Coringa | Uma visão profunda do Príncipe do Caos

O Coringa é um dos personagens mais cruéis, se não o mais cruel do Universo DC. O vilão com a maior densidade psicológica do universo do Batman é um inimigo que não é idealista, na verdade ele não possui ideal algum, apenas o caos. Afirmo dizer que dentro do mundo dos vigilantes, ele representa o mal na sua forma mais pura.

Sua capacidade de criar planos para simplesmente causar o mal em Gotham, aliado a uma insanidade que a cada novo crime, novo assassinato ou atentado mostra que não existe limites para o vilão. Esse elemento é um dos mais atrativos de todo o repertório do personagem, impressionando os leitores desde sua chegada nos quadrinhos em 25 de abril de 1940, na época criado por Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson.

Muitas pessoas tentaram de alguma forma traçar um perfil psicológico do Coringa, sejam acadêmicos ou apenas fãs apaixonados que procuram encontrar algum sentido na filosofia do vilão. Porém, é impossível realizar este exercício dizendo que ele seria A, B ou C devido ao comportamento e a sua forma de agir, talvez o único jeito de definir o Palhaço do Crime seja pensarmos nele como é o seu conceito.

Com tudo que já conhecemos de toda a história do personagem, podemos dizer que o Flagelo de Gotham é intimamente ligado ao arquétipo do trickster, a figura associada ao riso e ao exagero, tendo no seu íntimo a ligação direta com o primitivo, o trapaceiro que sente prazer em não cumprir as regras, sendo ele um elemento totalmente contraditório. Partindo desse princípio, podemos entender porque o Palhaço do Crime é um claro agente do caos dentro da cidade de Gotham.

O perfil psicológico é de fato complexo de descrever. Como dito anteriormente, após a sua nova abordagem a partir dos anos 80 na fase pós-crise, o Coringa é visto como um psicopata, por ser um ser humano sem ter a capacidade de sentir remorso, pelo contrário, sente prazer e inclusive a morte de seu semelhante para o vilão é considerado algo engraçado, a ameaça de morte lhe traz a sensação de felicidade. Para o Príncipe do Crime, o assassinato não passa de apenas mais uma piada de alguém que assumidamente sabe que é insano.

Talvez dentro de uma racionalidade não teria como dizer precisamente de onde surgiu a sua psicopatia por não termos uma origem definida, seria necessário entender de onde vem para saber as raízes de determinados comportamentos. Apesar da sua origem ser considerada por boa parte dos roteiristas e fãs a retratada em A Piada Mortal, uma das histórias mais emblemáticas do vilão, a história não deixa tão claro se a narrativa de sua origem é verdadeira “Algumas vezes me lembro de um jeito, outras, de outro. Se vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha! Ha Ha ha” diz o vilão em uma das páginas da obra de Alan Moore. Mas se pensarmos em termos mais simples, utilizando conceitos da psicologia Freudiana que divide o inconsciente entre Id (impulsos), Superego (moral e regras) e o Ego (o equilíbrio entre ambos), podemos dizer que o Id do Coringa tem total domínio sobre o aspecto da sua inconsciência, que por sua vez dominam os valores morais se entregando completamente aos seus impulsos.

Outro fator interessante é como um personagem completamente incomum aos padrões do que é bom consegue se tornar tão atraente para o grande público. O Coringa tem sua imagem relacionada ao crime e a violência e mesmo assim é uma figura extremamente famosa, sendo referência até para alguns cantores do cenário musical nacional e inspiração para alguns adolescentes, principalmente para aqueles que consideram erroneamente a relação do vilão com a Arlequina um romance, o que na verdade se passa bem longe disso, e sim uma relação de severos abusos psicológicos e físicos diante de uma mulher severamente desestruturada em seu estado psíquico.

Uma prova dessa atração é a participação do personagem no longa Esquadrão Suicida de 2016, dirigido David Ayer no qual o palhaço sequer tem uma presença significante. A atuação de Jared Leto foi considerada muito abaixo do que se espera do ator pela crítica, mas apesar disso, o filme ainda conquistou uma bilheteria muito alta para ser de fato um fracasso financeiro. A produção garantiu sua continuação e muitos até lamentam o pouco tempo de tela dado ao Flagelo de Gotham.

O que se pode imaginar é que esta atração pelo lado louco do Coringa parece estar intimamente relacionado com essa sensação de simplesmente se render aos seus impulsos mais selvagens, e fazer o que desejar sem a preocupação dos valores morais que nos impedem de satisfazer estes impulsos.

No dia 3 de outubro, chegará um filme solo dedicado ao maior inimigo do Batman, uma visão do vilão completamente diferente. Veremos a abordagem de Todd Phillips mostrar o surgimento do vilão em um estado muito mais próximo da realidade, um homem comum que procurava trazer a felicidade a todos sendo lentamente esculpido de acordo com todo o sofrimento proporcionado pelo convívio dentro de uma sociedade violenta e corrupta, aproximando ainda mais o espectador de toda essa atraente loucura que conduz o Coringa.

Ricardo dos Santos

Fã de quadrinhos, séries, filmes e games. Apaixonado por DC de Grant Morrison a Alan Moore. Mais um privilegiado de estar na amada Terraverso.

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