Coringa | Produção é um retrato máximo da dor

O que você sente ao observar essa imagem? A obra O Grito foi criada em 1893 por Edvard Munch. Pelo que tudo indica, a fonte de inspiração para a obra, fora a própria vida pessoal do autor. Munch foi criado por um pai controlador e que quando criança, presenciou a morte da mãe a irmã. Para se dedicar à pintura, Munch deixou o pai, entretanto, não obteve paz e sim o contrário, o caos. Ele se tornou presente em sua vida. 

No seu diário, Munch escreveu: “Eu caminhava com dois amigos – o sol se pôs, o céu tornou-se vermelho-sangue – eu ressenti como que um sopro de melancolia. Parei, apoiei-me no muro, mortalmente fatigado; sobre a cidade e do fiorde, de um azul quase negro, planavam nuvens de sangue e línguas de fogo: meus amigos continuaram seu caminho – eu fiquei no lugar, tremendo de angústia. Parecia-me escutar o grito imenso, infinito, da natureza.” 

Expressar a dor, sentimentos inimagináveis e toda a complexidade que poderia sobrevoar na mente humana, não é o dever da arte, mas sim sua obsessão. Artistas tendem a ter o seu lado sentimental mais aflorado e a arte é uma ferramenta que transforma a dor pessoal em uma tela em branco, onde aquilo que vemos é exatamente aquilo que sentimos e nem sempre sabemos descrever.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam
que você se comporte como se não tivesse”.

Coringa é um exemplo claro de um retrato da dor. Qual dor?  “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”. Essa é a frase que Arthur Fleck anota no seu diário/caderno de piadas. Essa frase dita é umas das tramas mais interessantes do longa. Desde o início, acompanhamos um homem que tenta melhorar, buscando ajuda nos meios que encontra. 

Como Arthur é recebido? Sua terapeuta é apática, boa parte pela falta de recursos e apoio do governo. Em determinado momento, Arthur a questiona se realmente ela está lhe ouvindo e em seguida ouvimos um pensamento sufocante que sai das entranhas de um homem extremamente destruído internamente. “Se eu estou tendo pensamentos negativos? Tudo o que eu tenho são pensamentos negativos”.

Coringa sempre foi um vilão venerado por muitos. Para uma grande parte dos amantes de quadrinhos é tido como o maior vilão. Boa parte desse clamor é derradeiro do espírito anárquico, niilista e amoral do personagem. Em tantas mídias, já vimos um coringa que explode o caos em Gotham enquanto questiona o significado da ética, moral e justiça. Mas nunca antes, vimos uma análise tão profunda e pessoal do Palhaço do Crime. Aqui, o conceito de vilão se torna questionável e quando a produção questiona, expõe um homem vítima da própria sociedade.

É óbvio que o roteiro se preocupou em tomar cuidado para não justificar atitudes do Coringa e tampouco, se calcar no pensamento fácil do personagem ser um mero homem que por falta de apoio, se transforma num monstro.

O sofrimento de Arthur é visível e enxergá-lo é um processo angustiante. Quanto mais nos aprofundamos nas suas dores, mais entendemos o quanto fazemos parte do mesmo processo. Nas risadas forçadas devido a sua doença, nos encolhemos nas poltronas dos cinemas e nas nossas próprias angústias.

Em determinado momento da trama, Arthur se apresenta como convidado no programa do Murray Franklin. Durante a entrevista, o Coringa expõe claramente o que sente, sendo até mesmo didático, o que deve ter sido uma opção do diretor. Além de culpar a sociedade pelo descaso com pessoas que tem problemas psicológicos e emocionais, temos, o que foi para mim o momento mais interessante nos diálogos durante a entrevista. Coringa questiona as reais intenções do convite de Murray. Ele o indaga se não foi levado ali apenas para ser motivo de piadas, o que obviamente, é verdade. Neste momento, a crítica não é somente a sociedade como a ideia de um governo que não presta assistência adequada a pessoas que precisam. Nem tampouco a milionários que, no palácio das suas riquezas, não lhe sobram vontade para olhar para baixo. A crítica é a todos nós.

Nos acostumamos a rir do outro, muitas vezes de forma vexatória, exaltando falhas e problemas como se realmente fosse algo engraçado. Nos diálogos, principalmente em redes sociais, o desejo de tentar mostrar que o outro está errado, sobrepõe a possibilidade de qualquer conversa no real sentido da palavra. E quando alguém tenta nos falar como está se sentindo, em muitos casos nem mesmo tornamos essa tarefa mais fácil. Ao contrário, dificultamos ainda mais e buscamos o humor acima de tudo.

Em Coringa, o riso é amargo porque o que dói é maior do que o que faz rir. O filme que foi acusado de supostamente ser um propulsor da violência e ainda romantizar-la, mostrou-se como uma clara evidência da violência que estamos cometendo constantemente e não nos damos conta. O maior mérito de Coringa é a sua capacidade de nos fazer pensar e sentir muito depois que a película termina. Nesse circo somos todos palhaços. Palhaços repletos de apatia.  

Lucas Pimentel

Você acredita em milagres? Também não, mas vivo na esperança de um universo de filmes maravilhosos da DC. Enquanto não acontece, sonho e escrevo.

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