam cenas emblemáticas e dolorosas de sua jornada. Já por outro lado, há momentos dedicados ao nascimento do Batman, seja pelo tom e enquadramento da arte ou o que para muitos pode ser tratado como o já batido final de seu pai e sua mãe assassinados e tal fato funcionar como um auto-prólogo para sua missão como vigilante, até mesmo porque isso é colocado nas palavras de Joe Chill, presente na obra como uma espécie de figura que orienta os que chegam ao velório. Ainda sobre nascer, uma dualidade está no desfecho da HQ, que tanto pode se revelar como um convite à reflexão sobre os mistérios da vida, das trevas à luz, ou apenas uma constatação realista do autor ao que ele e nós sabemos sobre a importância e significado de um personagem como o Batman para os interesses do mercado.

Neil Gaiman recebeu como provocação para criação de “Batmam – O Que Aconteceu Ao Cavaleiro das Trevas?” desenvolver o capítulo final do Homem-Morcego, a última de todas as suas histórias, e o faz maravilhosamente quando evoca passagens conhecidas do personagem, com um reviver de artes dos maiores mestres das histórias em quadrinhos e uma homenagem aos criadores do personagem. Há em seu Batman, nesse processo à véspera da morte, questionamentos sobre sua solidão, incapacidade para superar determinadas passagens da vida e sua jornada ainda desconhecida por esse tipo de sombras, com pontos de luz apenas artificiais, faróis dos carros, postes, velas e lareira. Mas, e se tudo isso for necessário para o Batman acreditar que assim é o seu fim? Se não agora, em algum dia.

“O final da história do Batman é sua morte. Pois, se o Batman não morresse no fim, o que mais iria fazer?”

Haveria outros aspectos inspiradores para esta escrita, como a reunião de Neil Gaiman, Andy Kubert e os demais artistas para a realização da obra ou uma análise em paralelo com o trabalho de Alan Moore com “O Que Aconteceu Ao Homem de Aço?”, sem comparativos, mas com um olhar sobre o papel das narrativas em relação a cada um dos personagens. Mas, como já ficou evidente, o objetivo foi outro, olhar, de certa forma, para uma morte, não trágica e nem as de combate considerando serem os protagonistas Bruce Wayne e Batman, mas sim aquela que é diária, que nos afasta a cada dia de onde tudo começou.

Nota:

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