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Cinema Críticas

Rainhas do Crime | Lugar de mulher é na Cozinha… do Inferno

The Kitchen, de Ollie Masters e King Doyle, é um dos títulos mais empolgantes e interessantes da Vertigo pós-2000. Lançada em 2014, a história das esposas que assumem o posto de seus maridos mafiosos após uma operação prender todos os chefões do crime em Hell’s Kitchen parecia anteceder algumas das pautas pertinentes que ganhariam maior destaque anos depois – em especial, em Hollywood, frente e fora das câmeras.

Uma adaptação audiovisual de The Kitchen parecia provável e próxima, especialmente se a obra cruzasse o caminho de algum produtor(a) ou diretor(a) com visão o suficiente para explorar seus temas aproveitando as discussões do tempo presente e a maior flexibilidade nas produções hollywoodianas, que após iniciativas como o #MeToo abriram espaço para as profissionais da indústria. E Andrea Berloff, argumentista de Straight Outta Compton e Herança de Sangue, enxergou o potencial de The Kitchen e decidiu não só assumir o roteiro, mas utilizar a história para estrear na direção.

No auge das adaptações de histórias em quadrinhos, Rainhas do Crime surge com novos tons e abordagem. A trama se mantém a mesma de seu material original, acompanhando a jornada de ascensão e autodescoberta de Kathy (Melissa McCarthy), Ruby (Tiffany Haddish) e Claire (Elisabeth Moss) na cena criminosa de uma Nova York dos anos 70. O filme, dado a sua natureza, não deixa de se inspirar nos longas de máfia e crime que tem a metrópole como cenário – e o mestre Scorcese é referência máxima para qualquer diretor, consciente ou inconscientemente. A dinâmica das personagens, tanto no longa como na hq, evoca ao clássico Os Bons Companheiros. O mesmo acontece com as transições de cena e planos com paisagens ora agitadas, ora melancólicas, ora sombrias da Cidade Que Nunca Dorme.


Rainhas do Crime tem toda essência técnica de um filme de gângster. Porém, o longa acaba apenas na forma, sem alma, se provando formulaico demais e sem identidade. Não há problemas em reproduzir estruturas e clichês, o problema é não encontrar a organicidade necessária para que estes façam sentido na história e na forma como a história está sendo contada ao espectador. Se levarmos em conta todo o potencial da história de The Kitchen, esta falta de identidade se torna ainda mais aparente. E não se trata de uma reclamação sobre a adaptação em si, mas uma análise sobre o filme de forma independente. Ao final dos 102 minutos de reprodução, Rainhas do Crime soa como um filme divertido ao espectador – mas que é um desperdício de sua própria proposta.

Rainhas do Crime não consegue mostrar seu propósito, nem evidenciar o quê, de fato, Berloff e seu trio de superatrizes querem comunicar. O principal inimigo é o tempo. O longa tem 3 atos bem definidos, mas Berloff tem pressa em passar pelo primeiro e resolver o terceiro. A diretora parece ver o início da jornada das protagonistas como um peso, e procura encerrar logo a metamorfose de Kathy/Ruby/Claire para dar mais atenção ao cenário onde seu poder já está estabelecido – talvez por, de fato, achar mais interessante para a narrativa ou pelo medo de um possível desenvolvimento lento entediar o público. A escolha acaba deixando o longa frágil – sem um começo coeso, o espectador tem mais dificuldade em se conectar com as situações das personagens. A agilidade com que as informações são apresentadas dá uma sensação de obrigatoriedade. E se nem a condução parece querer dar atenção ao que é mostrado em tela, por quê o espectador daria? As próprias discussões que o longa poderia explorar acabam sem ter a devida atenção. Reflexões sobre o papel da mulher nas últimas décadas, igualdade entre gêneros, relacionamentos abusivos, violência, sororidade, feminismo e preconceito são reduzidas a pequenos comentários, explícitos demais e que parecem duvidar da inteligência de seu próprio público.



A pressa também acaba por tirar força do próprio elenco. O longa poderia até explorar-se como um estudo de personagem, aproveitando suas personagens interessantes e seu trio de luxo – em especial McCarthy, sedenta por oportunidades de mostrar seu trabalho como atriz dramática. Infelizmente, as intérpretes são reduzidas a falas expositivas e carentes de sutileza, tendo que encontrar poucos espaços para aprofundar suas personagens. Porém, quando estes momentos são encontrados, é gratificante ao público. Um olhar, uma fala um pouco mais comprida, um jogo mais rico entre os atores, já dá possibilidades para que as atrizes resgate a atenção do público. Haddish mostra um excelente trabalho, e apesar de trazer um pouco de seus maneirismos e vícios, entrega muita verdade e prazer de interpretar. Moss, apesar de ver a trajetória de sua personagem sendo ignorada pelo roteiro, aproveita muito bem seu tempo de tela e todos os diversos movimentos de sua personagem ao longo do filme. Margo Martindale também tem uma participação muito interessante no longa – e uma presença cênica bem prazerosa de se ver.

Berloff se perde entre seu roteiro, sua direção e a necessidade de reproduzir as estruturas de um filme de máfia, mas é justamente nos momentos onde se permite mostrar mais de si mesmo que Rainhas do Crime se torna empolgante e tecnicamente interessante. Se foge do primeiro ato, no segundo degusta e se diverte com seu universo fictício. Há um apontamento muito certeiro junto a fotografia de Maryse Alberti (O Lutador, Velvet Goldmine) e ao design de produção de Shane Valentino (Animais Noturnos, Straight Outta Compton), que acompanha o ponto de virada entre os atos e a decisão principal das personagens. A progressão do guarda-roupa escolhido por Sarah Edwards (Oito Mulheres e Um Segredo, Gênios do Crime) também é interessantíssimo – e consegue se aproximar bastante do apontado em The Kitchen nos desenhos de Ming Doyle e capas de Becky Cloonan. Visualmente, Rainhas do Crime valoriza seu material de origem e cria personalidade própria. A movimentação da câmera de Berloff é bem discreta, normalmente realizando apenas o essencial e muitos planos e contraplanos (aquele famoso corta-corta muito comum em diálogos, onde se filma um personagem e, em seguida, o outro), mas na construção dos quadros a diretora mostra sua perspicácia. Em muitos momentos, Berloff busca enquadrar suas três protagonistas mantendo McCarthy no meio (buscando o equilíbrio moral de Kathy e a centralização da principal protagonista), Haddish no lado direito (ocupando o ponto de fuga, o que dá força e peso para Ruby) e Moss no lado esquerdo – deixando Claire mais afastada de suas parceiras de crime (o que ganha diversas camadas de interpretação ao longo do filme). Berloff também brinca movimentando Claire do lado esquerdo para o direito, de acordo com o crescimento da personagem e sua consolidação em assassina – usando de elementos técnicos para fortalecer a personagem.



O segundo ato, com Berloff mais á vontade, também é onde o espectador pode encontrar maior divertimento. Conflitos são estruturados e temos mais interações com personagens secundários. A violência não é explícita, sendo deixada fora da tela na maior parte das vezes, e sempre busca trazer comicidade para as situações. Já o ato final do longa é confuso e mal aproveitado. Revelações importantes são apresentadas de forma banal, utilizando flashbacks pouco inspirados. Um ponto de virada importante do filme perde o impacto, e nem a condução das atrizes nem a montagem é bem realizada. Os últimos minutos, novamente, são corridos – e o clímax, frágil demais.

Rainhas do Crime ainda conta com trilha sonora e montagem que trabalham contra o filme. A montagem do competente Christopher Tellefsen (Um Lugar Silencioso, Moneyball, O Mundo de Andy) não realiza as melhores escolhas para o longa, possivelmente por não ter material gravado que o possibilitasse realizar maiores experimentações ou pelos apontamentos da direção. Ou simplesmente não estava em seus melhores dias. Já a trilha sonora é composta por músicas que, embora busquem retratar a época, não encaixam naturalmente na narrativa. Por vezes, buscam sintetizar literalmente a emoção da cena. Novamente, a armadilha do expositivo.



Enfim…



Rainhas do Crime risca as estruturas dos longas de gângster para adaptar um dos títulos mais relevantes da Vertigo nos últimos anos, The Kitchen. Apesar de ser tecnicamente frágil, o filme que marca a estreia de Andrea Berloff na direção pode ser uma opção divertida e prazerosa ao espectador. De suas qualidades, podemos destacar as construções de quadro de Andrea Berloff, que aliados ao design de produção e guarda-roupa, fazem de Rainhas do Crime uma boa tradução visual da década de 70 e de seu material de origem.

A pressa na condução e apresentação da narrativa acaba por desperdiçar muito do potencial apontado no filme. Em especial, podemos destacar seu trio de protagonistas, atrizes de visibilidade e em momentos muito peculiares de sua carreira, que acabam sem ter material com o qual trabalhar e mostrar seu real potencial. Rainhas do Crime pode ser entretenimento para aqueles que não se preocupam muito com a técnica cinematográfica e querem um filme que traga uma trama menos comum para as adaptações de quadrinhos e filmes de crime. Mas, para aqueles que querem algo com mais conteúdo e reflexão, resta a oportunidade de conhecer The Kitchen – este sim, muito mais pertinente ao tempo presente e mais maduro como projeto.

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